sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Vietname — Linh, no Cong Caphe


Acordei naquela manhã de sábado determinada a visitar o Museu de História Nacional do Vietname. Por isso, depois do tomado o pequeno-almoço — café e panquecas de banana com mel, que a cozinheira servia com um sorriso maior de dia para dia porque eu insistia naquela receita e não deixava uma migalha no prato —, saí do hotel no Bairro Antigo para caminhar primeiro até ao lago e seguir daí para o Bairro Francês. 

Não muito longe da Ópera de Hanoi e do luxuoso Hilton fica o museu, instalado num edifício híbrido, misto de arquitetura colonial francesa e arquitetura tradicional vietnamita, construído em 1932 e pintado de ocre. Quando se está pouco tempo num país e não se conhece muito sobre a sua história, julgo que a visita a este género de museus ajuda a que possamos abarcar, de forma rápida e concisa, o percurso de um povo. Foram muitos os que visitei durante esta viagem e em todos eles aprendi imenso. O do Vietname não foi exceção e foi com muito prazer que lá passei toda a manhã. 

À saída optei por contratar o serviço de um riquexó para explorar a área do Bairro Francês, uma zona que encontrei particularmente calma, num contraste para mim muito evidente com o frenesim do resto da cidade. Enquanto o condutor pedalava vagarosamente, deliciei-me com a sombra que as grandes árvores das avenidas largas projetavam sobre as casas afrancesadas de rés-do-chão e primeiro andar. Aqui e ali boutiques, cafés, restaurantes, cabeleireiros, senhoras que passeavam cães pelas trelas, gente sentada nos bancos de uma praça ajardinada, taxistas à espera de clientes. O riquexó deslizava pelo asfalto, langoroso, e eu sentia uma ligeira brisa que atenuava o calor. Havia algo de anacrónico naquele lugar que me confundia. Belisquei-me pela milésima vez desde que deixara Portugal. Era certo que ali estava, mas não conseguia afastar a sensação de sonho... 

Terminado este passeio de 45 minutos, fui deixada junto ao lago, para onde todos os caminhos de Hanoi parecem convergir. Almocei no restaurante gerido por um grupo de mulheres — talvez irmãs, porque identificava em todas elas uma certa parecença—, cujos berros constantes nunca deixei que interferissem no deleite das várias refeições que lá fiz. E parti de novo, a pé, para os confins do Bairro Antigo onde me demorei até ao fim do dia. Há sempre ruas novas por desbravar, o pequeno comércio por explorar, aspetos insólitos do dia a dia dos vietnamitas para observar. Em Hanoi, o tédio é impossível e as horas passam velozes. 

A meio da tarde entrei na Catedral de São José, sede da arquidiocese católica romana da capital. Estava a decorrer uma cerimónia, motivo pelo qual não me demorei, mas pude observar, com surpresa, duas imagens que são símbolos de Portugal: Sto. António e Nossa Senhora de Fátima. Cá fora, na área que circunda a catedral, havia apenas um condutor de riquexó, que dormia profundamente, refastelado no assento vermelho do veículo. Entretive-me por uns instantes a tentar decifrar as mensagens afixadas num quadro, mas a única coisa que consegui entender era óbvia — a palavra "Phanxicô", escrita em letras garrafais num póster que exibia a fotografia do atual Papa. A certa altura fui abordada por um homem jovem, que saiu de uma porta lateral da catedral. Cumprimentou-me com um grande sorriso e convidou-me a entrar na igreja. Expliquei que já lá tinha estado e fiz alusão à imagem do Sto. António, dizendo-lhe que aquele era o meu santo protetor. "Ai, sim?", respondeu. "É também o protetor do meu pai e estamos a poucos dias de celebrar a data do seu nascimento, 13 de junho. O meu pai faz anos nesse dia". Não escondi a minha surpresa: um vietnamita fluente em inglês, com um pai católico devoto de Sto. António pareceu-me algo extraordinário. Disse-lhe que era Portuguesa e contei por alto o propósito da minha viagem. Foi então que me explicou ser o padre responsável pelas homilias em inglês na Catedral de S. José e ao saber que era portuguesa retorquiu: "Ouvi dizer que é um país muito bonito. Há lá um lugar muito especial que quero visitar um dia: Fátima". 

