
Cheguei a Phnom Penh depois de uma nova viagem de autocarro que demorou praticamente todo o dia. Foram pouco mais de 300 quilómetros percorridos a partir de Siem Reap, numa estrada em construção. Prevê-se que daqui a algum tempo essa estrada venha a parecer-se com qualquer outra via secundária portuguesa, mas por enquanto não passa de um caminho de terra vermelha que se entranhou em todas as frinchas do autocarro, em particular na bagageira. Ao descermos na capital, foram inglórios os esforços dos funcionários para sacudir com palmadas a camada fina de pó que pousou sobre as bagagens. O trajeto foi feito quase sempre aos solavancos e em marcha muito lenta para contornar buracos, valas, maquinaria e trabalhadores. Valeu-me o belo dia de sol, a típica paisagem do sudeste asiático onde dominam os reflexos dos arrozais alagados e as palmeiras que nos parecem sempre incrivelmente verdes, o lugar onde parámos para o almoço e onde me diverti a fotografar a vendedora de insetos (esse petisco que não ousei provar...), e os programas humorísticos e telediscos cambojanos exibidos na televisão a bordo, que me fizeram rir pela algaraviada e pela produção rudimentar. A entrada em Phnom Penh é tão pouco impactante que tenho sobre esse momento memórias difusas. É bem provável que isso se deva, também, ao cansaço. Recordo apenas as longas avenidas ladeadas por prédios sem portas e sem janelas, negros de sujidade ou humidade e que pareciam prestes a desmoronar-se. Só mesmo quando nos aproximamos do centro, abrindo alas por entre os milhares de motas e tuk tuks, é que a capital começa lentamente a revelar o seu charme. E digo lentamente porque Phnom Penh é, talvez, a capital mais decadente onde estive naquela região do globo, pelo que é preciso fazer-se um esforço para, por entre o caos e o lixo, se descobrirem encantos. A verdade é que à medida que os dias foram passando, Phnom Penh entranhou-se-me e descobri o prazer de pura e simplesmente flanar pelos seus boulevards herdados dos tempo dos franceses e da Indochina, entrar e sair das pequenas lojas requintadas que vendem os algodões e as sedas mais finas e onde ainda é possível ser-se atendido num francês correctíssimo, visitar ateliês de pintores e fotógrafos, erguer o olhar apreciar os edifícios coloniais que apesar da decrepitude mantêm uma aura nobre. Só o espectáculo do que acontece nos passeios de Phnom Penh é por si só um entretenimento. Naquela cidade, os passeios servem para tudo, menos para a circulação dos peões. Nesses troços de via pública tudo pode acontecer: estacionam-se centenas de motas, estendem-se redes onde os condutores de tuk tuk e de riquexó dormem nos momentos de ócio, montam-se barbearias ou restaurantes em poucos minutos, expõe-se todo o stock de uma loja, reparam-se veículos em oficinas improvisadas ou acumula-se ferro velho. Enfim, em Phnom Penh os peões habituam-se depressa a partilhar a estrada com quem anda sobre rodas. Embora a ida ao Palácio Real, ao Museu Nacional e ao Wat Phnom — o templo mais popular da cidade — sejam recomendáveis, até porque consomem muito pouco tempo, a visita mais marcante que qualquer viajante fará em Phnom Penh será sem dúvida ao Museu do Genocídio Toul Sleng, uma antiga escola que se viu transformada em prisão e centro de tortura nos anos em que vigorou no Camboja o regime de terror de Pol Pot. E depois, há a ida ao campo de morte Choeung Ek, a 15 quilómetros de Phnom Penh, uma experiência aterradora, mas que eu não quis evitar (embora a tivesse adiado o mais que pude). Só aqui foram exumados em 1980, de 86 valas comuns, os corpos de quase 9 mil vítimas dos Khmer Vermelhos. Outras 43 valas foram deixadas por abrir. Homens, mulheres e crianças