quarta-feira, 24 de junho de 2015

Cabo Verde — Amílcar no Mindelo


A ilha de São Vicente e a sua capital, o Mindelo, entraram na minha vida em outubro de 1998, quando os meus pais regressaram de uma viagem a Cabo Verde. Desde então, ouvi relatar inúmeras vezes, e sempre com muita doçura, detalhes dos três ou quatro dias lá passados: a movimentada Casa do Benfica, a alegre Praça Amílcar Cabral percorrida por miúdos fardados à saída da escola, o colorido do mercado municipal, as casas de traça portuguesa, os espaços com música ao vivo, a simpatia do taxista que fez as vezes de guia turístico por um dia, o mar turquesa e quente da Baía das Gatas, a imponência e negritude dos vulcões extintos, a loja onde lhes recomendaram o CD do Bau que viria, já em Portugal, a embalar muitas das nossa refeições em família. Foi preciso que passassem dezasseis anos para que eu tivesse, por fim, a oportunidade de conhecer também a chamada capital cultural de Cabo Verde. Em 2014, o Mindelo foi a última das mais de trinta cidades que visitei no decorrer dos 168 dias que demorei a dar a volta ao globo. Daqui regressei apenas à cidade da Praia para apanhar o voo da TACV que me levou de volta a casa.

O Mindelo — outrora Porto Grande — existe, em parte, graças à persistência dos governantes portugueses, que sempre viram grande potencial na baía natural que a cratera submarina de um vulcão ali formou. Contudo, a falta de recursos e os longos períodos de seca, adiaram durante séculos o seu povoamento: a ilha de S. Vicente foi descoberta em 1462, mas só em 1765 chegaram os primeiros colonos à povoação do Porto Grande. Na primeira metade do século XIX, mais ou menos na mesma altura em que o Marquês de Sá da Bandeira decreta que o nome do lugar mude para Mindelo (em homenagem ao desembarque das tropas liberais de D. Pedro IV no norte de Portugal, perto do Mindelo, em 1832), várias companhias inglesas de carvão instalam-se na vila para abastecimento dos navios que viajavam da Europa para o Atlântico Sul. Já na segunda metade do século XIX, outras companhias inglesas começam a instalar na ilha cabos submarinos de telégrafo que permitem ligar Cabo Verde ao continente africano, à Europa, ao Brasil e até aos Estados Unidos. Este período de prosperidade sob o ciclo do carvão e das telecomunicações, permitiu ao Mindelo crescer e investir nas infraestruturas públicas. A vila tornou-se, então, um polo de atração para habitantes de outras ilhas do arquipélago, ao mesmo tempo que se instalava também uma considerável comunidade estrangeira. O Mindelo adquiria assim uma aura cosmopolita e requintada muito própria, onde a cultura crioula — de matriz africana e portuguesa — bebia também da cultura inglesa. Porém, quando no alvor do século XX o carvão começa a ser substituído pelo petróleo como combustível, o Mindelo entrou num período de decadência que a Grande Depressão de 1929, entre outros factores, acentuou ainda mais: o desemprego assolou a maioria dos trabalhadores portuários e do carvão, a pobreza deu lugar à fome e às doenças e as duas secas extremas da década de 40 provocaram milhares de mortos e obrigaram à emigração massiva dos mindelenses. Só no fim da década de 60, com o incremento das remessas enviadas pelos emigrantes e, mais tarde, com o processo de independência é que o longo período depressivo entrou em remissão.