Ainda a digerir este encontro surpreendente, abandonei o recinto da igreja e dirigi-me ao pequeno café que, no cruzamento em frente, já me tinha chamado a atenção. A esplanada exígua era frequentada por turistas e vietnamitas com um cunho alternativo e a decoração do rés-do-chão denunciava um ambiente sofisticado e intimista. Subi ao primeiro andar, à procura de um lugar. Nas paredes, pósteres antigos de propaganda pacifista, estantes rudimentares com livros, rádios velhos. Do teto pendiam lâmpadas cujos abajours eram alguidares de plástico. A sala era pequena e, apesar da luz que entrava pelas janelas altas e se espraiava sobre as paredes de tijolos e as mesas de madeira, havia recantos que ficavam na penumbra. Num desses recantos estava sentada a Linh, um livro em cima da mesa e outro nas mãos. Pedi-lhe uma foto e foi à sua mesa que acabei por me sentar. Conversámos enquanto ela tomava o seu café gelado e eu, a minha limonada fresca. 

Os livros que Linh tinha consigo eram ambos de autoras vietnamitas. O que lia intitulava-se "Hoa Linh Lan", de Gào, um bestseller que conta a história de um triângulo amoroso entre um vietnamita solitário e duas miúdas, uma delas chinesa. O outro livro, chamado "Người yêu cũ có người yêu mới" era escrito por Iris Cao. Tinha-lhe sido oferecido por um amigo que nutria por ela mais do que um sentimento de amizade. Depreendi, pela sua expressão, que o sentimento não era mútuo e tive mais tarde a certeza, quando Linh me falou do namorado que, curiosamente, frequenta aulas de português na Universidade de Hanoi. "Ainda não tive coragem de começar a lê-lo", confidenciou-me. E eu achei triste saber de mais uma história de amor não correspondido. De resto, sobre os seus hábitos de leitura, Linh afirmou: "Gosto de estar sozinha neste café, a ler. Leio muito. Não gosto tanto de romances. Prefiro livros que me façam refletir. Quando leio, sinto que faço uma pausa e que tenho tempo para pensar. Os livros são como uma lente através dos quais se pode ver tudo. Quando estás confusa acerca de algo, lê e talvez encontres a solução".

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Vietname — Han, no Templo da Literatura


Nesta volta ao mundo, em que procurei sempre estabelecer uma ponte entre os lugares e os livros, saber que existe em Hanoi um Templo da Literatura foi música para os meus ouvidos. Achei verdadeiramente poético que uma capital contasse com um lugar quase milenar onde ainda hoje se veneram os sábios e os letrados da nação. Fundado em 1070, o Templo da Literatura é não só o principal santuário do Vietname dedicado a Confúcio, como é também um lugar histórico de aprendizagem, uma vez que aqui funcionou, até 1802, a primeira universidade do país. Exemplo ímpar da arquitetura tradicional vietnamita, o templo, que se encontra bem preservado, tem uma planta retangular e é composto por cinco pátios sucessivos onde se alinham relvados, árvores centenárias, lagos repletos de flores de lótus — o símbolo nacional do Vietname — e vários edifícios de madeira e telhas de barro que albergam imagens dos principais eruditos, assim como lápides onde se exibem os nomes e proezas de outros intelectuais. 

Foi aqui, entre estas paredes pintadas de vermelho vivo, que ao longo de séculos os melhores alunos de todo o Vietname estudaram os princípios de Confúcio, da literatura e da poesia. Estes estudos superiores podiam demorar três a sete anos, processo que culminava num exame nacional feito na presença do Imperador, que questionava e avaliava os finalistas. Fui ao templo no início de junho, num dia se semana em que havia muito poucos visitantes. Pude, por isso, desfrutar do ambiente relaxante dos jardins, que imaginei perfeitos para a concentração nos estudos que ali se faziam antigamente. Mas sei que em determinadas épocas do ano, muitas das celebrações académicas ainda se fazem aqui e que na véspera de exames importantes os estudantes ainda vêm aos magotes pedir proteção e sorte aos sábios ancestrais. 

