domingo, 22 de fevereiro de 2015

Zanzibar — Adra, em Stone Town


Zanzibar. Experimentem proferir a palavra baixinho, como se a segredassem ao ouvido de alguém. Zanzibar. Sintam a língua roçar o céu da boca ao sibilar as duas primeiras sílabas. Notem como os lábios se unem e voltam a abrir e a língua rola quando a palavra termina. É como o início de um beijo lento. Zanzibar. Ouvi-la transporta-nos para um lugar sensual e langoroso, onde alternam a luz quente do sol e a sombra fresca das casas. Pronunciá-la é ansiarmos pela ilha muito antes de lá chegarmos, é entregarmo-nos de corpo e alma ao seu chamamento, é abraçar todo o seu exotismo, é encarnar toda a sua volúpia. Zanzibar é ideia fixa.

Parti da Índia, fiz escala no Qatar e passei algumas horas no Quénia. Viajei quase vinte e quatro horas para aterrar em Zanzibar City, a capital, numa noite de apagão. A cidade estava mergulhada na total obscuridade havia quase uma hora. As janelas das casas eram negrume e as ruas, deserto. Penso pela milésima vez no aviso feito nos vários livros que li ao preparar a longa jornada: mulheres que viajam sós devem evitar chegar a qualquer lugar à noite. O  táxi abranda e entra numa rua estreitíssima de terra batida e lixo no chão. Cheguei a duvidar que pudesse abrir a porta do carro sem tocar num dos muitos portões fechados à esquerda e à direita. O taxista garante que de dia a rua é uma importante artéria comercial, cheia de gente e de vida, mas pergunta por que razão fico naquele hotel. Esforço-me por responder soltando o aperto que trago na garganta: as críticas na net são boas, é barato e tem wi fi gratuito. Desço e entro com a mochila numa receção humilde iluminada por uma lanterna. Dois jovens negros e de sorriso branquíssimo estão atrás do balcão. Faço o check in e subo ao terceiro andar. Curiosamente, há luz no meu quarto. Abro a cama, fecho o mosquiteiro e adormeço em África. Zanzibar vigia com paciência o meu sono, na certeza que no dia seguinte me terá, arrebatada, a seus pés. 

Ainda a saborear o café do pequeno-almoço, assomo-me a uma das janelas do último piso do hotel. Vejo uma sucessão de edifícios brancos, minaretes e algumas torres de igreja que se espraiam até ao porto. Desse ponto em diante, estende-se o Índico turquesa que lá muito à frente toca o céu azul. Um risco alvo nesse horizonte anuncia outra ilha. É cedo, o sol já vai alto, a luz forte espalha-se e tudo brilha. Antes de sair para a rua peço aos rapazes da recepção para assinalarem o hotel no mapa da cidade. Pergunto por lugares que não posso deixar de visitar e certifico-me que não é perigoso andar na rua até tarde. "Hakuna matata!", respondem. Sem problema. Não faz mal. Tudo bem. As minhas primeiras palavras em suaíli. 

Transponho a porta do hotel e estanco perante o espetáculo: a rua inóspita da véspera desapareceu; à minha frente uma explosão de cores, sons, cheiros e gentes na azáfama de um novo dia em que parece haver muito para fazer. Dos portões antes fechados, jorram agora milhares de produtos: roupa, calçado, artigos de higiene e mercearia, especiarias, utensílios de cozinha, electrodomésticos, artesanato e tantas, tantas outras coisas; ouve-se música, grelha-se peixe, coze-se um pão achatado e fino; passam motas com carregamentos que desafiam a lei da gravidade e homens que puxam carrinhos de mão atulhados e gritam para que os outros se afastem do seu caminho; há mulheres de mãos tatuadas, que carregam os filhos às costas e se vestem como o arco-íris, numa combinação alucinada de cores e padrões; gritam-se pregões em estéreo; os vendedores cumprimentam-me, convidam-me a aproximar-me, querem que eu seja a primeira cliente do dia, para dar sorte. "Jambo!", exclamam, estendendo-me a mão. De tanto ouvir este cumprimento a que não sei retorquir, pergunto a um deles o que significa e o que devo dizer de volta. "Si jambo!", explica. Aprendo que estar em Zanzibar é passar o tempo de mão estendida, a cumprimentar homens, mulheres e crianças enquanto se repete a cantoria: Jambo! (Como está?) Sí jambo! (Bem, obrigada!). Caminho, embalada por este refrão e mergulho no labirinto de Stone Town, o bairro antigo de Zanzibar City.

