quinta-feira, 23 de abril de 2015

São Tomé e Príncipe — Deolindo e o cacau


Foi em junho de 2003. Parti de férias para Pipa, no nordeste brasileiro, e levei na mala a primeira edição de "Equador", a estreia de Miguel Sousa Tavares na escrita de romances. Ao partir do Porto estava longe de saber que os dias longos e preguiçosos passados entre o areal da Baía dos Golfinhos e a rede do bungalow ficariam para todo o sempre associados à história do Cônsul Luís Bernardo. As 518 páginas do romance foram lidas em 4 dias. Com esse livro nas mãos, ajudada pela paisagem, pelos sons e pelo clima da Mata Atlântica, as minhas férias não se limitaram ao Brasil; estive também em S. Tomé e Príncipe. Demorei onze anos a lá voltar, mas cumpri a promessa feita a mim mesma no fim de tarde em que a chuva quente e pesada que desabou sobre Pipa parecia ter como único propósito acompanhar o pranto com que terminei o livro. Caro Miguel Sousa Tavares, li há pouco tempo no seu "Não se encontra o que se procura" que muitos anos após a publicação do romance, também chorou o fim de "Equador". Não pense que com isso está perdoado! A única coisa que o redime foi a inquietude que plantou no meu íntimo e que deu frutos riquíssimos. Não descansei enquanto não fui ver com os meus próprios olhos o que já conhecia através do olhar do nosso saudoso cônsul.

Aterrei na cidade de S. Tomé vinda da África do Sul. Pelo meio, duas escalas: uma na Namíbia e outra em Angola. Saí do aeroporto já passava largamente da meia-noite e não tinha onde dormir. Foi o funcionário que me tratou do visto que recomendou os serviços do Adelino, um taxista e guia turístico que me entregou, por sua vez, aos cuidados da D. Lurdes. Chegados ao bairro Água Arroz, foi ela que nos abriu o portão da casa construída com o suor de uma vida de emigração: primeiro em Portugal, depois na Austrália. E assim que a vi — com a sua comprida camisa de noite branca, um lenço na cabeça e o andar bamboleante provocado pelas dores nos ossos —, não mais deixei de a comparar à Tia Nastácia do Sítio do Pica Pau Amarelo. Mãe de nove filhos e avó de inúmeros netos espalhados por três continentes (ninguém está em S. Tomé, nem mesmo o seu segundo marido), a D. Lurdes, sem perder o foco no negócio que a ajuda a pagar as contas, recebe os seus hóspedes com um toque maternal e uma deliciosa infomalidade que permite, a quem vem de longe, vislumbrar detalhes do dia a dia de uma casa são-tomense. Trago gravada na memória a manhã em que saí do meu quarto e encontrei, na corda de secar roupa, as tranças postiças da D. Lurdes penduradas ao sol junto às t-shirts que eu tinha lavado à mão na véspera. Com a ajuda da sua empregada Fofinha, uma adolescente enfezada pela pobreza, esta matriarca sem séquito preparava-nos todas as manhãs um pequeno-almoço com café, leite, pão, manteiga, marmelada, papaia e banana e numa ou outra ocasião chegou a cozinhar a famosa omelete de peixe e folha de micocó, uma erva aromática célebre pelas suas propriedades afrodisíacas. E sentava-se connosco à mesa para nos contar episódios da sua já longa vida, enquanto bebericava um chá contra a prisão de ventre.

No dia em que saí à rua pela primeira vez e comecei a desbravar as ruas da capital, os meus sentidos ficaram de tal forma baralhados que me senti mal disposta. Sentada na esplanada de um restaurante com vista para a baía de Ana Chaves, tive por momentos a impressão de ter voltado a Díli. O clima, a geografia e as cores da paisagem devolviam-me Timor. Mas, por outro lado, do interior do restaurante vinham os sons da RTP Internacional com ecos do escândalo BES, na mesa da família que almoçava atrás de mim bebia-se Super Bock e Compal, da minha própria mesa desprendia-se o aroma a azeite e vinagre vindo do galheteiro e por todo o lado ouvia-se falar português com um sotaque que me parecia ora algarvio, ora brasileiro. Havia cinco meses que não estava tão perto de Portugal e apercebia-me agora, de forma pungente, que não me apetecia regressar a casa. Cedi estupidamente a um sentimento de nostalgia pela viagem que ainda não tinha acabado e admito que a minha experiência em S. Tomé tenha sido afetada por esse estado de espírito. Costumo dizer que foram muitas as ocasiões durante a viagem em que chorei de alegria, mas foi S. Tomé que me arrancou as únicas lágrimas de tristeza. Dos 14 países onde estive no decorrer da viagem, este foi o que mais altos e baixos me provocou. Deslumbramento e nojo. Paz e revolta. Paixão e desprezo. Querer ficar mais tempo e não ver a hora de partir para bem longe. Foi quase um trauma. Não consigo parar de pensar em São Tomé, de falar sobre São Tomé, de me perguntar por que raio toda a gente, os são-tomenses incluídos, parece ter desistido de São Tomé. E embora tenha sido muito duro, tenho saudades de quase tudo o que lá vi e vivi. 