Naturalmente, ao longo da visita pensei muitas vezes no quanto seria perfeito encontrar um leitor no magnífico Templo da Literatura. E, sortuda como tenho sido, foi o que acabou por acontecer, já mesmo na reta final, quando entrei na loja de souvenirs que existe na ala esquerda do edifício onde funcionava a universidade. Aí, aproveitando a calmaria daquele dia, a jovem Han lia a edição vietnamita de "Como Deixar de se Preocupar e Começar a Viver", de Dale Carnegie. Leitora assídua, sobretudo de literatura infantil que diz ser a sua preferida, Han procurava orientação nas palavras do guru norte-americano da motivação. "Sou uma pessoa que se preocupa muito, por isso preciso de ajuda. Espero poder preocupar-me menos e passar a divertir-me mais". E sabem com o que mais se preocupa a Han? Com o trabalho. Irónico é que estivesse a tentar travar esse processo no templo dedicado a Confúcio, o filósofo para quem o trabalho era uma das pedras basilares do seu pensamento.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Três anos


Tenho no desktop do meu computador — aquele que está agora mesmo pousado sobre os meus joelhos enquanto escrevo — uma pasta a que chamei "fotos_blogue". Abro-a com frequência para percorrer, sempre com espanto, este álbum fotográfico que tem o seu quê de inusitado. Hoje contei nessa pasta 343 rostos debruçados sobre livros. No dia em que assinalo, com orgulho, três anos de Acordo Fotográfico, o meu primeiro pensamento vai para estes 343 leitores a quem devo tudo. Sem eles não teria assunto. Sem eles os meus dias teriam menos sorrisos. Muitíssimo obrigada!

Convido-vos a recordarem aqui algumas dezenas de leitores.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Vietname — Robert em Hanoi


Esta coisa das rivalidades entre cidades de um mesmo país é um fenómeno que me ultrapassa e que a maior parte das vezes me irrita, mas no decorrer da viagem as opiniões tendenciosas que fui colhendo sobre os locais que me preparava para visitar não só trouxeram algum colorido às conversas com autóctones e expatriados, como estiveram na origem de boas surpresas. As mesmas considerações que ouvi de cariocas ou paulistanos sobre Brasília — que não há muito para ver ou fazer na cidade... — ouvi meses mais tarde em Saigão acerca de Hanoi. Por isso, quando parti do sul para a capital do Vietname ia quase convencida que a cidade mais estimulante do país estava a ficar para trás. Puro engano! 

Notoriamente mais pequena e com menos população que Saigão, Hanoi é uma capital tranquila e elegante. Obviamente, para nós, portugueses, tudo isto é relativo, sobretudo se tivermos em conta que esta "pequena" e "tranquila" capital conta com pelo menos seis milhões de habitantes. Mas, para quem chega de Saigão, acreditem que a diferença é substancial. O coração da cidade é um lago diminuto chamado Hoan Kiem, que alberga, numa extremidade, um templo ao qual se acede por uma ponte vermelha. O seu reflexo sobre o espelho de água deve ser uma das imagens mais captadas pelas câmaras dos visitantes. Este lago, que podemos contornar numa caminhada que não dura mais de meia hora, é o grande ponto de encontro dos habitantes de Hanoi. É à sua volta que fazem jogging, é nos jardins que o envolvem que praticam tai chi, ginástica ou dança, é nos seus bancos que os casais namoram, é nas suas margens que os grupos de amigos se sentam para conversar enquanto comem gelados e é nas suas imediações que existem algumas das melhores lojas da cidade, assim como hotéis e restaurantes. A partir deste ponto cheio de vida, estende-se para norte o Old Quarter e para sul o French Quarter, os dois bairros que juntamente com o lago definem o núcleo de Hanoi. E foi aqui, flanando pelas ruas destes bairros e sentada na margem deste lago, que a minha paixão súbita pelo Vietname se consolidou. 