A riquíssima história e herança cultural de Stone Town — a que não é alheia a presença portuguesa entre os séculos XVI e XVII por causa do cravinho, o ouro de Zanzibar — resultam da primorosa fusão de elementos árabes, persas, indianos e europeus. Este caráter único justificou a sua elevação a Património Mundial da Humanidade em 2000. Por isso, embora nunca de forma obstinada, procurei visitar aqueles pontos considerados obrigatórios numa primeira ida à cidade. "Pole Pole", o equivalente suaíli ao nosso "devagar, devagarinho", fui ao exuberante mercado Darajani, ao antigo mercado de escravos, à Catedral Anglicana, à Catedral de S. José, à fortaleza — o edifício mais antigo da cidade, construído no século XVII para repelir os ataques dos portugueses, entretanto escorraçados —, ao palácio do Sultão e ao lugar onde nasceu e viveu Freddy Mercury. Um outro palácio, chamado House of Wonders, estava fechado para restauro e não me foi permitida a entrada nas mesquitas. Consta que existem 51 em Stone Town, mas estávamos na véspera do Ramadão. Dei-me ao luxo, ainda, de pagar umas boas dezenas de dólares por uma visita a uma quinta de especiarias (um desafio para os sentidos que recomendo) e por uma manhã passada na paradisíaca Prison Island, a tal ilha que se via das janelas do hotel e onde pude aproximar-me, pela primeira vez na vida, de tartarugas gigantes e centenárias. 

Os dias restantes foram passados sem nada planeado. Esquecer o mapa e deixarmo-nos perder em Stone Town é algo que qualquer guia vos recomendará. Não o fazer é viver aquela cidade mágica pela metade. Demorei-me nas ruelas estreitas, onde admirei e percorri com os dedos os rendilhados das tradicionais portas de madeira maciça. Explorei as lojinhas, a maioria pensadas para os turistas, mas onde algum do artesanato vendido é de inquestionável qualidade, sobretudo os desenhos que retratam pormenores da cidade. Entrei várias vezes numa joalharia que vendia Tanzanite, a pedra preciosa de que nunca tinha ouvido falar. Deliciei-me ao almoço com caril de lagosta a um preço irrisório, nas horas mais quentes tomei café com especiarias à sombra de uma esplanada e assisti, na Catedral de S. José, a um casamento para o qual não fui convidada. Da cerimónia, toda celebrada em suaíli, só entendi as palavras "família" e "sacramento", ditas assim mesmo, no nosso português. E terminei sempre os passeios no Jardim Forodhani onde, numa esplanada sobre o mar, comi chamuças, bebi cerveja Kilimanjaro e me diverti com a multidão de rapazes que, depois da última oração do dia, se reúnem nas muralhas para dar saltos acrobáticos para a água. Foi dessa esplanada, ao som da música de Youssou N'Dour, que assisti ao incêndio que o sol despoleta quando mergulha no Índico. Os tons de vermelho que se espalham pelo céu parecem impossíveis e realçam ainda mais o perfil dos dhows, os elegantes barcos de vela triangular que àquela hora regressam a terra.

