terça-feira, 17 de julho de 2012

Escândalo na Praia dos Careanos


Em Portimão, a minha preferência vai para as praias com grande areais. A Praia da Rocha e a Praia de Alvor (na zona que se estende à direita da Restinga) são as que frequento com os meus pais e o meu irmão desde sempre. No pico do verão são aquelas que nos vão garantindo alguns metros de desafogo e relativa privacidade quando, noutras praias bem mais pequenas, o pessoal insiste em estender as toalhas a centímetros de perfeitos desconhecidos (e parece apreciar essa proximidade, coisa que abomino e me tira do sério...). Infelizmente, este ano, para além da água fria como nunca me lembro, o litoral Algarvio tem sido fustigado por umas rajadas de vento fortíssimas (vento noroeste, dizem os entendidos), daquelas que arrancam guarda-sóis ao areal por muito empenho que se tenha posto em enterrá-los bem fundo. Por isso, fui obrigada a procurar praias mais abrigadas, que me permitissem gozar o sol sem comer areia ou trazê-la às toneladas no cabelo ou por entre as páginas dos livros.

À Praia dos Careanos, entre o Vau e a Rocha, acede-se por uma grande escadaria que acompanha a arriba em perigo de derrocada. Apesar de ser uma praia bem pequena, acho que as escadas e a dificuldade em arranjar lugar para estacionar dissuadem muita gente de lá ir e, talvez por isso, nunca está atulhada de banhistas. Em dias de muito vento é uma ótima alternativa. Foi aí, na simpática praia dos Careanos, que encontrei a Susana a ler o romance "Escândalo", um livro emprestado por uma amiga com quem costuma trocar livros e impressões sobre o que vão lendo. A Susana, que é de Pombal e estava de férias em Portimão, disse-me que gosta muito de ler, mas que ultimamente tinha sido forçada a ler livros técnicos. As férias eram, por isso, uma ótima oportunidade para retomar a ficção. E o romance "Escândalo" não estava a desiludi-la. A amiga tinha gostado muito e a Susana garantiu-me que não largaria o livro enquanto não o acabasse, tal era o seu entusiasmo. 

domingo, 15 de julho de 2012

O Acordo Fotográfico foi à praia


Há muitos anos aprendi o que significava a empatia e desde então procuro, com maior ou com menor sucesso, colocar-me no lugar dos outros nas mais variadas ocasiões. Por isso, à medida que as férias de verão se aproximavam, assim como os longos dias passados na praia, dei por mim a pensar como reagiria se uma estranha me aparecesse à frente, de câmara em punho, para me propôr uma fotografia, estando eu em biquini e tendo como único adereço um livro (e talvez uns óculos de sol e um chapéu de palha).

Tinha a certeza que ia encontrar muitos leitores na praia. As férias são sempre aproveitadas para pôr as leituras em dia. Por isso, levei a câmara comigo desde o primeiro momento. Mas queria tanto que isto corresse bem, que decidi não arriscar e foi de forma calculada que não abordei o primeiro leitor que vi. Nem o segundo, nem o terceiro... Observei ao longe, escrutinei cada rosto, cada capa de livro e deixei que a intuição me guiasse. Tomei todo o meu tempo em prol de um "sim" que queria que fosse o prenúncio de uma temporada profícua para o Acordo Fotográfico nas praias do Algarve.

Foi no extenso areal da Praia da Rocha que decidi avançar. Na sombrinha imediatamente atrás da minha estava a Andreia, uma alentejana de Beja a gozar férias em Portimão. Enchi-me de coragem (ou de uma "grande lata", para utilizar as palavras da minha mãe e do meu irmão), aproximei-me e, com uma boa dose de cortesia, expliquei ao que vinha. A Andreia sorriu e aceitou. Tinha começado a ler "Um Longo Regresso a Casa", um romance que disse ter escolhido ao acaso, sem sequer espreitar a sinopse para que a história a surpreendesse completamente.

Depois da Andreia, vieram mais leitores, mais livros, mais fotos tiradas noutras praias. Aconteceu exatamente como eu queria: comecei com o pé direito e a partir daí foi tudo mais fácil!