Hoje, com cerca de 70 mil habitantes, o Mindelo é a segunda maior cidade de Cabo Verde. Daquela pequena vila que começou a crescer a partir da Pracinha da Igreja resta muito pouco. Há um reduzido mas bem conservado casco histórico, mais ou menos delimitado entre a Praça D. Luís, o Palácio do Governador (agora Palácio do Povo) e a Praça Nova (rebatizada de Amílcar Cabral) onde as influências portuguesas são mais do que evidentes e a arquitectura e urbanística do período áureo do século XIX se misturam com a traça do Estado Novo. A partir daí a cidade espraiou-se desordenadamente pelas colinas que contornam a baía, formando o que se parece com um presépio feito de prédios feios e casas inacabadas, outras deixadas no reboco, algumas pintadas de cores berrantes (disseram-me que conforme a tinta que houver no mercado ou a que for mais barata na altura). Há algo de favela carioca nestes bairros mindelenses de olhos postos no mar e na vizinha ilha de Sto. Antão. Mas há também neste conjunto caótico de ruas — parcas em passeios, pavimentadas de paralelos desordenados e salientes, muito limpas e salpicadas por escassas palmeiras, acácias, buganvílias e loendros que resistem estoicamente à falta de água — um travo encantador que vem do langor do povo, do exotismo do crioulo, da alegria da música, do calor da dança, da suculência dos pratos salpicados de malagueta, do ardor do grogue, da cor fascinante do mar, do clima ameno e constante, do reboliço do vento. No Mindelo os dias parecem ter mais horas, e talvez por isso tudo se faça devagar. E foi devagar, chinelando, saboreando a sua tão badalada morabeza, que me embrenhei na cidade e nos seus arredores, longe de imaginar que voltaria muito em breve. 

Na manhã que destinei à ida à Baía das Gatas, saí da Casa Café Mindelo, onde estava alojada, bem no centro da cidade, e percorri a rua de S. João em direção à Praça Estrela, lugar de onde saem aquilo a que os locais chamam os “carros de aluguer”, isto é, os pequenos autocarros que servem de transporte público. Nessa rua, sentado à soleira da porta estreita de um estabelecimento comercial, avistei o último leitor da volta ao mundo. Depois de feita a fotografia, convidou-me para entrar na pequena Papelaria S. João, de que é proprietário, e foi aí que conversámos.

Nascido e criado no Mindelo, o Amílcar foi para Portugal antes do 25 de Abril para estudar Economia no Instituto Superior de Economia. Essa experiência na “Metrópole” foi determinante para que se envolvesse seriamente no movimento de libertação de Cabo Verde. “Fui combatente pela Liberdade da Pátria”, disse-me, com manifesto orgulho. Sobre si, pouco mais me contou (embora eu tenha vindo a saber, muitos meses mais tarde, que este leitor, mais conhecido no Mindelo por Sr. Picau, já foi Secretário de Estado). Acrescentou, apenas, que também é autor: publicou um livro intitulado “As Aventuras de Tibúrcio” (premiado pela Sonangol) e escreve de vez em quando para jornais cabo-verdianos. Já sobre o livro que estava a terminar de ler, “A Jangada de Pedra”, e sobre o seu autor, José Saramago, Amílcar não poupou palavras e expressou-se com entusiasmo. “Adoro Saramago!”, afirmou, categórico. “Para mim é um dos melhores escritores portugueses da atualidade. Pela singularidade da escrita, pelo conhecimento da realidade profunda de Portugal, pelo retratar das coisas sem ornamentos, pelo realismo, o seu posicionamento, a sua irreverência em relação ao status quo. Em relação a este título em particular, fiquei entusiasmado com o retrato que faz da perseguição política, da miséria, das doenças... Passei a adorar Saramago a partir do momento em que entendi a sua técnica de escrita. Entendendo essa técnica, a escrita de Saramago é muito mais simples do que se pensa à primeira.  Um conselho que dou aos leitores de Saramago é que o leiam em voz alta. Foi dessa forma que entendi a sua técnica”. Antes d’ “A Jangada de Pedra”, Amílcar tinha lido “O Ano da Morte de Ricardo Reis” e para ler pela primeira vez ou reler tinha à espera o “Memorial do Convento”, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, “A Bagagem do Viajante” e “Caim”.