Nestas deambulações, percorri várias vezes a Rua Gizenga, antigamente chamada Rua dos Portugueses. Ao passar pela janela de uma das lojas vi uma mulher de costas, que lia o que me pareceu ser o Alcorão. Tirei-lhe uma fotografia e depois distraí-me a olhar para o resto de uns azulejos que cobriam parte da fachada do edifício antigo. Eram-me tão familiares... Foi então que a ouvi dizer, em inglês: "São azulejos portugueses". Voltei o rosto para a pessoa encostada à ombreira da porta. Era a mulher que lia. Era a Adra. Via-lhe agora o rosto e o sorriso com que me falava de algo português sem saber a minha origem. Expliquei-lhe de onde vinha e por entre a festa que fizemos e o aperto de mãos que demorámos a desfazer, fomos entrando na loja onde em tempos funcionou o consulado português de Stone Town. E fiquei, ignorando o tempo que passava, para conversar com a Adra, contar-lhe da minha vida e saber da sua. Adra, muçulmana sexagenária, falou-me sobretudo do amor que tem pela ilha e do quanto foi difícil a vida no período que se seguiu à revolução de 1964. Nesse ano, no seguimento de um processo eleitoral polémico, a maioria africana expulsou o sultão de Zanzibar do governo de minoria árabe. O conflito armado, breve mas violentíssimo, teve também graves consequências para a comunidade indiana. Estima-se que em poucas horas tenham morrido cerca de 20 mil pessoas. "Na época, o meu pai decidiu ficar em Zanzibar porque esta era a sua terra e aqui estavam enterrados os seus mortos. E apesar de todas as dificuldades, dou graças ao facto de termos ficado. É aqui que sou feliz e daqui nunca saí, embora tenha família espalhada por todo o mundo", disse. 

Contei-lhe do Acordo Fotográfico, é claro. Falámos sobre livros e sobre a importância que a escola tem no fomento do hábito de ler. E pedi-lhe uma fotografia. Recusou-a com toda a gentileza e não tive outra hipótese que não resignar-me. Deixou-me, porém, fotografar o seu livro sagrado. Estávamos no Ramadão. Um dia, hei-de de regressar. Insha'Allah!

Mais fotos de Zanzibar aqui.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Goa — Leanne, na Biblioteca Central


Foi o Sr. Roy Botelho — proprietário e gerente da hospedaria onde dormi em Pangim —, que me recomendou com entusiasmo uma visita à Biblioteca Central de Goa. Isto teria bastado para que me dirigisse de imediato para a zona de Patto, onde se ergue o edifício, mas os elogios que fez ao projeto de arquitetura e à sua modernidade aguçaram ainda mais a minha curiosidade. Soube depois que a obra é da autoria de Gerard d'Cunha, um muito premiado arquiteto goês que, curiosamente, foi casado com Arundhati Roy, a autora vencedora do Booker Prize em 1997 com o romance "O Deus das Pequenas Coisas". Após um copioso pequeno-almoço de sabores goeses que Roy me viu sorver com prazer, pus a mochila às costas, deixei o bairro das Fontainhas, atravessei a ponte azul e branca sobre o rio de Ourém e entrei no bairro de Patto onde o horizonte, num contraste evidente com o resto de Pangim, já é dominado por um conjunto de prédios altos e recentes. Aí, numa área onde ainda permanecem muitos terrenos vagos a pedir mais construção, eleva-se a biblioteca, um grande edifício de seis andares e janelas amplas que deixam adivinhar um espaço interior cheio de luz natural. 

De acordo com a informação disponiblizada no site da instituição, a Biblioteca Central de Goa é a mais antiga da Índia e conheceu, desde a sua fundação, várias designações: Pública Livraria (1832); Biblioteca Pública (1836); Biblioteca Nacional de Nova Goa (1897); Biblioteca Nacional Vasco da Gama (1925); Biblioteca Nacional de Goa (1959) e, nos dias de hoje, Biblioteca Central de Goa Krishnadas Shama, nome do fundador da literatura concani, a língua oficial deste estado. Estabelecida em 1832 pelo vice-Rei D. Manuel Francisco Zacarias de Portugal e Castro, a biblioteca beneficiou em 1834 da transferência dos espólios bibliográficos dos conventos e ordens religiosas extintas por ordem do monarca D. Pedro IV. Muitos anos mais tarde, em 1952, adquiriu o estatuto de Depósito Legal o que lhe permitiu enriquecer ainda mais a sua coleção com obras publicadas em Portugal e noutras províncias ultramarinas. Estima-se que até 1961, ano em que Portugal perdeu Goa para a União Indiana, a biblioteca tenha acumulado cerca de 40 000 livros e jornais em inglês, francês, latim, concani, marathi e português, claro. Aliás, é importante que se diga que a Biblioteca Central de Goa é considerada o maior depósito de livros em português de toda a Ásia. Atualmente conta 180 000 obras, a maioria em Hindi e Inglês.