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Renato & Raymond Roussel


São muitas as razões que me levam a visitar Serralves com frequência: uma nova exposição, uma festa, um concerto ou a simples vontade de me sentar num recanto do parque para ler um pouco. Mas de todas, a que me dá mais prazer é levar alguém — familiares, amigos, conhecidos — à Fundação pela primeira vez. Adoro acompanhá-los na descoberta do museu do Siza, da casa Art Déco, e do enorme parque, e aproveito sempre para partilhar o que aprendi acerca de Serralves nos poucos meses em que lá trabalhei, há doze anos. Esta última ida aconteceu no fim de semana do S. João, quando uma boa amiga veio do Algarve para me visitar, fazer uma ronda rápida pelos pontos obrigatórios da Invicta e cair na folia junina de martelinhos em punho. 

Na tarde de sábado, andávamos nós a passear no jardim, deparei-me com o Renato a ler na esplanada da Casa de Chá. Este Professor na Universidade Federal Fulminense e Coordenador Académico no OPLOP (Observatório dos Países de Língua Oficial Portuguesa), veio a Portugal para participar num colóquio na Universidade Nova de Lisboa e tirou, depois, uns dias de folga para ir até ao Porto, cidade que visita sempre porque é descendente de portuenses. Frequentador assíduo da Fundação de Serralves, o Renato tinha acabado de visitar a exposição "Locus Solus. Impressões de Raymond Roussel", a primeira grande mostra sobre o poeta, dramaturgo e romancista francês que, entre o final do século XIX e o início do século XX, influenciou movimentos artísticos de vanguarda. Daí a leitura de "Impressões de África", o romance de Roussel que tinha entre mãos quando nos conhecemos. 

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Ângela & John dos Passos


Foi nos jardins do Palácio de Cristal que abordei a Ângela para lhe propor uma fotografia. Esta jovem advogada vive em Lisboa, foi ao Porto em trabalho e estava a aproveitar uma pausa para avançar na leitura de "Manhattan Transfer", uma obra de John dos Passos. O livro foi-lhe oferecido por uns amigos depois de ter regressado de Nova Iorque, onde fez um Mestrado em International Business and Trade. A Ângela ainda tinha lido muito pouco e estava expectante quanto ao conteúdo do romance, mas já podia afirmar que a escrita lhe parecia "atrapalhada e alucinante".

domingo, 8 de julho de 2012

Morrer por uma história


De acordo com o CPJ (Committee to Protect Journalists) foram mortos, nos últimos vinte anos, 920 jornalistas. Só em 2012 já morreram 25 profissionais no exercício das suas funções, a esmagadora maioria na Síria. Jornalista de profissão, este é um tema a que o Pedro é particularmente sensível e foi com emoção que me falou do assunto quando o encontrei no Moustache, à hora do almoço.

Contou-me o Pedro que tinha acabado de ler recentemente dois livros escritos por Anna Politkovskaya, a jornalista russa abatida a tiro em Moscovo, em 2006.  "Chechénia - A Vergonha Russa" e "A Rússia de Putin" foram obras que o marcaram bastante pelo exemplo de coragem e persistência na busca da verdade. Por isso, quando viu o livro "Assassinaram um Jornalista" à venda na FNAC não hesitou em comprá-lo, até porque uma das biografadas por Terry Gold é, precisamente, Anna Politkovskaya. 

Na sua opinião a grande virtude de "Assassinaram um Jornalistaé "dar vida às caras dos jornalistas" cujas mortes vão sendo contabilizadas para efeitos estatísticos, sem que ninguém se preocupe em saber quem foram verdadeiramente. Terry Gold investigou a fundo a vida de seis profissionais, procurando perceber por que motivo nunca desistiram das suas investigações jornalísticas, colocando-as à frente das próprias vidas. Para o Pedro, esta é a melhor forma de perpétuar grandes exemplos de dedicação ao trabalho e fazer com que os seus sacrifícios não tenham sido em vão. 