Não posso deixar de me comover com o facto do último leitor da minha grande viagem estar a ler um autor português, e logo o nosso único Prémio Nobel da Literatura. Nada faria mais sentido! Nada se adequaria melhor ao fecho de um ciclo que marcou profundamente o meu percurso e o deste blogue. Até hoje, passado quase um ano sobre o fim da volta ao mundo, todas as palavras não me chegam para expressar o quanto fui feliz durante aqueles 168 dias. Espero que tenham gostado de viajar comigo e que os quase 70 leitores fotografados em 14 países vos tenham inspirado a ler ainda mais.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Cabo Verde — Leniza no Tarrafal


Cabo Verde foi o primeiro país africano onde alguma vez estive. Muito antes de ir a Marrocos ou à Tunísia, foi na ilha do Sal que passei férias dois anos seguidos — em 2001 e 2002 —, alojada num modesto lugar que Miguel Sousa Tavares tão bem descreve no seu livro "Sul": o Hotel Morabeza. A ilha do Sal é pequena e na época não havia muito para ver. Um dia bastava para percorrer os principais lugares de interesse turístico ou cultural, pelo que essas semanas foram sobretudo passadas na praia a ler, a comer e a dormir. Obviamente, embora pudesse dizer que já tinha estado em Cabo Verde duas vezes, não podia de forma nenhuma afirmar que conhecia Cabo Verde.

Ao regressar ao país em 2014, quis sobretudo colmatar essa falha, afastar-me dos locais quase exclusivamente de praia e desbravar o Cabo Verde menos turístico. Estipulei, portanto, que visitaria a ilha de Santiago, onde fica a Praia, a capital política e maior cidade cabo-verdiana; a ilha de S. Vicente, onde se situa o Mindelo, considerado o coração cultural do país; e a ilha de Santo Antão, porque é possível lá ir de barco a partir do Mindelo e porque muitos a apontam como a ilha mais bonita do arquipélago: é de todas a mais verde e a mais montanhosa, chegando a atingir quase dois mil metros de altitude no Topo da Coroa, um vulcão inactivo. Estive lá três dias e passou a ser, das quatros ilhas que conheço, a minha predilecta.

Os dias em Santiago foram passados em ritmo lento, entre os passeios pelo Plateau — o bairro localizado num promontório sobre o mar, de arquitectura e urbanismo que nos confundem ao ponto de acharmos, por momentos, que estamos numa vila portuguesa — e pela marginal até à Quebra Canela, a praia de areia escura onde dei uns belos mergulhos e me diverti a observar a multidão de badios (assim se chamam, em crioulo, os habitantes da ilha de Santiago) a brincar nas ondas, a fazer acrobacias no areal, a conversar ou tão só no seu vai e vem alegre. Estávamos em Agosto, tempo de férias para a maioria. A minha volta ao mundo acabaria dentro de poucos dias. Era tempo de balanço e de emoções muito contraditórias...

Houve duas ocasiões, porém, em que me afastei da capital, a primeira delas para visitar a Cidade Velha, declarada Património Mundial da Humanidade em 2009. Esta pequeníssima cidade, fundada pelos portugueses em 1460 para servir de entreposto no comércio de escravos entre os continentes africano, americano e europeu, foi até 1770 a capital do arquipélago e é tida como o berço da nação cabo-verdiana, por lá ter nascido o homem crioulo. Na Cidade Velha aportaram Vasco da Gama, no seu caminho para a Índia, Pedro Álvares Cabral, na ida para o Brasil e Cristóvão Colombo, na terceira viagem às Américas. Considerei particularmente emocionante caminhar pela Rua de Banana, a mais antiga da África subsaariana, imaginando que estas figuras ilustres da história universal fizeram o mesmo um dia; visitar a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, onde pregou o Padre António Vieira; percorrer as ruínas da primeira Sé Catedral erguida em África pelos portugueses e subir à Fortaleza de S. Filipe da qual se tem uma vista soberba sobre toda a costa daquela parte de Santiago e se avista também o verdíssimo Vale da Cidade Velha, um oásis que contrasta com a aridez da restante paisagem.

