quinta-feira, 28 de junho de 2012

Juan Miguel, Anne Frank e uma aposta


Faltavam cerca de duas horas para a meia-final do Euro 2012 entre Portugal e Espanha, quando encontrei o Juan Miguel, sentado à entrada da Reitoria da Universidade do Porto, vestido com a camisola oficial das quinas e a ler uma edição mexicana do "Diário de Anne Frank". O Juan Miguel é de Sevilha, vive em Málaga, veio para Portugal fazer o Erasmus, acabou por ficar mais tempo por causa de dois estágios que teve a oportunidade de fazer, gozou uma temporada de férias entre nós e preparava-se para regressar a casa no dia seguinte a este nosso encontro. 

No que diz respeito ao livro, considerou-o uma daquelas obras obrigatórias que mais tarde ou mais cedo todos leem. A mãe já lho tinha recomendado muitas vezes e foi no seguimento de uma ida a Amesterdão, e de uma visita à casa onde Anne Frank e a família viveram escondidos durante a ocupação nazi, que decidiu lê-lo. Para além do mais, uma vez que já tinha lido alguma literatura sobre o nazismo, achou que esta seria uma forma de conhecer o outro lado da história.

E quanto à camisola que tinha vestida? Bem... fazia parte de uma aposta. O Juan Miguel ofereceu uma camisola da seleção espanhola a um amigo português, que retribuiu o gesto oferecendo-lhe uma camisola da seleção portuguesa. Ambos se comprometeram a usar as camisolas durante todo o dia da meia-final. No fim do jogo e pela noite dentro, aquele cuja seleção perdesse teria de andar em tronco nu pela cidade. Portanto, ontem à noite andou um português descamisado a passear-se pela baixa do Porto...

terça-feira, 26 de junho de 2012

Berlim/Lisboa/Porto/Vigo - A Pia em trânsito


No regresso de Berlim, fiz uma escala de três horas no aeroporto da Portela. Naturalmente, gastei parte do meu tempo a deambular pelo freeshop e foi no regresso à porta de embarque do voo para o Porto que passei pela Pia. Já a conversa ia adiantada quando nos apercebemos que tínhamos vindo no mesmo avião de Berlim para Lisboa e que ambas esperávamos pelo mesmo voo para o Porto. A Pia, que é alemã, ia ao encontro no namorado que estava em Vigo havia umas semanas. Ele estaria à sua espera no aeroporto Sá Carneiro e depois seguiriam para a Galiza para três meses de férias. Enquanto esperava pela hora de embarque, lia "Die Bucht des Grünen Mondes", um livro romântico, positivo e com boa energia, bem ao estilo dos romances que a Pia prefere. 

domingo, 24 de junho de 2012

Fräulein Bernd, em Kreuzberg (Berlin)


Embora tenha insistido mais de uma vez para que me dissessem os seus nomes, este casal apresentou-se sempre como Fräulein Bernd, uma dupla que se dedica à música e a variadas performances artísticas. Podem saber mais sobre o que fazem aqui. Quando os fotografei, no entanto, os livros que liam nada tinham a ver com a atividade artística que desenvolvem, e sim com as profissões que exercem: ele lia "Verbotene Spiele", de Philip Cohen, sobre educação anti-racista; ela lia "Nerv Nicht!", de Gitte Härter, sobre psicologia da comunicação. 

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Oliver, no topo do Viktoriapark (Berlim)


O bairro de Kreuzberg, em Berlim, deve o seu nome a uma enorme flecha gótica ornamentada com uma cruz de ferro, um monumento nacional às guerras de libertação contra Napoleão. Esta obra encontra-se no Viktoriapark, no topo da colina mais alta da cidade, de onde se tem uma belíssima vista sobre a mesma. Esse foi o local escolhido pelo Oliver para avançar na leitura de "Schriftsteller in Waffen", um livro acerca de autores que viveram a Guerra Civil Espanhola e escreveram sobre essa experiência. O Oliver encontrou o livro por acaso e decidiu comprá-lo porque tinha acabado de ler alguns romances que abordavam aquela época da história espanhola, nomeadamente livros de Ernest Hemingway.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Sebastian, em Kreuzberg (Berlim)


