domingo, 28 de setembro de 2014
Vientiane, Houmphan e Khamnikhom
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
Luang Prabang — Oliver & Collin Cotterill
Antes de se unir ao rio Mekong, o rio Nam Khan desenha uma curva acentuada que contorna, à esquerda, a península de Luang Prabang. Quem se passeia pelas principais artérias da cidade — ruas Sisavangvong e Sakkaline — irá invariavelmente terminar alguma das suas caminhadas na colina que se ergue no local onde os dois rios de juntam. Nesse ponto alto existe um pequeno jardim relvado e com coqueiros altíssimos à sombra dos quais é comum encontrar gente sentada. Já lá tinha estado um dia e tinha ficado intrigada com o que estaria na outra margem, de maneira que regressei ao local decidida a pagar os 5000 Kips (0,47 Euros) para atravessar a ponte de bambu, que me pareceu saída de um filme do Indiana Jones. No outro lado encontrei, para além de dois templos budistas muito simples, uma aldeia atravessada por um caminho de terra batida. As casas tradicionais, construidas sobre estacas e preparadas para deixar passar as águas furiosas da época da chuva, alinhavam-se nos dois lados do caminho e albergavam uma pequena comunidade de pescadores, agricultores e tecelãs peritas na arte de fabricar as sedas mais finas e delicadas. Foi junto a um desses teares que fiquei mais tempo, entretida a observar os gestos repetitivos que dão origem a peças únicas. Ao regressar à outra margem e à proteção do coqueiral, sentei-me junto do Oliver, que lia. Sorvi uma garrafa inteira de água, levantei o chapéu para limpar o suor da testa, recuperei o fôlego e só depois meti conversa. Este alemão tinha tirado um mês para viajar pela Ásia. Havia 10 dias que andava de mochila às costas. Já tinha estado em Banguecoque e tinha chegado recentemente ao Laos. Leitor habitual daquilo a que chamou "clássicos modernos", lamenta não ler mais por falta de tempo. As férias serviam, portanto, para se redimir e tinha-lhe parecido muito boa ideia aproveitar para ler algo cuja ação se passasse no país que visitava. Era o caso de "Dr. Siri und Seine Totem" ("The Coroner's Lunch", na edição original), um dos policiais de Collin Cotterill, autor de nacionalidade inglesa e australiana que reside na Tailândia. A série que tem Dr. Siri, um médico legista, como principal personagem é totalmente passada no Laos e já arrecadou vários prémios literários. Os seus livros estão à venda nas poucas livrarias do país, assim como em quase todas as lojas de souvenirs e Cotterill tem a hombridade de fazer reverter os direitos de autor para projetos de solidariedade social a decorrer no Laos.
domingo, 21 de setembro de 2014
Luang Prabang, Touy e Winnie
Sobrenatural. Este é o primeiro adjetivo que me ocorre para vos descrever Luang Prabang. Há algo de sobrenatural em Luang Prabang. Há naquela pequena cidade, que foi capital do reino do Laos por mais de mil anos, uma energia única, uma força pura a que me entreguei sem reservas. E quando recordo os dias que lá vivi penso em leveza. Sim, acho que foi isso que aconteceu, andei por lá a levitar. Levitei sobre as ruas de velhas casas coloniais erguidas pelos franceses nos tempos da Indochina; sobre os montes de onde vi o pôr do sol cobrir a cidade de ouro; sobre os templos de telhados inclinados que se desdobram em sucessivas camadas até quase roçarem o chão; sobre as palmeiras verdíssimas e as frangipanis floridas, ainda mais belas quando em contraste com as nuvens negras da monção; sobre as filas de monges de vestes laranja que recolhem a comida ofertada pelos fiéis ao nascer do dia; sobre os rios Mekong e Khan, de águas castanhas, embora possa jurar que também os atravessei deslizando numa canoa ou pousando os meus pés, muito a medo, nas pontes de bambu. Levitei, apesar da canícula que a seguir ao almoço me empurrava com urgência para o ar condicionado do quarto de hotel, de onde só saía à tardinha para me dirigir, uma e outra vez, à margem do Mekong, o rio feitiço. Aí, a tomar uma BeerLao fresca, assistia sempre com espanto ao espetáculo da bruma que surgia do nada para se apoderar das fileiras infinitas de montanhas que, na riba em frente, se desenhavam até ao horizonte. Fui feliz em Luang Prabang, esse pedaço de alma do Laos. Fui feliz até nas pessoas que o acaso colocou no meu caminho, como aconteceu na primeira manhã que passei na cidade, quando entrei na modestíssima biblioteca pública: três pequenas salas, dois funcionários simpáticos, algumas estantes com livros laosianos, franceses e ingleses e cinco leitores. Foi aos noviços que pedi a fotografia, longe de adivinhar que iria vê-los todos os dias até à minha partida para Vientiane. O Touy (à esquerda) e o Winnie (à direita) vieram ambos de longe, de aldeias remotas, para continuar os seus estudos no Wat Pa Phai, um templo budista construído no início do século XIX. Ambos terão de decidir, aos 20 anos, se pretendem enveredar pelo sacerdócio. Para Winnie, o mais novo, essa decisão pode esperar, mas para Touy, com 19 anos, a escolha terá de ser feita em breve. Perguntei-lhe se já sabia o que fazer. Não me soube responder. A única certeza que tem, tal como Winnie, é que quer estudar inglês. Esse é o seu sonho, ser fluente em inglês e com essa ferramenta poder visitar outros países. No templo onde estudam já houve em tempos aulas de inglês, mas agora estão sem professor. Por isso, numa ânsia de saber mais, estudam sozinhos sempre que podem, quer no