Vejo e revejo as fotos desses dias à procura de uma razão objetiva que justifique o impacto que esta cidade teve em mim. Mas como é que se explica objetivamente uma espécie de feitiço? À partida, Hanoi tinha tudo para me enlouquecer: a propaganda do Partido Comunista debitada a partir das sete da manhã através dos altifalantes espalhados pela cidade; a falta de limpeza e de higiene; o trânsito caótico; o perigo que é atravessar qualquer estrada, mesmo onde há semáforos; o idioma que não entendo; os milhares de motos que ocupam os passeios forçando-me a andar na estrada; o ruído constante; o sol que não se vê e o mar a centenas de quilómetros. 

Mas depois há o insólito. Há o karaoke de rua, à noite, com uma aparelhagem rudimentar e colunas de som fanhoso. Um jovem parece assassinar uma qualquer canção vietnamita, enquanto centenas de pessoas assistem, sentadas em banquinhos de plástico azul, bebendo cerveja e comendo sementes, como se estivessem a ouvir o melhor cantor lírico. Há os dois negócios mesmo em frente ao hotel onde me alojo e cuja atividade constante observo ao pequeno-almoço: à esquerda um cubículo onde um jovem passa o dia a lavar motociclos; à direita um talho, onde uma mulher, sentada numa banqueta de madeira, decapita e depena frangos metodicamente. Há o homem na esquina que, naquilo que parece uma simples abertura numa parede, montou uma oficina para reparação de eletrodomésticos. E as peças que ocupam aquela abertura são tantas e estão de tal forma entaladas do chão ao teto que temo pela segurança do homem caso tudo aquilo lhe caia em cima. Há a farmácia onde entro para comprar lenços de papel e onde, perto do balcão, se coze arroz numa panela. Há a vendedora de postais, a quem a Nilza faz a primeira compra do dia e que à noite, ao rever-nos, se aproxima numa grande agitação, gritando "Good luck! Good luck". Pede uma foto com a cliente que lhe deu sorte. No dia seguinte, no mesmo lugar, espera por nós para nos apresentar os filhos e tira-nos mais fotos, desta vez com o seu telemóvel. Há o sapateiro, apenas uma criança, que aparece do nada, aponta para os meus pés enquanto solta uma algaraviada incompreensível. Sem que pudesse antecipá-lo, arranca-me a sapatilha do pé direito e vai esconder-se para lá de uma esquina, senta-se num degrau e empreende o arranjo da sola descolada. Há o condutor de riquexó, pequeno e franzino, que depois de nos passear quarenta e cinco minutos, pedalando pelas ruas requintadas do bairro francês, leva a cabo, de sua livre iniciativa, toda uma sessão fotográfica com uma das nossas câmaras, sugerindo-nos as mais variadas poses em cima da sua bicicleta. E há as ruas ladeadas por grandes árvores; as vendedoras de flores de lótus que se deslocam de bicicleta; as vendedoras de ananases que perfumam as ruas com o cheiro da fruta madura; as lojas exíguas onde em menos de vinte e quatro horas se confecciona qualquer peça de roupa à nossa medida no melhor linho, no mais puro algodão ou na seda mais delicada; o restaurante gerido por um grupo de mulheres, irmãs talvez, que se entendem aos berros, naquilo que aparenta ser uma eterna discussão e que servem com modos rudes as melhores refeições que faço na cidade. E tantos, tantos outros pormenores inebriantes

Todos os dias, como se tivesse necessidade das suas águas paradas para serenar, dei por mim junto à margem do Hoan Kiem. Ao meu redor, o burburinho de Hanoi, a cidade com mil anos, não cessava. Mas o arvoredo à volta do lago transmitia uma sensação de paz. Foi sem surpresa que aí encontrei alguns leitores, porque os bancos estrategicamente colocados pareciam ter sido concebidos apenas para esse efeito: ler. Talvez Robert, um escocês de férias no Vietname, tenha sentido também a necessidade de se evadir. Então, por uns momento, esqueceu o rumor de milhares de motociclos, as temperaturas elevadas e o ar saturado de humidade para ir até Westeros, aquela terra da Europa medieval, coberta de gelo e dilacerada por um conflito sangrento que George R. R. Martin descreve n' "A Guerra dos Tronos".