De todas as zonas de Berlim que visitei, a de que mais gostei foi aquela onde tive a sorte de ficar alojada: Kreuzberg. Ali — onde se juntaram, depois da queda do muro, uma enorme comunidade turca, jovens alemães vindos de todas as partes do país e jovens estrangeiros vindos de todas as partes do mundo — reina um ambiente de liberdade que é, no meu entender, a grande mais valia de Berlim. Não a achei particularmente bonita, fotogénica ou limpa, mas fui conquistada pela sua organização, pragmatismo, oferta cultural e descontração. Berlim é, como gosto de dizer, uma cidade sem merdas. E Kreuzberg, onde tudo é possível, foi o bairro que mais me marcou devido à sua energia cool e alternativa.

Foi aí, na Mehringdamm, que me cruzei com o Sebastian que estava quase a acabar de ler um enorme volume com todos os contos dos irmãos Arkady e Boris Strugatsky. Estes dois autores russos, de quem eu nunca ouvira falar, são particularmente conhecidos pelos seus textos de ficção científica e considerados dos autores mais importante do período soviético. Curiosamente, o Sebastian salientou que um dos aspetos mais interessantes destas histórias de ficção científica é terem por base uma crítica aos regimes totalitaristas. "É muito interessante" — disse-me ele com entusiasmo — "tens de ler!". 

domingo, 17 de junho de 2012

Franka, na Alexanderplatz (Berlim)


A Franka foi a primeira pessoa que fotografei em Berlim, ali na Alexanderplatz, e foi com ela que inaugurei uma semana auspiciosa no que diz respeito ao Acordo Fotográfico. A verdade é que ao longo daqueles dias não houve um único leitor que me tivesse recusado uma fotografia. Na tarde em que a conheci, a Franka lia "Blind Date Mit Einem Vampir", uma história de vampiros, um género literário de que gosta muito. 

quinta-feira, 14 de junho de 2012

A Mónica e um trem, no aeroporto


Foi no aeroporto Sá Carneiro (no Porto), que encontrei a Mónica (que é do Rio de Janeiro) a ler o romance "Um Trem Noturno Para Lisboa" enquanto esperava pelo avião que a levaria para França. O livro, que lhe foi oferecido, conta a história de um professor de línguas clássicas que muda drasticamente de estilo de vida. Quando questionada sobre os seus hábitos de leitura, a Mónica respondeu que lê bastante e que aprecia particularmente romances históricos. O último romance que tinha lido foi "A Queda dos Gigantes", do qual gostou muito. 

terça-feira, 12 de junho de 2012

Miki & Dostoiévski (em Berlim)


Faltavam apenas 15 minutos para o fecho do Jüdischer Friedhof (um antigo cemitério judeu em Berlim) e eu seguia de passo acelerado pela grande avenida Schönhauser Alle, embora soubesse que muito provavelmente iria bater com o nariz na porta. Mas lembro-me de ter pensado que não podia desistir, até porque senti que algo me esperava naquele caminho. Foi a meio da avenida, num inesperado relvado delimitado por uma cerca baixa, que vi a Miki a ler encostada à única árvore que existia naquele pedaço de terreno algo abandonado. Pulei a cerca, aproximei-me e a sua reação ao meu pedido não poderia ter sido melhor.

A Miki, que é de Brooklyn, Nova Iorque, tinha acabado de chegar a Berlim para passar uma semana com uma amiga, com quem tinha ficado de se encontrar num café, no outro lado da avenida. Mas tinha ainda pela frente cerca de três horas de espera e achou que seria mais agradável passar esse tempo a ler ao ar livre. O romance que tinha consigo era uma edição inglesa de "Crime e Castigo", de Fiódor Dostoiévski, um livro que a Miki queria ter lido há algum tempo, antes mesmo de ter visitado S. Petersburgo. Mas quis o destino que só tivesse conseguido comprar o romance precisamente naquela cidade. 

