domingo, 30 de novembro de 2014

Vietname — Huy em Sa Pa



Deixei Ha Long Bay num domingo à tarde e parti em direção a Hanoi onde, umas horas depois, apanhei um comboio noturno para Lao Cai, uma pequena cidade no extremo norte do Vietname, junto à fronteira com a China. O objetivo era chegar a Sa Pa, um vilarejo pitoresco aninhado no sopé do Fan Si Pan, o ponto mais alto do país. 

Fiz a viagem num compartimento pequeníssimo onde havia quatro beliches. Eu e a Nilza ocupámos os da direita, ela em baixo e eu em cima; os outros foram ocupados por dois vietnamitas, aparentemente pai e filho, ambos homens de poucas palavras. Depois de várias semanas a queixar-me dos ares condicionados débeis dos transportes que frequentei, nessa noite dei graças por ter um polar para me agasalhar. Lá fora as temperaturas mantinham-se elevadas e a humidade não dava tréguas, mas a cabina onde me preparava para passar a noite parecia o pólo norte e os nossos companheiros de viagem, refastelados nas suas camas, estavam deliciados com o choque térmico. Porque o polar não chegou para me aquecer, enrolei-me o mais que pude na manta grossíssima colocada sob a almofada e deixei-me levar pelo embalo do velho comboio que, muito lentamente, deixava Hanoi. Pela janela, apesar da noite cerrada, consegui observar cenas fugazes da vida na capital do Vietname: as casas pobres de um bairro parcamente iluminado, as vendedoras de um mercado montado junto à linha, os casais que escolhem a ponte ferroviária para namorar na semi obscuridade, as famílias sentadas sobre mantas num descampado onde se entretêm a ver passar as pesadas carruagens de madeira e ferro. 

No interior do comboio instalou-se por fim o silêncio. Os passageiros estavam todos acomodados, o vai-vém nos corredores tinha cessado, a porta do nosso compartimento estava fechada com o trinco para evitar que se abrisse a cada curva e eu tentava adormecer fazendo de conta que não me deixava algo apreensiva estar trancada numa divisão de poucos metros quadrados com dois estranhos. O mais velho, em baixo, roncava; o mais novo, deitado ao meu nível e à distância de um braço esticado, vinha entretido com o telemóvel, que me passou para as mãos sem pré-aviso para que visse este vídeo. Devolvi-lhe o aparelho emocionada. Ele sorriu-me, tímido, e eu adormeci confiante: dali não vinha qualquer perigo, nem para nós, nem para a nossa bagagem. Ainda assim, passei a noite agarrada à pequena mochila que continha os meus documentos, algum dinheiro, o computador e as câmaras fotográficas, enfim, os meus bens mais valiosos. Passadas oito horas, acordámos todos com os berros de um funcionário dos caminhos de ferro que anunciava a chegada a Lao Cai ao mesmo tempo que batia nas portas das cabinas. Estremunhada, coloquei os cerca de vinte e cinco quilos de bagagem às costas, desci para a plataforma e segui as centenas de passageiros para fora da estação. Daí a uns minutos, apareceu a carrinha que nos levaria, montanha acima, até ao nosso destino final. 

Situada a cerca de quatrocentos quilómetros a noroeste de Hanoi, na zona mais montanhosa do Vietname, Sa Pa foi frequentada pelo colonizadores franceses entre os finais do século XIX e o fim da Segunda Guerra Mundial, tendo funcionado não só como base militar, mas também, graças ao seu clima ameno, como sanatório e estância de férias para os mais abastados. Entre as décadas de 50 e 60 do século XX, no seguimento de vários conflitos armados, Sa Pa ficou arrasada e votada ao abandono. O processo foi revertido pelas autoridades vietnamitas nos início dos anos 80, quando investiram no repovoamento da zona, até que nos anos 90 se apostou na abertura do lugar ao turismo. Desde então, nas últimas duas décadas, milhares de visitantes de todo o mundo chegam a Sa Pa ano após ano para mergulhar por uns dias na cultura das minorias étnicas que habitam a região. Foi o que eu fiz, também. 

