Detesto reduzir um país a uma só coisa, mas é inevitável pensar em massagens quando se fala da Tailândia. E quando se está na Tailândia é quase fatal acabar num daqueles Spas — que em certas ruas de Banguecoque existem porta sim, porta sim — para uma sessão de deliciosa e energizante fricção ao corpo inteiro (que se assemelha em muito a uma luta greco-romana...) ou, no mínimo dos mínimos, aos pés. Foi o que aconteceu à Nina, uma alemã de férias na Tailândia que vi ao fim da tarde num Spa da Silom Road e que não se importou de falar comigo enquanto era massajada. Leitora habitual, a Nina aponta os thrillers como o seu género literário preferido. Durante muito tempo leu tudo o que encontrou de autores escandinavos, até que esgotou esse filão. Teve, por isso, de procurar outros escritores e foi então que descobriu o australiano Michael Robotham. "Este autor é muito bom", disse-me. "Acabei de ler um livro seu ontem à noite e gostei tanto que fui imediatamente fazer o download de outro. Comecei logo a ler". O livro em questão era "Adrenaline", numa edição alemã para o Kindle.
segunda-feira, 30 de junho de 2014
domingo, 22 de junho de 2014
Banguecoque — O meu Nirvana
Fui visitar Wat Pho, o templo mais antigo da capital da Tailândia, e não estava preparada para o que ali encontrei. Ainda bem. Sem saber ao que ia, sem ter visto antes qualquer imagem do local, a experiência foi avassaladora e tenho ainda hoje, passados quase dois meses, dificuldade em encontrar as palavras certas para descrever o que senti perante tanta beleza. Foi mágico... Chorei e ri, sem vergonha, na frente de toda a gente. Percorri com a ponta dos dedos o minucioso trabalho de cerâmica, vidrilho, madre pérola e folha de ouro que cobre a maior parte do exterior dos pagodes que se erguem no recinto. Segui atentamente as histórias contadas pelas figuras pintadas nos metros e metros de murais. Fui hipnotizada pela repetição exaustiva de padrões simples pintados em cores quentes nos tetos altos. Fiquei perplexa perante a elegância do Buda reclinado, apesar das suas dimensões colossais — 15 metros de altura e 43 metros de comprimento — e deliciei-me com o seu sorriso doce, sereno, um dos poucos que vi até hoje maiores que o meu: 5 metros de sorriso! Fechei os olhos e deixei que a poderosa energia que ali se concentrava tomasse conta de mim. Numa tentativa de evitar o caminho de um grupo de visitantes apressados, fiz um desvio súbito no meu trajeto, encontrei-me num recanto mais isolado e dei de caras com um monge a ler. Gostava de ter uma história maravilhosa para vos contar acerca desta fotografia. Uma história que contivesse uma revelação ou um ensinamento. Algo assim profundo. Mas não tenho. Contudo, este encontro breve, feito de parcas palavras e muitos sorrisos, fechou com chave de ouro o dia mais emocionante da minha curta passagem por Banguecoque. O monge, que não falava uma palavra de inglês, percebeu a minha intenção: tirar uma fotografia. Mas duvido que tenha percebido que o meu interesse era fotografá-lo a ler. Não percebi o seu nome. Não me soube explicar o que lia, nem porquê. Perguntei-lhe se teria um email para enviar-lhe a fotografia. Disse que sim. Passei-lhe o meu bloco de notas e a caneta para que o escrevesse, mas o que me deu foi a morada e o número de telefone de um templo numa província distante. Só o percebi mais tarde, quando a rececionista do hotel me traduziu os apontamentos. Foi, portanto, um encontro feito de alguns mal entendidos, mas ainda assim um encontro cheio de boas intenções. Foi o meu Nirvana.
Mais fotos deste encontro aqui.
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quinta-feira, 19 de junho de 2014
Malaca — Inga, a viajar há quarenta anos
Conheci a Inga no hostel onde fiquei alojada em Malaca. Passei pela cozinha, ao descer do meu quarto, e lá estava ela, sentada à grande mesa, agarrada a um livro. A Inga tem 60 anos e começou a viajar sozinha na década de 70. Um dos locais por onde esta holandesa andou mais tempo foi o continente africano, onde trabalhou dez anos e viajou outros dezassete. No que diz respeito a Malaca, esta era a sua quarta vez na cidade. "Adoro esta parte do globo. É seguro e as pessoas são muito simpáticas. E também porque não há ninguém a pedir. Já vi demasiada gente a pedir. Não posso apreciar a minha vida se estou rodeada de gente sem comida", explicou. Para além das viagens, a leitura é uma outra grande paixão sua. Lê imenso e diz não conseguir imaginar o mundo sem livros. Fotografei-a ler "Lost in Shangri-La", o relato de um episódio verídico ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial, quando um grupo de militares parte em busca dos sobreviventes de um acidente de aviação, perdidos na floresta tropical da Nova Guiné. Uma história que considerou entusiasmante!