Depois deste encontro segui caminho em direção ao cemitério, mas quando lá cheguei o portão só se abriu para deixar sair os últimos visitantes. Voltei para trás sorridente porque a subida da avenida não tinha sido em vão. Conheci a Miki, fiz uma boa foto e a visita ao cemitério, na manhã seguinte, permitiu-me desfrutar de uma luz que na tarde anterior teria sido impossível. Já estava escrito. 

domingo, 10 de junho de 2012

O Nuno, a Rita e dois clássicos


Sentei-me na escadaria em frente à Casa da Serralves para aproveitar o sol, a vista sobre o jardim e ler um pouco mais. Foi daí que os vi, lá em baixo, estendidos na relva. A Rita dormitava e o Nuno lia naquela posição peculiar, que o obrigava a uma ginástica complicada de cada vez que queria voltar uma página. O livro que mantinha erguido era "Jane Eyre", de Charlotte Brontë, de que estava a gostar muito e que considerou particularmente interessante por lhe permitir acompanhar a história pela perseptiva de uma mulher, numa época tão distinta da de hoje no que diz respeito à condição feminina. O outro volume pousado sobre a relva era "Anna Karénina", de Lev Tolstoi, romance que a Rita também estava a apreciar, sobretudo porque sempre a fascinou aquele período áureo e opulento da história russa, cheio de convencionalismos sociais e regras rígidas no que tocava ao comportamento das mulheres. Estes dois livros foram escolhidos pelo Nuno e pela Rita numa "caça aos grandes clássicos" (palavras suas) que fizeram na FNAC com o objetivo de trocá-los entre si depois de lidos. 

quinta-feira, 7 de junho de 2012

O Autor & O Livro - III


Na passada sexta-feira tive o prazer de assistir, em Matosinhos, ao lançamento de "Somos Todos Um Bocado Ciganos", o novo romance de Manuel Jorge Marmelo. A apresentação esteve a cargo de Germano da Silva, conhecido jornalista portuense, que ao ler o livro regressou aos tempos de infância, nos longínquos anos da Segunda Guerra Mundial, quando ainda se rendia ao fascínio do circo e convivia com os ciganos que acampavam temporariamente num terreno da sua avó. "Cheio de ensinamentos" e "escrito por um autor maduro" foram alguns dos elogios que Germano da Silva teceu ao romance, cuja leitura recomendou com entusiasmo. 

Manuel Jorge Marmelo, por seu turno, contou-nos que quando partiu para este livro não tinha ideia nenhuma. Tinha acabado de escrever "Uma Mentira Mil Vezes Repetida" e no compasso de espera, enquanto percebia se aquele texto merecia ser publicado, viu na televisão uma reportagem sobre uns ursos de circo abandonados. Esse foi o momento em que sentiu que queria escrever sobre um circo, um circo decadente, e explorar a contradição que sempre achou haver entre o brilho do espetáculo e a realidade por detrás dos panos. Os ciganos, enquanto personagens, surgiram mais tarde, depois de ter assistido a um documentário sobre aquela comunidade que muito o impressionou. Foi aí que o seu circo decadente se transformou não só num circo de ciganos, mas também numa micro-sociedade onde se vivem exatamente as mesmas tensões, conflitos e paixões que vive toda a humanidade.

Por fim, sublinhou que este "Somos Todos Um Bocado Ciganos" é igualmente uma homenagem a tudo aquilo que os portugueses são — um bocado ciganos, um bocado judeus, romanos ou visigodos — e a todas as culturas que passaram pelo nosso território. Diz Manuel Jorge Marmelo que a consciência da nossa mistura pode ajudar a que nos demos todos melhor e que este romance é o seu pequeno contributo nesse sentido. 

terça-feira, 5 de junho de 2012

Sebastian, na Alexanderplatz (Berlim)