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Cláudia & Os Anjos Caídos


Foi numa paragem de autocarro na Av. dos Aliados, no coração do Porto, que vi a Cláudia agarrada a um livro. Esta é uma estreia no Acordo Fotográfico. Embora me tivesse mantido atenta, ainda não tinha tido a oportunidade de fotografar alguém a ler numa paragem dos STCP. Disse-me a Cláudia que é uma leitora habitual e que não só aproveita as deslocações nos transportes para ler, como também as horas mortas no local de trabalho. Naquele final de tarde, o livro que prendia a sua atenção era "Crescendo", de Becca Fitzpatrick, o segundo volume de uma trilogia sobre as aventuras amorosas entre uma jovem humana e um anjo caído. A Cláudia tinha lido "Hush, hush", o primeiro volume, e aproveitou uma promoção do Círculo de Leitores para continuar a ler a saga. Já lidos  estavam outros títulos de Literatura Fantástica, um género que aprecia muito, nomeadamente todos os volumes da saga Twilight, de Stephenie Meyer. 

terça-feira, 3 de julho de 2012

Maria Rosa & Padre Pio


Este ano não tive oportunidade de ir à Feira do Livro de Lisboa e quase falhava a do Porto. Entre férias, trabalho e outros compromissos, a única oportunidade que tive de lá ir foi no final da tarde de 13 de junho, dia de Sto. António e de Portugal/Dinamarca no Euro 2012. Quando cheguei à Av. dos Aliados, eram escassos os clientes em redor dos pavilhões. Ali ao lado, na praça D. João I, milhares de adeptos torciam por Portugal em frente a um ecrã gigante e foi graças aos seus festejos que fui seguindo o ritmo dos nossos golos. Dadas as circunstâncias achei que dificilmente encontraria leitores, mas o passeio pela feira rapidamente me provou o contrário. 

Foi dentro do pavilhão das Edições Paulinas que vi a Maria Rosa a ler, um hábito que alimenta desde muito pequena. Em Mondim de Basto, onde passou a infância, lia tudo o que lhe ia parar à mãos, inclusivamente os livros dos irmãos mais velhos e, à noite, era a mãe que tinha de lhe apagar o candeeiro a petróleo para que largasse os livros e adormecesse. Na posse destes dados, que a Maria Rosa partilhou de forma generosa, pareceu-me natural encontrá-la ali, no meio de livros, a zelar por eles e a vendê-los. Mais natural, ainda, foi fotografá-la no exercício dessa paixão que é ler, sobretudo quando a obra em questão era "Padre Pio — Um Santo Entre Nós", a biografia de um homem que a Maria Rosa considera ter sido "extraordinário desde pequenino" e que viveu, também com paixão, a sua fé. 

domingo, 1 de julho de 2012

Nuno & Oswald, o agente


No Jardim da Cordoaria, fonte riquíssima de conteúdos para o Acordo Fotográfico, vi o Nuno a ler "Desmantelar a América", um livro escrito por Oswald Le Winter que foi, em tempos, agente da CIA. À semelhança de outros leitores que já aqui retratei (parece que o fenómeno é mais comum do que eu julgava), não era a primeira vez que o Nuno lia esta obra. Explicou-me que, passados dez anos, procurava ler o texto com outros olhos e, quem sabe, compreender alguns dos acontecimentos históricos recentes como, por exemplo, a crise económico-financeira e a revolta popular na Síria. Mas era, também, a oportunidade de reinterpretar o 11 de setembro de 2001, o envolvimento da CIA no 25 de Abril e a suposta relação do caso Irão-Contras com a morte de Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa. 

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Juan Miguel, Anne Frank e uma aposta


Faltavam cerca de duas horas para a meia-final do Euro 2012 entre Portugal e Espanha, quando encontrei o Juan Miguel, sentado à entrada da Reitoria da Universidade do Porto, vestido com a camisola oficial das quinas e a ler uma edição mexicana do "Diário de Anne Frank". O Juan Miguel é de Sevilha, vive em Málaga, veio para Portugal fazer o Erasmus, acabou por ficar mais tempo por causa de dois estágios que teve a oportunidade de fazer, gozou uma temporada de férias entre nós e preparava-se para regressar a casa no dia seguinte a este nosso encontro. 

No que diz respeito ao livro, considerou-o uma daquelas obras obrigatórias que mais tarde ou mais cedo todos leem. A mãe já lho tinha recomendado muitas vezes e foi no seguimento de uma ida a Amesterdão, e de uma visita à casa onde Anne Frank e a família viveram escondidos durante a ocupação nazi, que decidiu lê-lo. Para além do mais, uma vez que já tinha lido alguma literatura sobre o nazismo, achou que esta seria uma forma de conhecer o outro lado da história.