Dos quatro dias que lá estive, dois foram passados a caminhar por entre os campos de arroz. Depois de os ter visto à distância durante tantas semanas pude, por fim, embrenhar-me neles, sentir-lhes o cheiro e, literalmente, a textura quando por acidente me desiquilibrei e enfiei um pé até ao tornozelo num arrozal alagado e lamacento. Nessa caminhada tivemos por guia a Mou, da tribo Hmong. Era tão pequena e franzina que mais parecia uma adolescente, mas Mou tinha vinte e oito anos, era casada e mãe de duas crianças. Assim que nos metemos a caminho, percebi que o seu ar de menina era muito enganador: Mou transbordava energia física e possuía um sentido de humor desconcertante. Não foram poucas as vezes em que gozou comigo, simulando sentir-se ofendida por algo que eu tivesse feito, para depois rir-se da minha surpresa, soltando gargalhadas infantis e fechando os olhos que ganhavam a forma de simples rasgos no rosto. Era linda a Mou, nas suas vestes tradicionais pintadas de índigo, a camisa verde alface, a saia de barras bordadas, as feições perfeitas e delicadas, a voz fina e meiga, as mãos miúdas, o cabelo negro comprido que quando solto lhe roçava a curva das nádegas, os pés pequeníssimos e a pernas torneadas pelos quilómetros que a profissão a obriga a percorrer. 

Para além dela, um grupo de meia dúzia de mulheres com os filhos às costas caminhou conosco com o único intuito de nos vender alguma coisa mal parássemos para comer ou antes de chegarmos à casa da família onde passaríamos a noite. Ágeis como gazelas, percorreram sem dificuldade os caminhos mais íngremes e escorregadios e foi graças à sua ajuda que não me estatelei um par de vezes. Estas mulheres, que tingem de azul escuro os panos que tecem com cânhamo e confeccionam com eles as suas próprias roupas, trazem quase todas as mãos pintadas de índigo até aos pulsos e eu cheguei a agarrar-me com tanta força e por tanto tempo às mãos de uma delas, que também as minhas pele se tingiu. Na sua companhia, a caminhada de muitas horas ganhou outro encanto. Quiseram saber das nossas vidas, fizeram inúmeras perguntas, pasmavam com as nossa respostas. Jurei ver no rosto de algumas pena por me saberem só, sem marido nem filhos. Mas outras houve que vieram depois dizer-me, entre risinhos, que eu é que tinha razão, que estava bem assim, porque os homens e os filhos só davam trabalho e faziam envelhecer. 

A família Hmong que nos recebeu nesse fim de dia em sua casa mal falava inglês. Os nossos diálogos reduziram-se ao mais básico: pedir água, perguntar pela casa de banho, comentar a beleza da paisagem, elogiar a comida que nos serviram. A casa, lá bem no alto, tinha na frente um alpendre que fazia as vezes de miradouro. De ali avistava-se grande parte do vale feito de arrozais em socalcos por onde tínhamos caminhado todo o dia. A senhora trazia ao colo um bebé recém-nascido que não largou um minuto. Olhava-o embevecida, como se adorasse um Deus menino. Dir-se-ia que era o seu primeiro filho, mas era o quinto. Quem tratou de nós — eu, a Nilza, um jovem britânico e a sua namorada filipina — foi o primogénito, um rapaz de catorze anos que confeccionou num forno a lenha a melhor refeição vegetariana que comi na minha vida. 

Ali, nas montanhas do Vietname, como em qualquer outra zona rural do mundo, os dias vivem-se ao ritmo da luz solar, por isso, pouco depois de ter escurecido retirámo-nos para o sótão onde dormimos em colchões espalhados pelo chão. Há anos que não me deitava tão cedo, mas o corpo agradeceu. E quando todos os sons humanos  cessaram — o choro do bebé, as gargalhadas das famílias vizinhas, as loiças a chocalhar na cozinha — os sons da natureza impuseram-se de tal forma que pareciam amplificados por colunas de som gigantescas. Não sei que criaturas são capazes de cantos tão ensurdecedores. Só sei que os achei fascinantes e que de todas as vezes que acordei por causa dessa sinfonia exótica, dei por mim a sorrir no escuro. Era maravilhoso! 

Na manhã seguinte, depois de um pequeno almoço de chá com leite e panquecas com banana e mel, calcei a muito custo as botas, os pés forrados com pensos rápidos. Começámos a caminhar antes das sete da manhã e o percurso, de regresso à vila de Sa Pa, terminaria só após o almoço. Esses quilómetros acabaram por me custar um par de unhas, que caíram, e ainda hoje me recomponho das mazelas que me ficaram nas outras... Feitas as despedidas da Mou e do casal que nos acompanhou, regressámos ao hotel onde as mochilas grandes tinham ficado, tomámos um banho retemperador e, de havaiana nos pés doridos, saímos para explorar a vila. Na verdade não há muito para ver: um par de ruas principais onde se alinham hotéis, restaurantes, cafés e lojas, um largo com uma igreja pequena que vi sempre fechada e um pequeno mercado que se visita em poucos minutos.