foram barbaramente assassinados neste local. Ainda hoje, quando a água da chuva alaga o campo, vêm ao de cima restos de roupas, pedaços de ossos e dentes que vão sendo recolhidos e guardados em caixas de acrílico espalhadas pelo recinto. O Killing Filed de Choeung Ek é apenas um dos 300 que existem em todo o Cambodja e a sua visita, juntamente com a ida ao Museu do Genocídio Toul Sleng, foi o momento mais triste de toda a minha viagem. Na manhã em que tinha de comprar a viagem para o Vietname, que faria mais uma vez autocarro, tive de voltar à zona mais trendy de Phnom Penh, conhecida por Sisowath Quay. Nessa longa avenida que bordeja o rio Tonle Sap, e nos quarteirões adjacentes, concentram-se grande parte das infraestruturas e serviços concebidos sobretudo para os turistas, nomeadamente hotéis, restaurantes, bares e todo o tipo de comércio. Há, até, uma pequena livraria. Numa das muitas esplanadas que existem ali, conheci a Anne Sofie, dinamarquesa e viajante a solo. "Sou estudante de medicina", contou-me, "mas precisei de fazer uma pausa e decidi tirar um ano para mim. Estou a viajar há três meses sozinha e nunca me senti insegura, até porque houve muitas ocasiões em que me integrei em grupos. Comecei por apanhar o Trans Mongolia Express e fui de Moscovo até Pequim. Daí parti para o Nepal, onde trabalhei como voluntária. Terminei a estadia em Kathmandu passando dez dias num mosteiro budista e foi de lá que vim para o Camboja. Ainda vou visitar o Laos e o Vietname e dentro de um mês devo estar a regressar à Dinamarca". O livro, esse, não me reservava grandes surpresas. A Anne Sophie é mais uma leitora irremediavelmente seduzida pelas Crónicas de Gelo e Fogo. Lia o segundo volume de "A Clash of Kings". "Já ouvi falar da série de televisão, mas nunca a vi. Os meus amigos também já me tinham falado dos livros e como os vi à venda muito baratos em Pokhara decidi comprar o primeiro volume. Fiquei viciada e comprei o segundo em Kathmandu. Quando voltar à Dinamarca tenho a certeza que vou ver a série!". E quantos aos seus hábitos de leitura? O assunto ficou arrumado com a resposta que me deu: "Em três meses de viagem já li 17 livros".

Sabia (e ainda sei) muito pouco sobre o Reino do Camboja. E o pouco que sabia prendia-se quase exclusivamente com duas coisas: os Templos de Angkor, Património Mundial da Humanidade que sonhava conhecer um dia; e o regime sanguinário dos Khmer Vermelhos, liderados por Pol Pot, assunto que nos anos 70 e 80 do século passado foi muito mediatizado a ocidente. Até a indústria do cinema deu o seu contributo na denúncia do Genocídio Cambojano quando estreou, em 1984, o filme "Terra Sangrenta" (The Killing Fields"). Vi-o quando era adolescente e marcou-me. Agora que sei um pouco mais sobre este país e que chego a envergonhar-me da imagem redutora que trouxe na cabeça durante tantos anos, recordo as palavras sábias de Chimamanda Ngozi Adichie, a autora nigeriana que numa TedTalk se debruçou sobre o "perigo da história única" a que somos todos tão vulneráveis muito por influência dos media. Diz ela: "Esta é a forma como se cria uma história única. Descrevam um povo como uma coisa, como apenas uma coisa, uma e outra vez, e é nisso que ele se torna (...) A história única cria estereótipos e o problema dos estereótipos não é que sejam falsos, mas que sejam incompletos. Fazem com que uma história seja a única história". Daí o português manso, o espanhol aguerrido, o francês racista, o alemão nazi, o angolano corrupto, o brasileiro trafulha, o chinês porco, o muçulmano terrorista... Tenho dito a quem me pergunta sobre os supostos perigos da viagem que fiz, que o mundo não é o que se vê nos noticiários das 20h. O que esses