Uma vez dentro da biblioteca, muito para além da dimensão e modernidade do edifício, impressionam sobretudo a forma como as diferentes áreas se distribuem e organizam no espaço, assim como o leque de serviços que a instituição coloca ao dispor dos cidadãos. Há razões óbvias e justificadas para que todos os goeses tenham orgulho nesta magnífica biblioteca. No rés-do-chão, a par da recepção, da área de cacifos e do balcão para devolução de livros requisitados, encontra-se a secção de publicações periódicas — revistas e jornais —, a zona de livros em braille e também uma galeria de arte que incentiva os artistas locais a mostrar o seu trabalho. E depois, de andar em andar, sucedem-se as surpresas: uma área dedicada em exclusivo às crianças, com 10 000 livros, brinquedos, computadores com acesso à internet, uma sala para projeção de filmes e respetiva coleção de DVDs e salas de estudo que funcionam vinte e quatro horas por dia; um centro de conferências e locais de trabalho equipados com secretárias e computadores com ligação à internet, que estudantes e investigadores podem alugar mensalmente; um centro para digitalização de obras antigas e um laboratório onde se aplicam as tecnologias mais avançadas na preservação dos livros; um piso inteiro dedicado às obras adquiridas durante o período colonial — e onde pude visitar uma exposição temporária de livros e fotografias sobre a luta pela independência de Goa — e, naturalmente, centenas de estantes intercaladas com aprazíveis áreas de leitura onde todo o espólio da biblioteca está ao alcance de qualquer apreciador de livros.

Sentada a uma mesa junto a uma grande janela por onde entrava a luz forte do sol, encontrei a jovem Leanne, Couto o seu apelido. Não pude deixar de lhe perguntar se falava português. Respondeu-me que não, mas contou-me que o pai ainda fala. Aceitou com um sorriso a minha sugestão de pedir ao pai que lhe ensinasse um pouco com o argumento de que saber português ainda é uma mais-valia nos dias que correm. Mas fiquei convencida que esse não é um empreendimento que a entusiasme por ai e além. Na altura em que conversámos a Leanne, quase a fazer 18 anos, estava mais empenhada em duas outras coisas: aproveitar ao máximo o seu primeiro ano na faculdade como estudante de Biotecnologia e retomar o hábito de ler. "Hoje as aulas acabaram mais cedo e então decidi passar pela biblioteca. Adoro ler, mas nos últimos dois anos quase não pude fazê-lo por causa dos estudos. Agora que consegui entrar para a faculdade estou a retomar essa rotina". Estava a ler as primeiras páginas de "The Time of My Life" ("O Meu Encontro com a Vida", na edição portuguesa), um livro da irlandesa Cecelia Ahern, que Leanne julgou ter um título apelativo. "Prefiro romances. Há pouco tempo li e gostei muito do livro 'Beautiful Disaster', ('Um Desastre Maravilhoso'), mas não posso dizer que seja o livro da minha vida. Ainda não sou capaz de fazer essa escolha", afirmou. 

Fotos da Biblioteca Central de Goa, aqui.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Goa — Imamali, em Pangim


Estamos a meio de junho. Sobrevoo pela segunda vez na vida este pedaço de terra, no sul da Índia. Há quatro anos vim em março. Lá de cima, Goa era então verde, barro e luz. Desta vez é verde e parda, porque a vegetação densa e o céu pesado se duplicam na superfície da água que cobre quase tudo. O avião desce sobre o aeroporto de Dabolim e eu aterro na monção. Qualquer guia dir-vos-á, logo nas primeiras páginas, não ser boa altura para visitar este antigo pedaço de Portugal. A força e constância das chuvas que caem de junho a setembro ditam a época baixa. Em toda a costa o mar revolta-se, o turismo faz uma pausa e eu descubro que Goa tem muito mais encanto neste clima de fim de festa. 