Ao nos aventurarmos por uma zona mais residencial, de onde se tinha uma vista espetacular sobre o vale e as montanhas, passei pela entrada de uma casa onde um grupo de crianças brincava com triciclos e outros dois miúdos, mais velhos, se entretinham com um livro de banda desenhada. Fiz-me entender o suficiente para que percebessem que queria fotografá-los, mas a excitação que o meu pedido causou quase me fez desistir. É que um deles, o que se vê na foto a fazer uma careta, tomado pela euforia passou com o triciclo por cima de um dos meus pés, já de si muito mal tratados. A dor foi tanta que me vieram as lágrimas ao olhos. Fiz a foto a muito custo e depois ainda tive de erguer a câmara no ar o mais que pude para evitar que aquele bando de pirralhos irrequietos ma tirasse das mãos na ânsia de ver a imagem. Levantei a voz, fiz cara de má, mostrei-lhes a fotografia na fração de segundos em que a histeria amainou e, agradecendo à pressa, voltei costas e fui-me embora a mancar. 

Mais fotos aqui.

sábado, 22 de novembro de 2014

Nuno, o leitor caminhante



"Estou a ler "The Magicians Land", de Lev Grossman, que é crítico de livros para a Time Magazine. Este é o terceiro e último volume da série "The Magicians", uma trilogia de fantasia. Estou quase a acabá-lo. Por acaso, ultimamente tenho vindo a recuperar esse hábito de ler fantasia, muito na onda daquilo a que as pessoas mais entendidas no género — e que fazem essas categorizações — chamam de fantasia épica, como Tolkien ou autores mais contemporâneos, como o que escreveu "A Game of Thrones" ("A Guerra dos Tronos"). Gosto muito de ficção científica e também gosto muito de não ficção, geralmente na vertente do jornalismo de investigação criminal, que é uma literatura que não se faz tanto em Portugal. É mais anglo-saxónica, como é o caso de "In Cold Blood" ("A Sangue Frio"). Não sou homem de um livro só e é-me muito difícil conseguir pôr alguma coisa nesses termos tão definitivos: é o livro da minha vida, é o filme da minha vida, é o álbum da minha vida... Compreendo que haja pessoas que o consigam fazer, mas eu não consigo. Nós somos um bocado um conjunto das coisas que lemos e se calhar há alturas da nossa vida em que um livro nos marca mais e há alturas em que estamos mais susceptíveis a outro tipo de literatura. Por exemplo, o livro mais importante da minha vida no último ano chama-se “Snow Leopard”, de Peter Matthiessen (vencedor por três vezes do National Book Award), um naturalista inglês que faleceu este ano. O livro é sobre uma expedição que ele fez aos Himalaias em busca do leopardo das neves. É uma obra como hoje em dia já não é muito comum fazer-se, um relato muito interessante de uma viagem que não foi só física, foi também uma viagem muito mental. O autor estava num período difícil da sua vida — a mulher tinha acabado de falecer de cancro — e então estava numa fase mais espiritual. Curiosamente, Matthiessen era budista e a expedição em que participou pretendia encontrar o leopardo das neves, que ainda hoje é um animal em vias de extinção, muito difícil de encontrar e que, pelos vistos, também tem um significado particular na mitologia budista. Portanto, houve ali uma série de círculos que se ligavam de forma ténue mas muito definitiva, digamos. E esse conjunto todo, também para mim, embora noutro contexto, fez muito sentido. Recomendo! Sobretudo para perceber-se que muitas vezes as viagens que temos de fazer interiormente têm um reflexo exterior e que às vezes temos mesmo de percorrer fisicamente um caminho para chegar onde queremos mentalmente. E os livros ajudam nesse processo. Acho que a importância da leitura não deve ser subestimada. Isto se calhar também é um bocadinho síndrome de velho do Restelo, apesar de eu não ser muito velho, mas acho que hoje em dia cada vez mais se perdem hábitos de leitura, perde-se a importância que se deve dar ao livro e à leitura. Acho que as pessoas devem ler, devem ler muito e devem ler tudo o que lhes apetece porque um dia haverão de encontrar algo que lhes diga respeito e que seja importante para elas. E para isso têm de ler. A leitura também é uma experiência de vida. Nós, quando lemos, experienciamos algo que outra pessoa viveu. Quando lemos um livro de fantasia épica ou um relato da Guerra do Peloponeso, vamos a lugares onde nunca poderíamos ir, como a Grécia antiga ou a Terra Média, e isso permite-nos ver as coisas de um ponto de vista completamente diferente, o que  nos enriquece. Quanto mais lemos mais ricos somos e melhor estamos preparados para lidar com o mundo, com diferentes  experiências, com diferentes pessoas e acho que no fundo também nos tornamos um bocadinho melhores enquanto seres humanos". 