Na segunda ocasião em que saí da cidade da Praia, dirigi-me ao Tarrafal, esse lugar que na minha imaginação era apenas um ermo onde existia o campo de concentração e nada mais. Por isso, foi grande a surpresa quando a Hiace que fazia as vezes de transporte público passou a toda a velocidade pela placa que sinaliza o recinto infame e não parou. Nesse preciso momento fiquei a saber que o Tarrafal é, antes de mais, uma vila piscatória onde existe uma das poucas praias de areia branca da ilha de Santiago e onde a indústria do turismo começa agora a despontar. Chegada ao centro da vila tive de voltar para trás a pé, chinelando pelo alcatrão que já fervia. Depois, segui por um caminho de terra batida até ao portão do complexo prisional. E então, o lugar que tinha imaginado materializou-se e a desolação que emana abateu-se sobre mim.

Ironicamente localizado num lugar chamado Chão Bom, o Campo de Concentração do Tarrafal foi criado pelo Estado Novo em abril de 1936, de acordo com os modelos nazis em vigor na época, e começou a funcionar em outubro do mesmo ano com a chegada dos primeiros prisioneiros: 152 portugueses sentenciados ao desterro por crimes políticos ou de rebelião. Durante os seus quase 40 anos de funcionamento, passaram por lá ou ali morreram condenados por delitos comuns, militantes comunistas, anarquistas, sindicalistas, republicanos democratas, espanhóis derrotados na guerra civil, alemães anti-nazis, militantes e combatentes dos movimentos africanos anti-coloniais e, após a independência de Cabo-Verde e por um período muito breve, elementos considerados cúmplices do antigo regime colonial. Ultrapassado o portão de ferro é possível subir à muralha que contorna todo o recinto de planta rectangular e observar lá do alto o complexo prisional: num primeiro plano, o fosso; depois um muro ligeiramente mais baixo debruado a arame farpado e lá dentro uma vintena de edifícios térreos pintado de ocre, a cor que acentua ainda mais a secura da terra circundante. Apenas duas ou três acácias rebeldes dão um ar da sua graça pontilhando a paisagem com flores rubras (ou insistem tão só em recordar o sangue que ali se derramou?). E à volta de tudo isto, a Serra Malagueta e o Monte Graciosa acentuam o isolamento do Campo de Concentração. 

Fiz a visita sob um sol severo e na quase absoluta solidão. Apenas a N., que viajou comigo, me fazia companhia. Não havia mais vivalma. Não se ouvia um som. Só os nossos passos na terra ou o ranger de uma ou outra porta que abríssemos. Não tivéssemos nós de pagar para entrar, dir-se-ia um lugar abandonado. Todos os edifícios estão vazios, à excepção de um ou dois que exibem placares com informação sobre a história do complexo ou imagens de alguns dos prisioneiros mais notáveis, com respectivos testemunhos breves. Fotografei o de José Luandino Vieira, o escritor angolano que um dia recusou o prestigiado Prémio Camões por "motivos íntimos e pessoais". Será intencional a falta de espólio em exibição? Ou não haverá espólio de todo? Trago essa dúvida comigo até hoje, assim como a sensação de que se poderia fazer muito mais por um lugar que não pode de maneira nenhuma cair no esquecimento.

Por incrível que possa parecer, foi neste lugar triste que me foi dada a oportunidade de fotografar a primeira leitora em Cabo Verde. Podia ter acontecido numa praia, numa esplanada ou até num banco de jardim, mas ocorreu à porta do Campo de Concentração. Leniza, habitante do Tarrafal e estudante do ensino secundário, costuma trabalhar no complexo prisional para substituir funcionários em férias. Leitora muito pouco habitual, diz preferir romances, mas foi a ler uma biografia — "Testemunho de um Combatente", de Pedro Martins — que a retratei. "Acho o livro muito interessante. O autor esteve preso aqui no Tarrafal. Conta como os carcereiros o tratavam, a tortura... E fala da morte de Amílcar Cabral", explicou.