Quando passei por ele na Alexanderplatz e lhe pedi que me deixasse fotografá-lo, o Sebastian estava a ler um livro universitário do irmão sobre linguística. E quando me sentei para conversarmos um pouco, ainda tirou da mochila o romance "Margarita e o Mestre", de Mikhail Bulgakov. Apaixonado pela literatura russa e por alguns dos seus maiores autores, nomeadamente Gogol, Dostoievski e Nabokov, foi o avô do Sebastian quem lhe disse que não podia deixar de ler este livro.

domingo, 3 de junho de 2012

Leitura agridoce


Numa tarde de Porto de Encontro, vi a Diva entrar na cafetaria do Palácio de Cristal com um livro nos braços. Terminei o meu lanche e fui ter com ela. Quando me aproximei, já estava concentrada na leitura. O romance que a prendia era "A Mancha Humana", de Philip Roth, um livro que um amigo lhe emprestara no seguimento de uma conversa em que citara este autor. A Diva já tinha lido "Teatro de Sabbath" havia cerca de 10 anos, mas nessa altura a prosa de Roth não a marcou particularmente. Desta vez, no entanto, a leitura de "A Mancha Humana" revelou-se uma experiência diferente e embora ainda não tivesse sequer chegado a meio do livro, já podia afirmar convictamente que estava a gostar muito. Considerou a escrita de Roth crua, seca e densa sem ser agressiva, a prosa fantástica sem ser bonita, os personagens muitos bem construídos e a realidade relatada sem floreados, porque a realidade é mesmo assim. Estava a gostar muito, sem dúvida, e no entanto a Diva já sabia que depois de Roth iria precisar de ler algo que a reconciliasse com a vida.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Ler para começar bem o dia


Quem trabalha na Rua da Restauração, no Porto, e não pode dispensar o uso do carro sabe o quanto são disputados os poucos lugares de estacionamento que lá existem. Por isso, são muitas as pessoas (eu incluída) que se esforçam por chegar muito antes da hora de entrada no trabalho para poder garantir um lugar. Alguns optam por se sentar de imediato à secretária, outros aproveitam os 40 ou 30 minutos que ainda têm livres até às 9h para pôr a leitura em dia. Faço-o muitas vezes. 

Uma destas manhãs, ao subir a rua, passei pelo carro da Rita e não pude deixar de notar que estava a ler. A fotografia era inevitável! O livro em causa era "A Independência de Uma Mulher", da autora australiana Colleen McCullough, que a Rita fez questão de sublinhar ter comprado na WOOK. Chamou-lhe a atenção a frase que está destacada na capa — "Retoma um dos grandes clássicos de sempre, Orgulho e Preconceito de Jane Austen." — e a história, um misto de romance e suspense com raptos e homícidios pelo  meio, não a desiludiu. Tinha começado a ler o livro havia 4 dias e já estava a acabá-lo.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Paixão por Murakami


O David estuda Biotecnologia na Universidade de Aveiro e aproveita as constantes viagens de comboio para ler. Na tarde em que o conheci, no Moustache, estava a ler "A Rapariga Que Inventou Um Sonho", de Haruki Murakami, livro que lhe foi recomendado pela namorada. O David, que nunca tinha lido nada deste autor, disse-me ter ficado apaixonado pela sua escrita. Tão apaixonado que no momento em que acabou o livro voltou de imediato ao início para relê-lo. Assim mesmo, sem qualquer intervalo. Depois desta segunda leitura tinha à sua espera "Kafka à Beira Mar", um livro dos pais que vinha mesmo a jeito para alimentar esta sua paixão arrebatadora.

domingo, 27 de maio de 2012

Maria das Dores & Etty Hillesum


Contou-me a Maria das Dores que devora livros desde criança. Quando andava na escola, por exemplo, fazia um vistaço porque era frequente antecipar-se às leituras que os professores recomendavam. Na tarde em que a encontrei, esta ex-professora de Português e Inglês estava a ler "Diário 1941-1943", de Etty Hillesum, uma jovem intelectual judia que morreu em Auschwitz em 1943. Curiosamente, o livro tinha sido ganho no sorteio realizado entre os elementos do grupo da igreja a que a Maria das Dores pertence, por ocasião de uma ida a Fátima. Embora ainda estivesse a ler as primeiras páginas, afirmou estar a gostar e sublinhou que até já se identificava com a autora, que afirmava estar sempre nos braços de Deus. "Eu também estou sempre nos braços de Deus", disse-me a Maria das Dores. Sorri ao antecipar o prazer que me daria escrever este post imbuído de espírito ecuménico. 