Assim falou Nuno, que lia enquanto descia a Rua da Restauração, no Porto.

sábado, 15 de novembro de 2014

Vietname — Andjana em Halong Bay


Era uma vez, há largas centenas de anos, um jovem país chamado Vietname que defendia as suas fronteiras com ferocidade. Um dia, no mar a norte, a batalha parecia perdida face à investida dos chineses. Foi quando o Imperador de Jade, o Deus primordial, enviou em auxílio dos vietnamitas a Mãe Dragão e as suas crias, que atacaram o inimigo cuspindo fogo e esmeraldas gigantes. Muitos barcos chineses foram afundados e os restantes não conseguiram transpor o muro de pedras preciosas que se ergueu sobre o mar. Abandonaram a luta e a paz regressou ao Vietname. Muito tempo depois, as esmeraldas gigantes transformaram-se em ilhas e ilhéus que se espraiaram pela baía, outrora campo de batalha. Assim reza a lenda de Halong, que em vietnamita antigo significa literalmente "dragão descendente" ou "dragão que desceu". Já a geologia conta-nos uma história completamente diferente, que começou há quinhentos milhões de anos. Este foi o tempo necessário à formação da baía tal e qual a conhecemos hoje, com as suas águas verdes, três mil ilhas e ilhéus de calcário, grutas, crateras, lagos e todas as criaturas que aí habitam. O valor geológico, histórico e cultural deste pedaço do Vietname é inestimável e de importância excecional para a Humanidade, razão pela qual o local passou a inscrever-se, em 1994, na lista do Património Mundial da UNESCO. Em 2007, a baía foi considerada, também, uma das Sete Novas Maravilhas Naturais do Mundo. A beleza da paisagem da Baía de Halong é esmagadora. À medida que o barco se afasta do cais e penetra pelo labirinto de ilhas esguias, inabitadas e cobertas de vegetação, parece que entramos num mundo irreal, fantasioso. Há muitas dezenas de barcos a fazer o mesmo trajeto e no entanto o silêncio predomina. Quase parece que algo na natureza absorve os sons das máquinas ou que estas se movem por artes mágicas. Durante o dia, o sol confere à pedra calcária um tom dourado e os reflexos das ilhas multiplicam-se sobre a superfície plácida do mar. À noite, se o luar ajudar, adivinham-se apenas os contornos dessas porções de terra. O verdadeiro espetáculo vem do céu e do número infinito de estrelas que brilham sobre as nossas cabeças. Encostada à amurada, no deck superior, só baixei o olhar para ver passar rente ao barco ancorado, quase à superficie, as gigantescas medusas de um branco luminoso, que arrastavam, lânguidas, as longas cabeleiras de tentáculos. Quem tem o privilégio de poder passar uma noite a bordo de um barco fundeado algures entre os ilhéus, pode imaginar o que seria estar na Baía de Halong antes da chegada das hordas de visitantes. A área é muito extensa e comporta os inúmeros barcos de passeio, mas há paragens para visitas obrigatórias a alguns ilhéus onde as extensas filas são inevitáveis e os atropelos para as fotografias da praxe também. Pior do que isso é constatar-se claramente que a água da baía está a ficar poluída: aqui e além surgem manchas de óleo, flutuam objetos de plástico, forma-se uma espuma suspeita sobre a superfície. A um dado momento, o guia que nos acompanha a bordo explica que as comunidades piscatórias, que sempre viveram em aldeias flutuantes, estão a ser obrigadas pelo governo a mudar-se para terra, onde lhes cederam habitação gratuita. Argumenta-se que os seus hábitos de vida poluem a baía e que isso é mau para o turismo. Alguém do grupo de ocidentais protesta, dizendo que os pescadores estavam lá primeiro. O guia responde que em terra as crianças podem ir à escola. E a conversa termina aí. Não posso, é claro, prever com grandes certezas o futuro da Baía de Halong, mas tudo aponta para transformações significativas e num sentido que me entristece. Ao aproximarmo-nos da zona portuária, a cidade está transformada num estaleiro a perder de vista. Os terrenos junto à costa estão loteados e há gruas por todo o lado. No edifício do porto, onde se compram os bilhetes para os passeios de barco, confirmo as minhas suspeitas: uma maqueta de grandes proporções apresenta-nos a Baia de Halong do futuro. E o futuro é uma combinação de moradias de luxo, hóteis, arranha-céus e avenidas largas. Em suma, uma paisagem urbanística completamente descaracterizada que me recordou uns bairros de Miami, muito explorados pelas imagens panorâmicas das séries de TV. E eu, que nunca estive em Miami... No topo de um dos ilhéus pensei nisto, no que verão aqueles que daqui a muitos anos visitarem a Baía de Halong. A maior parte dos meus companheiros de barco preferiram ficar na praia minúscula e sobrelotada. Eu, apesar do muito calor e da humidade elevada que parecia não deixar ar para respirar, preferi encarar centenas de degraus e chegar, com grande esforço, ao ponto mais alto daquela torre de calcário. À minha frente, até à linha do horizonte, milhares de ilhas, um assombro que tornou ainda mais complicado recuperar o fôlego. Após alguns minutos de contemplação em cima de uma pequena rocha que tive de disputar com outros turistas, empreendo a descida, mais rápida, e ao chegar lá abaixo, ao areal diminuto e sujo, encontro uma leitora. Andjana é alemã e estava de férias no Vietname. Três semanas, tantas quantas as que eu passei naquele país surpreendente. Nem sei como conseguiu concentrar-se nas páginas do livro, tal era o tumulto à nossa volta. Vários grupos de chineses comportavam-se como se nunca tivessem visto o mar ou mergulhado nele. Gritavam de excitação e esbracejavam com a água pela cintura como se estivessem a afogar-se. Mas Andjana lia. Era o segundo volume de "Herzenstimmen" (qualquer coisa como "A Voz do Coração"), de Jan-Philipp Sendker, uma história passada na Birmânia onde a jovem protagonista procura durante quatro anos o pai desaparecido. "Leio muito e gosto de histórias passadas em cenários radicalmente diferentes. Este é um bom romance, mas é muito triste", disse-me já com o livro dentro de um saco e enquanto sacudia e dobrava a toalha de praia. O seu barco estava de partida e os pais esperavam por ela.