E quanto à camisola que tinha vestida? Bem... fazia parte de uma aposta. O Juan Miguel ofereceu uma camisola da seleção espanhola a um amigo português, que retribuiu o gesto oferecendo-lhe uma camisola da seleção portuguesa. Ambos se comprometeram a usar as camisolas durante todo o dia da meia-final. No fim do jogo e pela noite dentro, aquele cuja seleção perdesse teria de andar em tronco nu pela cidade. Portanto, ontem à noite andou um português descamisado a passear-se pela baixa do Porto...

terça-feira, 26 de junho de 2012

Berlim/Lisboa/Porto/Vigo - A Pia em trânsito


No regresso de Berlim, fiz uma escala de três horas no aeroporto da Portela. Naturalmente, gastei parte do meu tempo a deambular pelo freeshop e foi no regresso à porta de embarque do voo para o Porto que passei pela Pia. Já a conversa ia adiantada quando nos apercebemos que tínhamos vindo no mesmo avião de Berlim para Lisboa e que ambas esperávamos pelo mesmo voo para o Porto. A Pia, que é alemã, ia ao encontro no namorado que estava em Vigo havia umas semanas. Ele estaria à sua espera no aeroporto Sá Carneiro e depois seguiriam para a Galiza para três meses de férias. Enquanto esperava pela hora de embarque, lia "Die Bucht des Grünen Mondes", um livro romântico, positivo e com boa energia, bem ao estilo dos romances que a Pia prefere. 

domingo, 24 de junho de 2012

Fräulein Bernd, em Kreuzberg (Berlin)


Embora tenha insistido mais de uma vez para que me dissessem os seus nomes, este casal apresentou-se sempre como Fräulein Bernd, uma dupla que se dedica à música e a variadas performances artísticas. Podem saber mais sobre o que fazem aqui. Quando os fotografei, no entanto, os livros que liam nada tinham a ver com a atividade artística que desenvolvem, e sim com as profissões que exercem: ele lia "Verbotene Spiele", de Philip Cohen, sobre educação anti-racista; ela lia "Nerv Nicht!", de Gitte Härter, sobre psicologia da comunicação. 

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Oliver, no topo do Viktoriapark (Berlim)


O bairro de Kreuzberg, em Berlim, deve o seu nome a uma enorme flecha gótica ornamentada com uma cruz de ferro, um monumento nacional às guerras de libertação contra Napoleão. Esta obra encontra-se no Viktoriapark, no topo da colina mais alta da cidade, de onde se tem uma belíssima vista sobre a mesma. Esse foi o local escolhido pelo Oliver para avançar na leitura de "Schriftsteller in Waffen", um livro acerca de autores que viveram a Guerra Civil Espanhola e escreveram sobre essa experiência. O Oliver encontrou o livro por acaso e decidiu comprá-lo porque tinha acabado de ler alguns romances que abordavam aquela época da história espanhola, nomeadamente livros de Ernest Hemingway.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Sebastian, em Kreuzberg (Berlim)


De todas as zonas de Berlim que visitei, a de que mais gostei foi aquela onde tive a sorte de ficar alojada: Kreuzberg. Ali — onde se juntaram, depois da queda do muro, uma enorme comunidade turca, jovens alemães vindos de todas as partes do país e jovens estrangeiros vindos de todas as partes do mundo — reina um ambiente de liberdade que é, no meu entender, a grande mais valia de Berlim. Não a achei particularmente bonita, fotogénica ou limpa, mas fui conquistada pela sua organização, pragmatismo, oferta cultural e descontração. Berlim é, como gosto de dizer, uma cidade sem merdas. E Kreuzberg, onde tudo é possível, foi o bairro que mais me marcou devido à sua energia cool e alternativa.