domingo, 15 de junho de 2014
Malaca — Nicolas & Emma
segunda-feira, 9 de junho de 2014
Kuala Lumpur — Livreiros: todos diferentes, todos iguais
Não sei do que gosto mais quando viajo: viver a experiência do choque cultural ou espantar-me com as semelhanças. Uma pessoa vai até ao outro lado do mundo, visita um país que nada tem a ver com o seu, perde quase todos os seus pontos de referência, mas encontra uma colega de profissão com quem tem imenso em comum. Estar a conversar com alguém de outra cultura pela primeira vez e dar por si a dizer "Pois é, é mesmo isso!" é tão emocionante quanto ficar alojada na casa de uma família Hmong, tribo do norte do Vietname, que está no extremo oposto do meu estilo de vida. Encontrei a Abbie no shopping das Torres Petronas, onde também eu tinha ido almoçar. Alegria pura foi o que senti quando me disse que era livreira na Books Kinokuniya, uma rede japonesa de livrarias. A partir desse primeiro ponto em comum coincidimos em muitas outras coisas. Tal como eu, a Abbie lê imenso e ri-se da ironia que é deixar parte considerável do seu salário no sítio onde trabalha. Tal como eu, a Abbie considera os livros caros, só que na Malásia isso não se deve à pequenez do mercado, mas sim ao facto de quase não haver edição nacional e trabalharem sobretudo com edições importadas dos EUA e do Reino Unido. Tal como eu, a Abbie tem a sorte de poder ler os livros que são oferecidos pelos editores, mas com uma diferença: quando me oferecem livros, recebo a edição que vai para o mercado, enquanto ela recebe uma "review copy", que é uma edição mais barata produzida para promover os livros junto de quem os vai vender. E tal como eu, a Abbie considera fundamental sentir-se agarrada pela primeira frase de um livro. Fotografei-a quando lia "The Killer Next Door", de Alex Marwood, um thriller psicológico que, na sua opinião, explora muito bem os meandros da mente humana. "É maravilhoso encontrar um bom livro!", disse-me. "É uma fonte de felicidade". E eu, tal como ela, sinto extamente o mesmo.
quinta-feira, 5 de junho de 2014
Kuala Lumpur — Danusha, nas Petronas
Quis ir à Malásia por causa de Malaca. Meti na cabeça que queria conhecer o bairro português ou "Portuguese Settlement", como lhe chamam por lá. Infelizmente a visita ao bairro foi uma tremenda desilusão. Há duas ou três ruas com nomes portugueses, casas de arquitectura descaracterizada, uma praça com um par de restaurantes onde se confeccionam pratos de inspiração vagamente lusa e um museu liliputiano repleto de tralha que não interessa nem ao Menino Jesus. Verde, vermelho e motivos do folclore português pintados nas paredes. E eu que implico solenemente com esta imagem de Portugal parada no tempo, como se nos reduzíssemos a bacalhau e corridinhos. Ou viras. Trocámos algumas palavras com um senhor que nos levou ao museu. Discursou longamente sobre as diferenças entre o português que lá falam e o português de Portugal, mas fê-lo sempre em inglês. E ainda se queixou que as novas gerações não querem aprender o idioma dos tetravós. Pudera! Que interesse tem aprender o idioma de um país que, retratado desta forma, parece cheirar a mofo? Da nossa língua só ouvimos mesmo as palavras ditas por um pescador, que remendava redes sentado no chão. As vogais muito abertas, num sotaque vagamente tropical. E mais nada. Malaca, Património Mundial da Humanidade desde 2008, é engraçada e merece ser visitada. Dá prazer passear pelas ruas de travo europeu cheias de turistas e fazer o roteiro das lojinhas, que são muitas e de muito bom gosto. Mas o que salvou mesmo a ida à Malásia foi a sua capital, Kuala Lumpur, a cidade que parece encerrar vários países. Fiquei alojada no bairro chinês, contudo, ao virar da esquina, parecia chegar à Índia quando surgia um templo hindu de cores psicadélicas. E cinco vezes por dia viajava até ao norte de África sempre que ouvia o muezim chamar os fiéis para as orações. Porém, os encantos de Kuala Lumpur não se reduzem a esta mistura surpreendente de culturas que parecem conviver em paz. Kuala Lumpur é, a par das tradições e rituais ancestrais, uma cidade moderníssima, que esbanja juventude, dinamismo e luxo, uma faceta que tem como expoente máximo as badaladíssimas torres Petronas, outrora as mais altas do mundo. Foi junto à entrada da Torre 2, mesmo antes de entrar no shopping que lhe está adjacente para ir almoçar, que conheci a Danusha, uma jovem malaia cujo trabalho de auditoria lhe consome muito tempo. "Trabalho aqui nas Petronas. Já li mais do que leio atualmente. Mas aproveito todo o tempo livre para fazê-lo. Leio sobretudo romances, mas também gosto de não ficção. Salman Rushdie é talvez o meu autor favorito, embora só tenha lido três romances dele", disse-me. O livro que tinha consigo naquele dia era "The Finkler Question" ("A Questão Finkler", na sua edição portuguesa), romance que valeu a Howard Jacobson o Booker Prize de 2010. "Foi-me oferecido por um amigo" contou-me. E enquanto me mostrava a extensa dedicatória escrita nas primeiras páginas, esse amigo chegou e aproximou-se de nós. "Bem, na verdade ela queria o livro", disse ele rindo-se. Trocaram um olhar cúmplice e a Danusha completou: "Não costumo ler as sinopses. Leio apenas as críticas. E pelas críticas feitas a este romance achei que devia ser giro. E é mesmo muito divertido. Estou a gostar muito!" Olha de novo para o amigo e acrescenta "Quem também é escritor é ele. Está a escrever um livro que um dia será publicado". Ele não desmente. Explica que ainda não sabe o que é "aquilo". "Só palavras, por enquanto. Mas ela é que devia ser escritora", diz olhando para a Danusha. "Escreves muito bem". E deixei-os a discutir esse assunto não sem antes combinarmos que quem publicasse primeiro um livro teria de me dar conhecimento.