Fotos da Baía de Halong aqui.

domingo, 9 de novembro de 2014

Carolina & Agatha Chistie


Julgo que hoje em dia já quase não acontece, mas antigamente era certinho: as páginas dos livros amareleciam com o tempo. É fácil deduzir que tal se devesse a um qualquer processo químico, a algum tipo de oxidação também responsável pelo cheiro ácido que os livros velhos exalam. Mas o que é que acontecia exatamente? Já ouviram falar em lignina? Pois... Eu também não. Até hoje. Esta tal de lignina ou lenhina é, a par da celulose, a principal componente da madeira — cabe-lhe conferir rigidez aos troncos das árvores. E é, também, uma substância que escurece em contacto com a luz e o oxigénio. Atualmente, no processo de produção da pasta de papel, esta matéria é eliminada quase a 100% graças a processos químicos. Mas aposto que o papel escolhido para a edição de "Death Comes as The End", em 1987, ainda era daqueles que tinha a branca celulose contaminada pela sensível lignina. O livro de miolo amarelo torrado foi requisitado pela Carolina na biblioteca do British Council, onde estuda inglês há quase 12 anos. Está nas vésperas de mais um exame e decidiu fazer como sempre tem feito nesta ocasião: ler um livro em inglês que a ajude a aprimorar o domínio da língua. "Nunca tinha lido nada da Agatha Christie e estou contente por estar a fazê-lo na língua original. Sinto-me muito mais próxima da autora por não haver a interferência de uma tradução. Para além de ler à noite e nas férias, passei a ler no metro desde que entrei para a faculdade. Não tenho um estilo literário preferido, leio de tudo um pouco, mas este é o meu primeiro policial. A não ser que "O Código da Vinci" conte. Mas acho que não... Não gostei d' "O Código da Vinci". Parecia que estava a ver um filme. Este livro da Agatha Christie é muito mais poético", disse-me a Carolina. 