noticiários mostram é uma parcela ínfima do que é a vida no nosso planeta, feito na sua maioria de gente que, com mais ou menos dificuldade, leva um dia a dia rotineiro, "normal", em muitos aspetos semelhante ao meu. Como também disse Chimamanda, "a consequência da história única é que (...) enfatiza o quanto somos diferentes, mais do que o quanto somos similares". Por tudo isto, se me pedissem um dia para apontar apenas uma virtude ao ato de viajar, julgo que diria que é a possibilidade de nos libertarmos das muitas histórias únicas que reduzem o nosso planeta caleidoscópico a uma lista de preconceitos. Ainda antes de aterrar em Siem Reap, e com grande surpresa, a minha "história única" acerca dos Khmer desmoronou-se e a palavra ganhou toda uma nova dimensão, altamente positiva, que me permitiu ver o Camboja sob uma nova luz. Não, Khmer não são apenas os seguidores do Partido Comunista que governaram o país entre 1975 e 1979 e que são responsáveis pela morte de quase três milhões de compatriotas. Khmer é o nome dado à língua que se fala no Camboja, mas é, principalmente, o nome do maior grupo étnico cambodjano, aquele que entre os séculos IX e XVI estabeleceu o riquíssimo e muito sofisticado Império Khmer, que teve como principal capital a bela Angkor, a maior cidade pré-industrial do mundo. Aí, numa área de cerca de três mil quilómetros quadrados, ergueram-se mais de cem monumentos angkorianos e estabeleceu-se o coração político, cultural e religioso de uma das maiores civilizações do sudoeste asiático. Tive a felicidade de poder passar três dias a visitar alguns dos monumentos mais icónicos deste lugar extravagante. E fi-lo de bicicleta, apesar das temperaturas que chegaram a sensações térmicas na ordem dos 40 e muitos graus centígrados. A experiência superou todas as expectativas que eu poderia ter alimentado. Sim, o nascer do sol por detrás do templo principal, Angkor Wat, é de uma beleza esmagadora. Assim como é o por do sol precisamente no mesmo lugar. Mas o que dizer da liberdade que foi percorrer a selva luxuriante a pedal, por caminhos nem sempre alcatroados, e ver surgir no meio da vegetação o sorriso plácido de um gigantesco rosto de Buda esculpido na torre de um templo ou na abertura de uma muralha? E como descrever a emoção de entrar nesses templos, percorrer os corredores e as salas eximiamente decoradas com baixo-relevos de um requinte inesperado, subir ao topo dos edifícios e sentir-me pequeníssima perante a escala brutal daquela obra, a força do sol, a inclemência das temperaturas, o azul do céu, as grossas nuvens brancas imóveis, o verde da floresta e os sons que ela emana? "Que lindo! Que lindo!" era quase a única coisa que eu conseguia articular dia após dia, um monumento após o outro. Eu sei que sou dada a estes exageros e que muitos dos que já lá estiveram poderão não ter sentido o mesmo, mas visitar Angkor da maneira que o fiz — totalmente autónoma, ao meu ritmo, de acordo com o plano que eu mesma estabeleci, muitas vezes por trilhos desertos — não foi só um momento alto desta viagem; foi um dos momentos mais ricos da minha vida. E depois, aquilo que eu achava quase improvável: um cambojano a ler junto aos muros de Benteay Kdei, um templo budista construído em meados do século XII. "Sou funcionário do Parque Arqueológico de Angkor", disse-me, "e gosto de ler sobre a história do meu país, sobre os reis do Camboja e sobre estes templos em particular. Este livro é sobre a construção de dois dos monumentos mais importantes do Camboja: Angkor Wat e Bayon". E com isto, a estocada final numa outra história única: aquela em que se afirma que nos países pobres não se lê porque outras necessidades mais básicas se impõem.