Mais fotos da Danusha e das torres Petronas aqui.
You can find more pictures of Danusha and the Petrona Towers here.
Translated by Marisa Silva
Mais fotos da Danusha e das torres Petronas aqui.
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I wanted to go to Malaysia because of Malaca. I was determined to visit the Portuguese neighbourhood or Portuguese Settlement, as it is called there. Unfortunately the visit was very disappointing. There are two or three streets with Portuguese names, houses with uncharacteristic architecture, a square with a couple of restaurants where dishes with remote Portuguese roots are served and a Lilliputian museum filled with junk with no interest at all. Green, red — the colours of the Portuguese flag — and motifs of Portuguese folklore are painted on the walls. A torment for me who disagrees with this image of a Portugal frozen in time, as if we were nothing else but codfish and corridinhos. Or viras.* We talked for a while with a gentleman who took us to the museum. He made a long speech about the differences between the Portuguese they speak and the Portuguese spoken in Portugal, but he did it in English. And yet he complained that the new generations don’t want to learn the language of their great-grandparents. No wonder! What interest could there be in learning the language of a country that, with such a portrait, seems to be old fashioned? We just heard a few Portuguese words from a fisherman who was sewing nets, sitting on the floor. Very open vowels, in a slightly tropical accent. Nothing else. Malaca, a World Heritage site since 2008, is funny and deserves to be visited. It is pleasant to stroll in its streets with a slight European ambience, filled with tourists, and enter the small shops, which are many and of good taste. But what really saved the trip to Malaysia was it’s capital, Kuala Lumpur, the city that seems to enclose several countries. I was housed at the Chinese neighbourhood, but, when I turned the corner, it seemed like I was arriving in India when Hindu temple of psychedelic colours appeared. And five times a day I travelled to North Africa every time I heard the muezzin calling the Muslim congregation to pray. But, the charms of Kuala Lumpur aren’t reduced to this surprising mix of cultures that apparently live together peacefully. Kuala Lumpur is, along with its traditions and ancient rituals, a very modern city, that exudes youth, dynamism and luxury, a side that has its pinnacle on the well-known Petrona Towers, once the highest of the world. It was near the entrance of tower 2, right before entering the shopping next to have lunch, that I met Danusha, a young Malaysian woman whose auditing job is very time consuming. “I work here at the Petronas. I have read more than I do now, yet I use all of my free time to do it. I read mostly novels, but I also like non-fiction. Salman Rushdie is maybe my favourite author, although I only read three of his novels”, she told me. The book she had with her that day was "The Finkler Question", the Howard Jacobson novel awarded with the 2010 Booker Prize. “A friend offered it to me” she said. And while she was showing me the extensive dedicatory written on the first pages, that friend arrived and came closer to us. “Well, actually she wanted the book”, he explained, laughing. They exchanged an accomplice look and Danusha completed: “I don’t usually read the synopsis. I only read the reviews. And by the reviews of this novel I thought it should be fun. And it is full of fun. I’m enjoying it very much!” Again she looks at her friend and adds “He is also a writer. He is writing a book that one day will be published”. He does not deny it. He explains he doesn’t know yet what “it” is. “Only words so far. But she should be a writer to”, he says looking to Danusha. “You write very well”. I left them arguing this matter but before we agreed that whoever publishes the book first would let me know. You can find more pictures of Danusha and the Petrona Towers here.
Translated by Marisa Silva
*Corridinhos and Viras are traditional Portuguese dances.
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