domingo, 22 de março de 2015

Zanzibar — Fabienne & Michelle em Kiwengwa


A 40 km de Stone Town, depois de percorrer uma estrada que se dirige para leste até à costa oposta da ilha, fica Kiwengwa, uma aldeia pobre que me era totalmente desconhecida até ao dia em que, ao fim de quase quatro meses a viajar, escrutinei o mapa de Zanzibar em busca de um lugar para desfrutar de uma semana de praia e descanso. 

Cheguei ao Baby Bush Lodge a meio de uma tarde de domingo. Contrariamente à entrada de todos os outros hotéis de luxo, cujos grandes portões se viam junto à estrada de alcatrão que o táxi percorreu, o acesso a este meu humilde alojamento fez-se descendo um estreito caminho de cabras ladeado por casas pobres, algumas sem portas, janelas ou telhados: apenas quatro paredes erguidas e deixadas no reboco. O carro parou junto a um pequeno portão branco rodeado de entulho. Isamíli, um dos empregados, veio imediatamente ter connosco e trouxe consigo um sorriso amplo, honesto que foi uma das muitas alegrias dos dias serenos que ali passei. Pegou na bagagem, abriu o portão e segui-o por uma tosca escadaria de madeira e corda que conduzia à receção mais simples e despojada onde alguma vez estive. Por cima das nossas cabeças apenas um amplo telhado de folhas de palmeira que cobria também a contígua esplanada do restaurante e o grande lounge repleto de vastos sofás. Ali não há qualquer muro, qualquer janela, qualquer porta. Dali, daquele estrado de madeira elevado sobre estacas, só se vê uma frente de palmeiras imperiais. E depois delas, o areal mais branco e o mar mais belo. 

Neste pequeníssimo hotel sui generis plantado nas margens do Índico não há casais europeus em lua de mel. Na hora da verdade, são poucos os que aceitam "o amor e uma cabana", ainda que no paraíso. Porque ficava numa cabana o tosco quarto que me coube: a casa de banho sem porta; o chuveiro que pendia da parede sem que houvesse uma banheira ou um prato de duche; a água, que embora quente, era salobra e mal me retirava o sal da pele e do cabelo depois da praia; a cama, de colchão finíssimo e lençóis que não abri, tendo preferido dormir no meu saco-cama de cetim; o mosquiteiro que cheirava a maresia; a humidade que se entranhava em tudo ao anoitecer porque nada naquela divisão era estanque; o varandim com duas cadeiras rudimentares feitas de pele de cabra e a mesa de apoio acabada de pintar que empestava tudo com cheiro a tinta. Era assim a minha cabana erguida pelas mãos de um punhado de homens da Zanzibar — absolutamente genuína. 

Em Kiwengwa, apesar do muito que podemos fazer para nos entretermos, o tempo passa devagar, como julgo ser apanágio de qualquer paraíso na terra. Caminhar na praia infinita e maravilhar-me a cada passo com a textura finíssima da areia — cuja brancura, qual farinha, fere os olhos sob a luz do sol — foi das minhas atividades preferidas. Assim como a ida de canoa até aos corais onde observei a arte de apanhar os pequenos polvos que comi nessa mesma noite ao jantar. Ou ainda, a viagem de barco que me levou para longe da costa e onde, num mergulho, descobri a vida multicolor que há sob as águas do mar. E também a visita à aldeia de pescadores que esculpem dhows do tronco de uma única árvore. 

Para a Fabienne e a Michelle, a estadia de quinze dias em Kiwengwa serviu, ainda, para ler. Estas duas suíças, enfermeiras de profissão, chegaram ao Baby Bush Lodge um dia depois de mim, vindas de Moçambique. Tinham tirado três meses de férias para uma viagem que começou na África do Sul e que terminaria ali, em Zanzibar, onde passariam os últimos trinta dias. Naturalmente, passámos algum tempo à conversa sobre as nossas experiências enquanto "mochileiras" e cheguei a emprestar-lhes o meu computador para que acedessem à internet. Os seus iPhones tinham-lhes sido furtados logo no início da viagem, quando dormiram num hostel na Cidade do Cabo... Fabienne (à esquerda, na foto) contou-me que lê bastante, mas que é nas férias que aproveita ainda mais os livros. "Das Rache Spiel" — algo como "O Jogo da Vingança", um thriller sobre um grupo de quatro homens que se reencontram trinta anos depois de terem cometido um crime — era o quarto livro que lia nos dois meses que a viagem já levava. Michelle, por seu turno, admitiu que só mesmo nas férias é que lê e estava entretida com "Flieh, Wenn du Kannst" ("See Jane Run", no original em inglês), um romance sobre as relações e intrigas familiares. 