quarto onde dormem, quer na biblioteca onde para além dos livros têm acesso à internet e podem ver vídeos em inglês no Youtube. No templo não há televisão. Fotografei-os a ler em inglês e os livros escolhidos espelhavam o domínio que tinham do idioma. Embora Winnie fosse muito mais fluente, os dois liam livros infantis nada adequados às suas idades, mas adequados ao pouco que sabiam. Touy, por exemplo, lia uma história do urso Pooh. Nesse momento, o Laos ficou-me para sempre associado à imagem de um rapaz de 19 anos que, na viragem para a vida adulta, lê a história de um ursinho: um território milenar com episódios recentes de grande violência e, ainda assim, com um grau desconcertante de ingenuidade. Depois de tirada a fotografia, estes dois adolescentes, com uma delicadeza comovente a que já não estou habituada, perguntaram-me se não estaria na disposição de ir com eles para outra sala onde pudéssemos conversar em inglês à vontade. Explicaram-me que aproveitam todas as oportunidades para praticar um pouco. E assim fiz. Naquela manhã e em todas as outras que passei em Luang Prabang. Falámos de tudo um pouco: das aldeias de onde vêm, das famílias, da vida nos campos, dos grupos étnicos a que pertencem, dos seus projetos de vida, do pouco dinheiro que têm para realizar os seus sonhos, da minha viagem, da imensidão do mundo e do quanto tem de belo para ver. Diálogos que decorreram de forma lenta, com grandes silêncios pelo meio de cada vez que procuravam a palavra inglesa certa para se expressarem. Vi-os pela última vez num domingo à tarde no templo Wat Pa Phai, onde vivem. Nesse dia o Touy estava de guarda ao recinto e não podia ausentar-se. Quando cruzei a porta do templo levantou-se da mesa onde estava a estudar, sob uma árvore, e sorriu largamente enquanto ajeitava o hábito laranja. O resto dos colegas fazia as suas orações. Ouvia-lhes os cânticos. À nossa volta circulavam alguns cães, felizes, de caudas imparáveis. Dei uma vista de olhos aos exercícios em inglês que fazia, conversámos mais um pouco e despedimo-nos quando o sol se punha. Luang Prabang, Touy e Winnie. Um trio que tem lugar cativo nas minhas recordações mais emotivas dos dias passados no Laos. Pergunto-me com frequência o que será dos seus futuros.
terça-feira, 16 de setembro de 2014
Laos — Chris, a caminho de Luang Prabang
A maioria dos passageiros transportados pelo "slow boat" que deslizou com vagar pelo Mekong era ocidental. Para além da tripulação, praticamente não havia laosianos a bordo. Meia dúzia, talvez. E dos cinquenta ou sessenta estrangeiros que lá iam sentados, quase todos estavam na faixa entre os dezoito e os vinte e poucos anos. Ingleses, alemães, suecos, dinamarqueses, holandeses, todos estes mochileiros e mochileiras de ar pueril pareciam não ter ainda sequer frequentado a faculdade. Durante os dois dias em que estivemos confinados ao espaço exíguo do barco, pude observá-los e... invejá-los. Dei por mim a lamentar não ter passado por uma experiência destas mais cedo. Após uma viagem de longa duração, a vantagem que estes miúdos levam sobre os outros, ao enfrentar a vida académica ou um primeiro trabalho, só pode ser enorme. Todos os dias, durante semanas, por vezes durante meses, tomam decisões que os obrigam a crescer. Para além da gestão óbvia do tempo e do dinheiro, têm no mínimo de lidar com choques culturais consideráveis, adaptar-se a climas extremos, escolher com quem relacionar-se ou não, estabelecer novas redes de contactos e de apoio, definir itinerários que possam percorrer em segurança, negociar preços de refeições e de alojamentos com gente que não fala uma palavra de inglês ou optar entre preguiçar na praia ou explorar um museu. Ao mesmo tempo, estas viagens são também um grande exercício de liberdade, a ocasião para testarem os seus limites e se afirmarem longe da família e do habitual círculo social controlador. E naquele barco, durante os dois dias de ócio a que fomos forçados, a liberdade foi flirtar, beber litros de alcool, comer batatas fritas e consumir drogas. Depois, por vezes, num intervalo entre conversas, cervejas e charros, alguém puxava de um livro. A dada altura, eram tantos os leitores a bordo que me entretive a fotografá-los ao longe, sem que disso se apercebessem. Por fim, quando decidi falar com um deles, optei por me dirigir ao Chris, que lia "Catch 22". À semelhança da Emma, este britânico andava a viajar só e já ia no seu terceiro ano de aventuras. Apanhou o Transiberiano até à Mongólia, passou uma temporada a trabalhar na Coreia do Sul, partiu depois para as Filipinas e daí seguiu para a Austrália onde voltou a trabalhar. Visitou a Nova Zelândia e iniciou a seguir o périplo pelo sudoeste asiático. Depois do Laos ainda ia conhecer o Cambodja e o Vietname de onde voltaria, por fim, a casa. Quanto ao livro que lia, explicou: "Encontrei-o no último hostel onde estive alojado. Há muito tempo que queria lê-lo, por isso trouxe-o. Não compro livros. Vou de hostel em hostel e troco os que acabei de ler por outros. Só quando comecei a viajar é que comecei a ler mais. Na faculdade não tinha este hábito". A julgar pelo exemplo do Chris e de muitos outros que conheci, as viagens têm também esta grande virtude: despertar leitores adormecidos. O irónico é que comigo tenha acontecido exatamente o contrário. Não peguei num único livro durante seis meses. Talvez um dia escreva sobre isso.
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