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Ana, a super-heroína


"Se eu não estivesse a ler este livro diria que não. Mas como estou a ler este livro digo que sim." Foi desta forma que a Ana me respondeu quando lhe pedi que me deixasse fotografá-la. E depois explicou-me que este "sim" se devia ao facto de acreditar que as pessoas entram nas vidas umas das outras com um propósito e que as coincidências não existem. Entendi este "sim" como uma forma de abrir os braços à minha presença na sua vida e de estar atenta aos "ensinamentos" resultantes deste nosso encontro. E também eu lhe abri os braços e aceitei ouvi-la e aprender com o que tinha para me contar. 

Entrei no café Lavazza, que fica em frente ao Teatro Sá da Bandeira, para comer um gelado e foi aí que a encontrei a ler "As Sete Leis Espirituais dos Super-Heróis", um livro que o famoso guru Deepak Chopra escreveu com a colaboração do seu filho Gotham. Habituada a refletir sobre o que lhe vai acontecendo na vida, a Ana precisou de regressar a este autor (de quem já leu outros livros) para, a propósito de episódios marcantes que experienciou, se debruçar de novo sobre a questão do bem e do mal. E também porque sente que, com o avançar da idade, está cada vez ao mais ao serviço do outro e que, desse ponto de vista, tem muito de super-heroína. 

No que me diz respeito, esta é a maior virtude do Acordo Fotográfico: a descoberta dos outros e dos seus mundos a propósito dos livros. Quando comecei este projeto, nunca pensei que a sua dimensão humana assumisse estas proporções. Há fotos, sim; há livros, claro; mas há acima de tudo pessoas, gente generosa que com poucos minutos de conversa enriquecem o meu mundo muito para além daquilo que alguma vez poderia ter imaginado. Acredito que é isto que se leva desta vida. Tudo coisas sem preço.

terça-feira, 22 de maio de 2012

O Autor & O Livro - II



No último domingo assisti pela primeira vez a um "Porto de Encontro", um ciclo de conversas com escritores que acontecem mensalmente no auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett.

Esta sétima edição do evento teve como convidado Francisco José Viegas, atual Secretário de Estado da Cultura, que assume ser, acima de tudo, escritor. Afirmou, aliás, que apesar da manifesta falta de tempo, recorre à escrita por uma questão de sanidade mental e que, no que lhe diz respeito, a literatura nunca para porque "uma pessoa não está escritor. É." E, para surpresa de muitos, anunciou que em breve será editado um novo romance seu chamado "O Colecionador de Erva", um policial que terá como protagonista o carismático Inspetor Jaime Ramos.

Foi no final da conversa, à saída do auditório, que lhe pedi uma fotografia  para a rubrica O Autor & O Livro do Acordo Fotográfico, pedido a que respondeu positivamente com a simpatia que lhe é conhecida. Aqui fica o retrato de Francisco José Viegas (com o seu último romance publicado), o escritor que está Secretário de Estado da Cultura e para quem "às vezes, a vida que vem nos livros é que é a verdadeira."

domingo, 20 de maio de 2012

Gustavo & João Guimarães Rosa



Numa tarde de flea market nos jardins do Palácio de Cristal, encontrei o Gustavo a reler as "Primeiras Estorias" de João Guimarães Rosa, um dos maiores escritores brasileiros de sempre. O Gustavo, também ele brasileiro, está no Porto para estudar Literatura e é nesse âmbito que regressa, em particular, à leitura do conto "Nenhum, Nenhuma", sobre o qual pretende fazer um trabalho. Nesta curta narrativa, que ele considera uma das mais complexas do livro, é-nos contada, através de uma bruma, a história de um homem de idade que tenta reformular uma recordação de infância. Este homem não sabe por que razão precisa de recordar esse episódio longínquo, mas sabe que só encontrará paz quando fôr capaz de fazê-lo... Na opinião do Gustavo, o conto disserta sobre a sabedoria, as relações entre pessoas e a proximidade da morte.