Desta vez não haverá excursões de homens vindos do interior do estado para espreitar na praia as mulheres brancas em biquini. Também não haverá nórdicos hippies, alemães freaks, britânicos ganzados, russos alcoolizados ou americanas solitárias na rota "comer, orar e amar". Desta vez, haverá apenas o povo de Pangim. As ruas dos bairros com nomes portugueses — Altinho, Fontainhas, S. Tomé — estarão tranquilas; as crianças, enfeitadas com laços ao pescoço e no cabelo, terão voltado às escolas; o comércio aberto será o que existe para as pessoas da terra; o crocitar dos corvos e o canto dos pavões sobrepor-se-á ao ruído dos tuk tuk; os mais velhos terão tempo para retorquir em português aos meus bons dias e para longas conversas em que se enaltecerá o passado e lamentará o presente.

Fico numa hospedaria na Rua de Natal, em pleno bairro das Fontainhas. Tudo neste lugar me confunde: a toponímia, as ruas estreitas, as casas antigas — grandes sobrados de rés-do-chão e primeiro andar debruados com longas varandas, pintados de azul, amarelo, verde ou vermelho —, os portões de ferro forjado, as telhas de cerâmica, os vasos de flores às janelas, os nichos com figuras de Santo António, as cruzes desenhadas a branco nos muros, as capelas e igrejas. Parece que voltei a uma das colinas de Lisboa ou que todo o nordeste litoral brasileiro, com o verde dos seus coqueiros, atravessou meio mundo para me reencontrar aqui. 

O edifício da Hospedaria Abrigo de Botelho tem cento e cinquenta anos. O seu proprietário, Roy Botelho, é um goês de meia idade que abandonou o negócio da construção civil para devolver à casa todo o seu esplendor e pô-la ao serviço do turismo. Por fora pintou-a de um azul forte e orlou as janelas de branco. Por dentro recuperou madeiras, manteve tijoleiras, conservou tetos. E recebe-me num português tímido, mas correto que aprendeu em casa, com os pais. Em português me cumprimenta também o Sr. Sélvio, à porta da Igreja de Nossa Senhora da Imaculada Conceição. Curioso acerca da história da minha viagem, convida-me para um chá à saída da missa para que lhe conte tudo. Depois disso encontrar-nos-emos todos os dias. Durante aquela semana, o Sr. Sélvio é o meu anjo da guarda. Também em português volto ao convívio do Sr. Bento Fernandes, que com devoção mantém abertas as portas do Núcleo Sportinguista de Goa, um lugar incontornável para tertúlias sobre o nosso futebol. E assim passo os dias, ao som da minha língua: na casa de instrumentos musicais, na papelaria, num restaurante junto à praia, no despachante de encomendas perto da estação de correios, no ourives do mercado de Mapuçá. 

Num domingo à tarde em que Pangim estava ainda mais deserta, passei pelo Azad Maidan em direção ao rio Mandovi. Queria caminhar de novo na marginal Dayanand Bandodkar antes de regressar à hospedaria. O Azad Maidan consiste numa praça quadrangular, no coração da cidade, onde os portugueses ergueram em tempos uma estátua de Afonso de Albuquerque. Hoje, essa mesma praça, importante centro de reunião e convívio para os habitantes da cidade, alberga um memorial em homenagem a Tristão de Bragança Cunha, um goês nacionalista e ativista anti-colonial que morreu em 1958, três anos antes da invasão do território pelas forças armadas da Índia e subsequente anexação à União Indiana. Foi nesse largo de ar descuidado que conheci Imamali, um jovem de Hyderabad, uma cidade no interior do país, a 540 quilómetros de Pangim. "Estou em Goa a fazer um estágio de dois meses e como espero aqui pelo autocarro aproveitei para ler. Leio bastante, sobretudo clássicos da literatura e thrillers, mas neste momento os meus livros preferidos são os da 'Guerra dos Tronos'. Também sou fã da série de televisão". Fotografei-o no início da leitura de "Uncle Tom's Cabin" ("A Cabana do Pai Tomás"), da autora norte-americana Harriet Beecher Stowe. "Leio-o porque é um clássico e porque é muito bom", disse-me Imamali, "e também porque quero saber como eram os tempos da escravatura".