Voltei ao meu quarto apenas para pousar a câmara e dirigi-me, depois, para a praia. O sol começava a pôr-se na nossas costas e levantou-se um vento forte que fazia inclinar as palmeiras e ondular as túnicas de xadrez vermelho e preto dos Massai que trabalham nas lojinhas montadas no topo do areal. Da aldeia vêm crianças brincar comigo. Riem às gargalhadas e mostram as fileiras de dentes desalinhados. O mar encrespou-se e ouço um ligeiro rebentar de ondas. Penso no jantar que me espera, provavelmente uma lagosta envolta num molho de caril aveludado. Ou uma salada de polvo tenro. Vai para quatro meses que não pego num livro e estou em paz com isso. Porque a leitura que eu mais queria fazer era esta: perder-me no mundo onde vivo e que é tão belo que chega a doer.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Zanzibar — O cônsul alemão



Era uma vez uma princesa chamada Sayyida Salme, que nasceu em Zanzibar em 1844. Foi a mais nova dos 36 filhos do Sultão e aprendeu a escrever em segredo por essa ser uma habilidade proibida às meninas do seu tempo. Após a morte dos pais a princesa, já tornada mulher, muda-se para Stone Town. É aí que se apaixona pelo vizinho Rudolph, um comerciante alemão de quem fica grávida aos 22 anos. Um escândalo. Decididos a viver esta paixão até às suas últimas consequências, o casal foge numa fragata para Aden, uma colónia britânica no Médio Oriente. É aí que Salme se converte ao Cristianismo antes do casamento com Rudolph. Infelizmente, o bebé de ambos viria a morrer em França, quando iam a caminho da Alemanha. Mas, uma vez instalados em Hamburgo, Salme e Rudolph têm mais três filhos: um menino e duas meninas. Viveram felizes até que a morte súbita de Rudolph deixa Salme em dificuldades financeiras, uma vez que as autoridades alemãs não lhe permitem o aceso à herança do marido. Para fazer face às despesas Salme — que entretanto adotara o nome Emily Ruete — escreve “Memórias de Uma Princesa Árabe de Zanzibar”, considerada a primeira autobiografia de uma mulher árabe. O livro viria a ser publicado na Alemanha, no Reino Unido e nos Estados Unidos. Salme voltou a Zanzibar duas vezes antes de falecer na Alemanha em 1924, aos 79 anos.

Foi esta a história que me veio de imediato à cabeça na manhã em que conheci Saada na loja da Adra, numa das vezes em que voltei à Rua Gizenga para visitá-la. À semelhança de Salme, também Saada se apaixonou por um alemão. Mas desta vez o romance começou na Alemanha e migrou, depois, para Zanzibar. Mulher confiante, comunicativa e desinibida, convidou-me a ir a sua casa conhecer Erich, assim que soube do Acordo Fotográfico e dos motivos que me levavam a viajar. Explicou-me que o marido, na sua qualidade de cônsul alemão, sabia imenso sobre a história de Zanzibar, tendo mesmo escrito um pequeno livro sobre a ilha. E então lá fui eu, atrás dela, pelas ruas estreitas de Stone Town, umas vezes escuras, outras luminosas, observando como Saada caminhava com um saco de compras numa mão enquanto a outra, livre, ajeitava constantemente o lenço que lhe escondia o cabelo. "Não costumo cobrir a cabeça", disse, "mas como estamos no Ramadão uso o lenço por respeito". 

A casa onde Saada e Erich moram fica na Kenyatta Road, uma das principais vias de Stone Town. O edifício, antigo, tem à porta uma grande árvore e no primeiro andar um varandim debruado a madeira rendilhada. A entrada faz-se por uma porta ampla de madeira que dá acesso direto à sala de estar desafogada. No interior, pouca luz. As janelas e portadas estão fechadas para afastar o calor do meio-dia. Saada chama pelo marido, diz-lhe qualquer coisa que não entendo e desaparece numa outra divisão da casa. Não a verei mais. E então surge Erich, visivelmente surpreendido com a minha visita, farta e alvoraçada cabeleira branca e meio sorriso. Pareceu-me tímido, mas uma vez sentados nas velhas poltronas a conversa fluiu. Falei-lhe do meu percurso até ali, das minhas primeiras impressões sobre Zanzibar e quis saber, depois, como tinha ele ido ali parar. "Sou arquiteto e a minha ligação ao continente africano vem de há muito", contou-me. "Estava a trabalhar no Gana quando me convidaram a ir para o Quénia, onde leccionei e fui diretor do Departamento de Arquitetura da Universidade de Nairobi. Daí parti numa missão das Nações Unidas para Dar es Salaam, na Tanzânia, onde fui também trabalhar na Escola de Arquitetura. Estávamos nos anos 80. E depois, já no fim da minha carreira, surgiu a oportunidade de vir para Zanzibar de novo pela ONU, para participar no projeto de reconstrução de Stone Town. Os edifícios históricos estavam a colapsar. Aqui, os edifícios a colapsar são uma tradição! Muitos perderam-se irremediavelmente... Quando, por fim me reformei, já cá vivia com a minha mulher, e foi então que o Embaixador alemão na Tanzânia me nomeou Cônsul de Zanzibar. Hoje em dia, uma das minhas principais tarefas é zelar pela manutenção do cemitério alemão que aqui existe. Sabe, é que os cemitérios são os nossos melhores livros de história."

Fotografei-o com o seu livro "Where to, Fair Beauty? A Zanzibar Guide" no colo. É uma edição de autor artesanal, feita de folhas fotocopiadas e coladas à mão. Antes de me vir embora, comprei-lhe um exemplar. Custou-me 25 mil Xelins. De oferta recebi um outro livro, muito pequeno, onde Erich compilou poemas da sua autoria sobre Zanzibar. Chama-se "Smell of Salt".