Ainda que a sua atenção se foque especialmente no texto "Nenhum, Nenhuma", o Gustavo recomenda com grande entusiasmo a leitura de todo o livro. Os contos, curtos e profundos, podem não ser fáceis de ler, mas são, no seu entender, "uma pérola, uma obra-prima fantástica".

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Liliana no Moustache


Se há sítio que gosto de frequentar na baixa do Porto é o Moustache. Este espaço, que abriu há uns meses na Praça Carlos Alberto, foi com toda a certeza minuciosamente concebido. Só isso explica que, ali, tudo resulte tão bem. A decoração é simples e ao mesmo tempo sofisticada, a música é sempre bem escolhida, o atendimento de extrema simpatia, os capuccinos e os macarrons deliciosos e as poltronas do andar de cima uma perdição de tão confortáveis. Já me aconteceu sentar-me para um café após o almoço e esquecer-me completamente que tinha de voltar ao trabalho... Mas há mais um detalhe que, para o Acordo Fotográfico, é a cereja no topo do bolo: no Moustache há prateleiras cheias de livros ao alcance de todos os clientes!

Nesta última vez que lá estive conheci a Liliana, que estava a almoçar. Ao sentar-se para comer chamou-lhe a atenção a capa do livro "Cartilha dos Amores Secretos", um volume que reúne contos de autores portugueses sobre o amor e que conta, também, com belíssimas fotografias a preto e branco. Decidiu, por isso, folheá-lo e acabou por ler na íntegra o conto "O Embarque Para Citera", de Urbano Tavares Rodrigues. 

terça-feira, 15 de maio de 2012

Falar de Agustina junto ao Douro


A serenidade da Alexandra e do Jorge contrastava com o bulício dos turistas e dos vendedores ambulantes que agitavam a Ribeira do Porto. Sentados num banco de frente para o Douro, pareceram-me alheios à confusão, como se estivessem a sós com o sol, o rio e o livro que o Jorge tinha pousado no colo. Quando me disse que se tratava de "Antes do Degelo", um romance de Agustina Bessa-Luís, senti que tudo se conjugava de forma harmoniosa. Afinal, que melhor local haveria para se falar de Agustina senão precisamente aquele, junto ao rio que marcou profundamente a sua vida e a sua obra?

Para o Jorge, Agustina Bessa-Luís é provavelmente a melhor escritora portuguesa viva, e uma das melhores escritoras portuguesas do século XX. No seu entender, não existe nenhum outro autor com a sua grandeza na prosa, que recorre a expressões de um certo português já desaparecido. Elogia-lhe a frontalidade, a atitude politicamente incorreta, a avaliação sarcástica e impiedosa que faz das pessoas, independentemente do estrato social a que pertencem. E sublinha, precisamente, essa forma muito democrática de olhar o mundo. 

Admiti que de Agustina li apenas um livro, que me foi oferecido por uma amiga nos profundos anos noventa. Julgo que não tive, na época, arcaboiço para digerir as "Memórias Laurentinas", que me deixaram um sabor amargo. Retive, sobretudo, a acidez para com as mulheres e lembro-me de ter comentado com alguém que me incomodava aquela escrita masculina... Conversar com a Alexandra e com o Jorge fez-me reconsiderar tudo isto e concluir que terei de regressar à prosa de Agustina Bessa-Luís. Espero que o que vivi e aprendi entretanto me permita entender que, tal como o Jorge afirmou, a Agustina "é uma mulher que está para além do género".