Foi aí, na Mehringdamm, que me cruzei com o Sebastian que estava quase a acabar de ler um enorme volume com todos os contos dos irmãos Arkady e Boris Strugatsky. Estes dois autores russos, de quem eu nunca ouvira falar, são particularmente conhecidos pelos seus textos de ficção científica e considerados dos autores mais importante do período soviético. Curiosamente, o Sebastian salientou que um dos aspetos mais interessantes destas histórias de ficção científica é terem por base uma crítica aos regimes totalitaristas. "É muito interessante" — disse-me ele com entusiasmo — "tens de ler!". 

domingo, 17 de junho de 2012

Franka, na Alexanderplatz (Berlim)


A Franka foi a primeira pessoa que fotografei em Berlim, ali na Alexanderplatz, e foi com ela que inaugurei uma semana auspiciosa no que diz respeito ao Acordo Fotográfico. A verdade é que ao longo daqueles dias não houve um único leitor que me tivesse recusado uma fotografia. Na tarde em que a conheci, a Franka lia "Blind Date Mit Einem Vampir", uma história de vampiros, um género literário de que gosta muito. 

quinta-feira, 14 de junho de 2012

A Mónica e um trem, no aeroporto


Foi no aeroporto Sá Carneiro (no Porto), que encontrei a Mónica (que é do Rio de Janeiro) a ler o romance "Um Trem Noturno Para Lisboa" enquanto esperava pelo avião que a levaria para França. O livro, que lhe foi oferecido, conta a história de um professor de línguas clássicas que muda drasticamente de estilo de vida. Quando questionada sobre os seus hábitos de leitura, a Mónica respondeu que lê bastante e que aprecia particularmente romances históricos. O último romance que tinha lido foi "A Queda dos Gigantes", do qual gostou muito. 

terça-feira, 12 de junho de 2012

Miki & Dostoiévski (em Berlim)


Faltavam apenas 15 minutos para o fecho do Jüdischer Friedhof (um antigo cemitério judeu em Berlim) e eu seguia de passo acelerado pela grande avenida Schönhauser Alle, embora soubesse que muito provavelmente iria bater com o nariz na porta. Mas lembro-me de ter pensado que não podia desistir, até porque senti que algo me esperava naquele caminho. Foi a meio da avenida, num inesperado relvado delimitado por uma cerca baixa, que vi a Miki a ler encostada à única árvore que existia naquele pedaço de terreno algo abandonado. Pulei a cerca, aproximei-me e a sua reação ao meu pedido não poderia ter sido melhor.

A Miki, que é de Brooklyn, Nova Iorque, tinha acabado de chegar a Berlim para passar uma semana com uma amiga, com quem tinha ficado de se encontrar num café, no outro lado da avenida. Mas tinha ainda pela frente cerca de três horas de espera e achou que seria mais agradável passar esse tempo a ler ao ar livre. O romance que tinha consigo era uma edição inglesa de "Crime e Castigo", de Fiódor Dostoiévski, um livro que a Miki queria ter lido há algum tempo, antes mesmo de ter visitado S. Petersburgo. Mas quis o destino que só tivesse conseguido comprar o romance precisamente naquela cidade. 

Depois deste encontro segui caminho em direção ao cemitério, mas quando lá cheguei o portão só se abriu para deixar sair os últimos visitantes. Voltei para trás sorridente porque a subida da avenida não tinha sido em vão. Conheci a Miki, fiz uma boa foto e a visita ao cemitério, na manhã seguinte, permitiu-me desfrutar de uma luz que na tarde anterior teria sido impossível. Já estava escrito. 

domingo, 10 de junho de 2012

O Nuno, a Rita e dois clássicos


Sentei-me na escadaria em frente à Casa da Serralves para aproveitar o sol, a vista sobre o jardim e ler um pouco mais. Foi daí que os vi, lá em baixo, estendidos na relva. A Rita dormitava e o Nuno lia naquela posição peculiar, que o obrigava a uma ginástica complicada de cada vez que queria voltar uma página. O livro que mantinha erguido era "Jane Eyre", de Charlotte Brontë, de que estava a gostar muito e que considerou particularmente interessante por lhe permitir acompanhar a história pela perseptiva de uma mulher, numa época tão distinta da de hoje no que diz respeito à condição feminina. O outro volume pousado sobre a relva era "Anna Karénina", de Lev Tolstoi, romance que a Rita também estava a apreciar, sobretudo porque sempre a fascinou aquele período áureo e opulento da história russa, cheio de convencionalismos sociais e regras rígidas no que tocava ao comportamento das mulheres. Estes dois livros foram escolhidos pelo Nuno e pela Rita numa "caça aos grandes clássicos" (palavras suas) que fizeram na FNAC com o objetivo de trocá-los entre si depois de lidos. 