Tenho saudades daqueles momentos em que percorri as parcas estradas da ilha nas carrinhas Hiace amarelas e decrépitas que servem de transporte público e onde em vez dos 12 passageiros para os quais foram concebidas iam por vezes 25 pessoas. Nessas Hiace onde valia transportar tudo, onde suei, a minha pele colada à dos outros, conversei, ri e me aborreci por vezes (houve um passageiro que se recusou a ceder o lugar a uma mulher grávida), também ouvi aos altos berros kizombas que embalam até hoje as minhas memórias desses dias. Tenho saudades de todos os matizes de verde que pintam a densa floresta tropical cuja exuberância só encontra travão no momento em que toca o imenso mar. E nessa floresta, ainda virgem em tantas áreas do arquipélago, de cumes cobertos pelo céu pardo da gravana, eu vi brotar cascatas de água pura, vi erguer-se o absurdo pico do Cão Grande e aprendi a distinguir os pés de café e de cacau abandonados, as palmeiras que darão óleo, os coqueiros, os ocás, os embondeiros, os tamarindeiros, as árvores de figo porco e de fruta pão, as papaieiras e as lindas ravenalas. Tenho saudades do momento em que chegava às roças e era recebida com alegria pelos moradores, pelos poucos trabalhadores e pelas dezenas de crianças. "Brrranca! Brrranca! Doxi! Doxi!", gritavam, carregando nos "erres" e pedindo doces em crioulo. Outros, preferiam pousar para a câmara e dizer com ar grave: "Brrranca, tira-me um postal". Com estes miúdos sofregamente agarrados às minhas mãos, percorri os principais edifícios das roças, ainda tão dignos na forma como se mantêm erguidos, tenazes na sua postura aristocrata, apesar do lixo, apesar da podridão, apesar de todo o abandono do mundo. Na varanda do último andar do antigo hospital da Roça Água Izé — onde outrora nasciam crianças e agora se criam porcos, onde no passado se convalescia de malária e agora habitam famílias inteiras numa divisão transformada em apartamento, nos corredores onde antes circulavam médicos e enfermeiros e hoje os habitantes urinam por falta de saneamento básico —, a olhar para as telhas de barro do casario entremeado de palmeiras que descia até ao mar, desabei num pranto na frente do pobre Ali Babá, o empregado da roça que me mostrou tudo com tanto zelo e evidente orgulho. "Deixa lá, Sandra... Não fiques triste", foram as suas palavras de consolo. Tenho saudades das refeições que fiz nos restaurantes improvisados à beira da estrada — apenas uns panos e uns paus para delimitar o espaço, por vezes sem mesas ou cadeiras; aconteceu-me comer sentada no asfalto com o prato pousado nos joelhos. Aí comi peixe frito, arroz e matabala, tudo cozinhado sem quaisquer condições de higiene e a cada garfada deliciosa que levava à boca pensava que não tinha como escapar a uma doença. Mas que importava isso se o melhor de tudo era o brilho nos olhos da cozinheira a quem dávamos a distinção de provar dos seus petiscos? Tenho saudades dos mercados caóticos onde me abasteci de papaias, bananas e abacate que foram por vezes o meu jantar. Como, no meio de tanta cor e tanto produto fresco, podem imperar nesses mesmos mercados os cheiros mais nauseabundos? Tenho saudades das praias paradisíacas, tantas imaculadas, algumas refúgio de tartarugas marinhas, mas outras a servir de casa de banho e de lixeira das paupérrimas aldeias de pescadores. "Nós não temos latrinas, senhora!", disseram-me as mulheres, as mesmas que me perguntaram se não queria levar os meninos que traziam ao colo. Nalgumas dessas praias assisti ao espectáculo que é ver centenas de mulheres a lavar a roupa nos riachos de água doce que vêm do interior da ilha e desaguam no oceano. Jamais esquecerei a imagem do imenso areal negro, debruado a palmeiras e coberto de roupa colorida a secar ao sol. E tenho, também, saudades das longas conversas que tive com os são-tomenses acerca das suas vidas e do seu país: a falta de trabalho para os jovens, os políticos corruptos, o abandono a que tudo está votado, a emigração como alternativa. Aos mais velhos expliquei porque que me doía ouvi-los dizer que mais valia que os portugueses tivessem ficado. Aos mais novos sugeri que agissem para que algo mude. Mas no país pequeno onde a vida se leva "leve leve" e todos se conhecem, parece que as retaliações não são fora do comum...