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Vietname — Ty Ty em Saigon Square


Invejei a esperança no futuro dos timorenses. Fui seduzida pela sofisticação de Sydney. Vivi uma experiência mística nos Laos. Convenci-me que o paraíso existe e fica em Zanzibar. E ando obcecada há meses pela ilha agridoce de S. Tomé. Mas quando me perguntam em que país, dos catorze que visitei, gostaria de viver, a minha resposta é imediata: no Vietname. E que isto me tenha acontecido, constitui talvez a maior surpresa da viagem. Esqueçam todas as imagens da guerra. Esqueçam o país esventrado pelas bombas e queimado pelo napalm. O Vietname, sem renegar os seus fantasmas, soube renascer magistralmente das cinzas e é hoje uma nação vibrante. É claro que há as paisagens deslumbrantes, as praias exóticas, as montanhas envoltas em brumas eternas, as extensões incomensuráveis de arrozais. E há, também, as cidades frenéticas, de comércio vigoroso, tomadas por milhões de motociclos que rapidamente aprendemos a "tourear" para atravessar a estrada. Nas cidades do Vietname há um certo caos instalado, é verdade, mas é um caos encantador porque é energia, é dinâmica, é vida a acontecer e é otimismo. Mas há, acima de tudo, este povo resiliente, dono de um sentido de humor desconcertante, ávido de aprendizagens, que parece ter nascido com o único propósito de trabalhar e que dá provas de uma criatividade que nos surpreende a cada momento. Hão de ter muitos defeitos, eu sei, todos aqueles que eu não tive tempo de descobrir. Mas foram eles, os exuberantes vietnamitas, que me conquistaram. Eles e a sua fabulosa gastronomia, uma das mais ricas que alguma vez experimentei. No Vietname, levar à boca uma garfada equivale a um fogo de artifício no palato! Cheguei a Saigão (hoje chamada de Ho Chi Minh, mas Saigão é um nome tão mais bonito...) num domingo à tarde, vinda do Camboja. Percorri uma longa estrada durante quase todo o dia, atravessei mais uma vez o rio Mekong, e entrei na cidade sob uma chuva copiosa que não demoveu ninguém dos seus habituais afazeres. Alguns condutores vestiam capas plásticas com as motas em andamento e seguiam de sorriso estampado no rosto ao perceberem que nada os manteria secos. Era domingo, mas podia ser terça ou sexta. O comércio estava aberto e havia milhares de pessoas na rua. Saigão é uma cidade extravagante onde coexistem ambientes muitos distintos, que lhe conferem um caráter ímpar. Ali podemos atravessar um bairro labirintico, tipicamente asiático, desembocar numa grande avenida com edifícios de traço soviético, fazer uma pausa num pagode ou numa catedral católica para aliviar o calor, deambular pelo quarteirão francês com as suas boutiques de estilistas emergentes e cafés avant garde, e acabar o dia no District 1, zona onde os arranha-céus começam a dominar a paisagem e proliferam os restaurantes, os bares e as discotecas ao gosto ocidental. Foi inevitável visitar alguns monumentos e museus — o Palácio da Reunificação, o Pagode do Imperador de Jade, o Museu da Guerra, o Museu da História —, mas de resto foi essencialmente isto que fiz em Saigão: vaguear pelas ruas, sentir os ambientes, observar as gentes. Num desses dias, já ao cair da tarde, entrei no Saigon Square, uma galeria de rés-do-chão e primeiro andar a abarrotar de pequenos stands onde se vende roupa, calçado e outros acessórios que parecem ter sido desviados das fábricas que produzem para as marcas globais. Da Zara à GAP, da Adidas à Nike, este é o lugar para investir em pechinchas, sejam elas genuínas ou forjadas. Logo à entrada, num expositor de relógios, encontrei uma vendedora que, à falta de clientes, se ocupara com um livro. Ty Ty, nascida e criada em Saigão, diz trabalhar todo o dia no stand e ocupar as horas vagas a ler. De sorriso contido, explica-me que gosta sobretudo de romances e que lê três a quatro por mês. Naquele dia de fim de maio tinha começado "Chỉ được yêu mình anh" (qualquer coisa como "Só tu me amas"), da autora chinesa Nam Lăng, comprado precisamente na livraria onde umas horas antes não me permitiram fotografar. Na altura, valeu-me o telemóvel. Se quiserem espreitar o lugar onde a Ty Ty comprou o seu romance, basta que acedam aqui para ver as duas fotos que tirei à socapa.