quinta-feira, 7 de junho de 2012

O Autor & O Livro - III


Na passada sexta-feira tive o prazer de assistir, em Matosinhos, ao lançamento de "Somos Todos Um Bocado Ciganos", o novo romance de Manuel Jorge Marmelo. A apresentação esteve a cargo de Germano da Silva, conhecido jornalista portuense, que ao ler o livro regressou aos tempos de infância, nos longínquos anos da Segunda Guerra Mundial, quando ainda se rendia ao fascínio do circo e convivia com os ciganos que acampavam temporariamente num terreno da sua avó. "Cheio de ensinamentos" e "escrito por um autor maduro" foram alguns dos elogios que Germano da Silva teceu ao romance, cuja leitura recomendou com entusiasmo. 

Manuel Jorge Marmelo, por seu turno, contou-nos que quando partiu para este livro não tinha ideia nenhuma. Tinha acabado de escrever "Uma Mentira Mil Vezes Repetida" e no compasso de espera, enquanto percebia se aquele texto merecia ser publicado, viu na televisão uma reportagem sobre uns ursos de circo abandonados. Esse foi o momento em que sentiu que queria escrever sobre um circo, um circo decadente, e explorar a contradição que sempre achou haver entre o brilho do espetáculo e a realidade por detrás dos panos. Os ciganos, enquanto personagens, surgiram mais tarde, depois de ter assistido a um documentário sobre aquela comunidade que muito o impressionou. Foi aí que o seu circo decadente se transformou não só num circo de ciganos, mas também numa micro-sociedade onde se vivem exatamente as mesmas tensões, conflitos e paixões que vive toda a humanidade.

Por fim, sublinhou que este "Somos Todos Um Bocado Ciganos" é igualmente uma homenagem a tudo aquilo que os portugueses são — um bocado ciganos, um bocado judeus, romanos ou visigodos — e a todas as culturas que passaram pelo nosso território. Diz Manuel Jorge Marmelo que a consciência da nossa mistura pode ajudar a que nos demos todos melhor e que este romance é o seu pequeno contributo nesse sentido. 

terça-feira, 5 de junho de 2012

Sebastian, na Alexanderplatz (Berlim)


Quando passei por ele na Alexanderplatz e lhe pedi que me deixasse fotografá-lo, o Sebastian estava a ler um livro universitário do irmão sobre linguística. E quando me sentei para conversarmos um pouco, ainda tirou da mochila o romance "Margarita e o Mestre", de Mikhail Bulgakov. Apaixonado pela literatura russa e por alguns dos seus maiores autores, nomeadamente Gogol, Dostoievski e Nabokov, foi o avô do Sebastian quem lhe disse que não podia deixar de ler este livro.

domingo, 3 de junho de 2012

Leitura agridoce


Numa tarde de Porto de Encontro, vi a Diva entrar na cafetaria do Palácio de Cristal com um livro nos braços. Terminei o meu lanche e fui ter com ela. Quando me aproximei, já estava concentrada na leitura. O romance que a prendia era "A Mancha Humana", de Philip Roth, um livro que um amigo lhe emprestara no seguimento de uma conversa em que citara este autor. A Diva já tinha lido "Teatro de Sabbath" havia cerca de 10 anos, mas nessa altura a prosa de Roth não a marcou particularmente. Desta vez, no entanto, a leitura de "A Mancha Humana" revelou-se uma experiência diferente e embora ainda não tivesse sequer chegado a meio do livro, já podia afirmar convictamente que estava a gostar muito. Considerou a escrita de Roth crua, seca e densa sem ser agressiva, a prosa fantástica sem ser bonita, os personagens muitos bem construídos e a realidade relatada sem floreados, porque a realidade é mesmo assim. Estava a gostar muito, sem dúvida, e no entanto a Diva já sabia que depois de Roth iria precisar de ler algo que a reconciliasse com a vida.