Durante a viagem, não houve uma única cidade, um único país que não me custasse deixar para trás. De cada vez, foi inevitável questionar-me: voltarei um dia? Na manhã em que parti de tuk tuk do centro de Vientiane para o aeroporto internacional, levava um peso no peito. Voava dali a poucas horas para o Camboja, um novo lugar cheio de promessas excitantes, mas lamentava que os dez dias vividos no Laos tivessem passado tão depressa. Não houve, de facto, uma única cidade, um único país que não me custasse deixar para trás. Porém o Laos faz parte daquele punhado de lugares de onde mais me doeu partir. Enquanto o tuk tuk acelerava pelas ruas e se aproximava o momento da despedida, apenas um outro aspeto conseguia ensombrar mais o meu dia — o voo propriamente dito. O bilhete, comprado online, indicava com diligência que a segunda parte da viagem, entre Pakse (ainda no Laos) e Siem Reap (perto de Angkor, no Camboja) seria feita num ATR 72-600 e a pergunta "Mas que raio é um ATR 72-600?!" não parava de me martelar a cabeça. Uma pessoa sabe o que é um Airbus ou um Boeing. Sabe até o que é um Embraer ou um Cessna. Mas um ATR 72-600 não sabe o que é. Nem a pesquisa no Google e a descoberta de que o avião é fabricado em França e em Itália me tranquilizou. Deixei que os preconceitos viessem ao de cima e com o discernimento toldado só pensava numa coisa: estava prestes a embarcar numa lata minúscula, movida a hélices e operada pela companhia aérea de um dos países mais pobres e recônditos onde alguma vez tinha posto os pés. E isso não podia ser bom, claro está. No primeiro aeroporto consegui distrair-me com os pormenores surreais do lugar, que mais parecia um rudimentar terminal de autocarros. No segundo areoporto, a distração veio na forma de um leitor chinês a quem pedi uma fotografia, mas com quem não pude conversar muito. Valeu-nos a sua amiga Shen Li, que serviu de tradutora. Com a sua ajuda, pude saber o mínimo dos mínimos: Liu ia visitar os esplêndidos Templos de Angkor pela primeira vez e lia uma biografia de Buda na esperança de aprender mais sobre a sua sabedoria. Quando, por fim, me sentei no lugar que me coube no ATR 72-600, ia mais contente. Não só tinha fotografado um leitor, como vi com agrado que tinha por companheiros de viagem três monges budistas. Sim, eu também sou daquelas que embora adore voar e passe a vida a advogar em defesa do meio de transporte mais seguro do mundo, acha que a presença de qualquer sacerdote num avião é um sinal de proteção sempre bem vindo. Admito. Um dos monges era velhíssimo. Muito pequeno, magérrimo e curvado para a frente num permanente ângulo reto, chegou de cadeira de rodas até às escadas do avião, mas fez questão de subi-las, muito lentamente, sem qualquer ajuda. Quando entrou, por fim, na aeronave, a hospedeira recebeu-o ajoelhando-se com reverência. Este homem que devia ser santo sentou-se quase ao meu lado, no outro lado da coxia, junto a um outro monge muito mais jovem que parecia ser seu assistente. Adotaram a posição de lótus e pareceram entrar em transe. Nada os demoveu, durante todo o voo, daquele estado zen. Já o terceiro monge, também jovem, veio sentar-se no lugar à minha frente e era, todo ele, um desassossego. Primeiro reparei nos rios de suor que lhe escorriam do crânio rapado e que o lenço mil vezes esfregado não conseguia conter. Depois temi pela segurança de todos quando, ao levantarmos voo, o senhor se alvoroçou em espasmos repentinos que o levavam a gesticular os braços e a abanar a cabeça em todos os sentidos. Pensei que estivesse a ter um ataque de pânico, mas perante a persistência daqueles movimentos sobre os quais não tinha controlo, percebi que devia padecer de algum tipo de síndrome cujos sintomas se acentuavam sob stress. O contraste não podia ser maior: os outros dois companheiros seguiam viagem na maior paz, enquanto ele parecia dançar breakdance sem sair do lugar. Só alguns dias depois entendi que a agitação deste monge era justificada: a ficha da Lao Airlines na Aviation Safety Network conta com mais de 50 acidentes e o último, onde morreram todos os ocupantes do avião, ocorrera com um ATR 72-600 havia menos de seis meses, no preciso trajeto que acabáramos de percorrer.