Perante este cenário, supus que os livros não tivessem um papel relevante na vida dos são-tomenses. E julgo que não me enganei: o espólio da Biblioteca Nacional, pelo menos aquele que está à vista, é tão pobre que confrange; não me lembro de ver uma única livraria na capital; e os frequentadores do Instituto Camões pareciam estar mais interessados nos computadores e acesso grátis à internet. Porém, nos quase 15 dias em que lá estive, consegui fotografar dois leitores nativos. O primeiro foi o Deolindo. Encontrei-o quando ia a pé do bairro Água Arroz para a baía de Ana Chaves, e passei pela entrada da CECAB/STP — Cooperativa de Exportação da Cacau Biológico de S. Tomé e Príncipe. O Deolindo trabalha no cacau desde a infância e hoje é técnico agrícola especializado em cacau biológico. Na manhã em que falámos preparava-se para mais um dia de quebra de cacau, isto é, o momento em que o miolo é retirado do fruto. Mas antes de se dirigir ao campo e pôr as mãos à obra, fazia uma revisão dos seus conhecimentos com a ajuda do livro "Cacau - Tecnologia pós-colheita". Depois de seco, todo o cacau seria exportado para França onde a Kaoka produz deliciosos chocolates bio.

terça-feira, 7 de abril de 2015

África do Sul — Joanne em Joanesburgo


A viagem de Zanzibar para a África do Sul não correu bem. Aquilo que deveria ter sido um trajeto de meio dia com uma curta escala na Etiópia acabou por transformar-se numa odisseia de dia e meio que incluiu: um atraso de quatro horas num voo; discussões acesas com os funcionários de um aeroporto; um almoço forçado em Adis Abeda; uma escala no Quénia; uma avaria num outro avião que nos forçou a voltar para trás e uma noite passada em Nairóbi que se resumiu a três horas de sono.

Cheguei a Joanesburgo esgotada e o frio que se fez sentir mal saí do aeroporto não ajudou a levantar o ânimo. Voltei a lamentar a péssima ideia que foi chegar a Macau em junho e despachar para Portugal os poucos agasalhos que tinha na mochila. Apenas um dia depois de meter a encomenda no correio, ocorreu-que que na outra metade do mundo (aquela onde planeava passar três semanas muito em breve) se vive o pico do inverno entre julho e agosto. Passeie-me, portanto, pela magnífica "nação arco-íris" — Joanesburgo, Kruguer Park, Durban e Cidade do Cabo — de forma muito pouco glamorosa, vestida com várias camadas descoordenadas de roupa e por vezes envergando casacos e gorros emprestados. 

Fundada em 1886 por colonizadores britânicos, Joanesburgo tem a particularidade de ficar quase 1800 metros acima do nível do mar. Hoje, é não só a maior cidade sul africana — com cerca de 4 milhões de habitantes — como também a mais rica, já que constitui o principal centro financeiro, industrial e comercial do país. Mas essa riqueza, extremamente mal distribuída, as gigantescas bolsas de pobreza, a pesada herança do Apartheid e um conjunto complexo de fatores culturais estão na origem de tensões sociais que fazem de Joanesburgo um dos lugares mais perigosos de toda a África do Sul: assassinatos, raptos, assaltos violentos de toda a espécie e violações são coisas do dia-a-dia. Viver em Jozi — um diminutivo que não escamoteia as agruras da cidade — é, portanto, estar exaustivamente obcecado com a segurança. Uma obsessão que pauta e constrange qualquer atividade. Uma obsessão a que os meros visitantes não conseguem (nem devem!) ficar alheios. 


E depois há a raça, esse assunto que me atingiu como uma forte bofetada, abalou as minhas certezas, questionou os meus valores, provocou uma avalanche de dúvidas, colocou sob os holofotes a minha ignorância, trouxe à tona os meus preconceitos e me levou à náusea e às lágrimas. A raça, essa questão sobre a qual eu nunca quis refletir com seriedade, apesar de todos os meus estudos, apesar de todas as minhas leituras, apesar de todos os documentários e filmes a que assisti, apesar de todas as viagens que fiz e de todos os choques culturais que vivi. A raça, um tema que eu optei por nunca valorizar porque deste lugar privilegiado onde me encontro — uma branca da classe média, que teve a sorte de nascer num país rico, laico e liberal do ocidente — preferi afirmar sempre, com toda a convicção (e ingenuamente?), que a cor da pele pura e simplesmente não interessa. A raça — para mim um "não-assunto"; para milhões uma condenação —, o conceito com base no qual se instaurou um regime abjeto e se escreveu grande parte da história de um país extraordinário. 

Visitei Joanesburgo e outras cidades sul-africanas 20 anos depois de abolido o Apartheid e sete meses após a morte de Nelson Mandela. Na África do Sul a omnipresença de Madiba supera a de Deus. Venerado por todos — independentemente da cor da pele, credo religioso ou filiação partidária — a sua imagem está em todos os lugares, públicos ou privados, e a sua mensagem de luta, reconciliação e esperança decora os muros das cidades e as t-shirts dos jovens. Esforços legislativos são feitos tendo em vista a erradicação das desigualdades sociais e económicas criadas por 44 anos de políticas racistas. Largos milhares de sul-africanos saíram já da pobreza. E ainda assim a nação arco-íris, com a nova bandeira hasteada, o novo hino nacional na boca das crianças e os olhos postos num futuro que se quer cheio de oportunidades para todos sem excepção, luta e lutará durante muitas décadas para se libertar do lodaçal da segregação. 

Segurança e raça. Duas palavras que ditaram o ritmo dos meus dias em Joanesburgo. Porque fui forçada a procurar alojamento em bairros residenciais para brancos, delimitados por muros altos, cercados por vedações eléctricas e vigiados por câmaras. Porque os meus passos estavam limitados a uma poucas ruas onde também outros brancos caminhavam com relativa descontração. Porque não pude apanhar transportes públicos e até o taxista que me serviu de guia teve de ser recomendado por uma pessoa de confiança. Porque tive de ver o centro da cidade através dos vidros fechados de um carro cujas portas estavam sempre trancadas por dentro. Porque ainda há brancos racistas e negros racistas e brancos que se afirmam não racistas, mas que não gostam dos imigrantes nigerianos e negros que também dizem não ser racistas, mas também não gostam dos imigrantes nigerianos e afrikaners que ostracizam todos os que não são afrikaners e brancos que nem sequer são sul-africanos e odeiam afrikaners e mestiços que não sabem a que lado pertencem, porque os lados ainda existem!

Quando voltei a Joanesburgo, depois de quatro dias de safari no Kruguer Park, optei por ficar alojada numa pequena guest house em Melville, um bairro residencial nos arredores da cidade que é habitado maioritariamente por brancos. Ali predominam as casas térreas, os passeios com árvores frondosas, o pequeno comércio, bares e restaurantes para todos os gostos. É, aliás, um lugar onde à noite se vive uma certa "movida" e onde de uma forma geral é possível circular a pé sem grandes perigos. Todas as manhãs caminhava do meu quarto até ao Café de la Crème — um espaço de extremo bom gosto e excelente serviço, gerido por portugueses — onde tomei sempre o pequeno-almoço. E foi aí, por entre iogurtes com cereais, cafés e sumos de laranja que fiz a única fotografia para o Acordo Fotográfico na África do Sul.

Joanne lê muito porque para si ler é uma necessidade absoluta. Normalmente, anda sempre com dois livros na carteira e em casa, na mesinha de cabeceira, tem outros vinte, alguns novos, outros por reler. Aquele que lia na manhã em que a fotografei — Confessions of a Sociopath — fora uma compra por impulso. "Vi-o na livraria e despertou-me a atenção. É sobre uma mulher que sempre percebeu claramente que era diferente até ao dia em que alguém lhe diz que tem características sociopáticas. A partir desse momento esta mulher começa a investigar a fundo as origens da sua condição — será genético? Será social? Será fruto de algum trauma de infância? — e faz um relato do que é viver com esse mal. Este livro é, na verdade, uma autobiografia muito interessante, sobretudo se considerarmos que estatisticamente uma em cada vinte e cinco pessoas tem traços de sociopatia, que podem ir de ligeiros a severos. E o mais curioso é que a sociopatia não tem tratamento. Não há medicação ou terapia que ajude. Nasce-se assim e pronto".

Fui feliz na nação de Mandela e quero muito lá voltar. Ficou tanto por ver, tanto por fazer. E ficaram lá amigos, também. A África do Sul deslumbrou-me com a sua beleza natural, enriqueceu-me com a sua história e cultura, comoveu-me profundamente ao proporcionar-me aquela que foi, talvez, a experiência humana mais extrema da minha vida (e sobre a qual ainda não devo escrever). Mas, passados tantos meses sobre a minha estadia dou-me conta, agora que tento com tanta dificuldade contar-vos uma milésima fração do que experienciei, o quanto é complexo o nó que ainda trago por desatar no peito. Terá sido por isso que não quis fotografar mais? Não sei... Se calhar fui apenas preguiçosa.