quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Um livro ao almoço (100º post)


Foi na esplanada da Leitaria do Paço, na baixa do Porto, que encontrei a Filipa a almoçar e a ler. O livro pousado em cima da mesa era "A Revolta", o terceiro e último volume da saga "Os Jogos da Fome". À semelhança do que tinha acontecido com a Maria João, que fotografei há uns meses, também a Filipa decidiu ler o resto da saga depois de ter visto a adaptação ao cinema do primeiro volume. No seu entender "A Revolta" é ótimo para acompanhar o almoço, uma vez que a sua leitura é muito fácil e acessível.  

Com esta leitora sorridente registo no Acordo Fotográfico o 100º post. A todos os que aceitaram ser fotografados, o meu muito obrigada pela sua generosidade. Sem eles este projeto não existiria. E a todos os que seguem o blogue agradeço as suas visitas. Se em dezembro do ano passado o Acordo Fotográfico começou de forma um tanto egoísta porque precisava de algo que me ajudasse a encarar um ano potencialmente difícil, hoje é cada vez mais para vocês que fotografo e escrevo. 

terça-feira, 28 de agosto de 2012

A caminho de Guimarães


Sempre gostei muito de ir passear até Guimarães e este ano há mais uma razão para passar por lá: a cidade é Capital Europeia da Cultura. Estando aqui tão perto, não poderia deixar de revisitá-la numa ocasião tão especial. Embora já conhecesse os seus monumentos mais emblemáticos, ainda não tinha tido a oportunidade de ver o seu centro histórico completamente renovado. Para além disso, sentia uma grande curiosidade pelo recém-inaugurado Centro Internacional das Artes José de Guimarães, que não gorou as minhas expectativas: o edifício é muito bonito e a coleção de arte, muito interessante. A par de tudo isto, o ambiente que se vive na cidade é incrível. As manifestações artísticas vão acontecendo um pouco por toda a parte e os turistas vindos dos mais variados países conferem à cidade um tom cosmopolita. Achei Guimarães mais jovem, mais alegre, mais solta e mais sofisticada! 

Foi no comboio que me levou até Guimarães que o Artur se sentou à minha frente e puxou de um livro, cuja leitura o entreteve durante a viagem. A obra em causa era "Inês Vai Morrer", um romance da autora italiana Renata Viganó. Este livro, que integra a coleção Biblioteca Avante!, relata a luta dos partigiani italianos contra o fascismo e a ocupação nazi durante a Segunda Guerra Mundial. Baseado em facto verídicos, bastante dramático e muito bem escrito foram os três aspetos do romance que o Artur salientou tendo rematado, depois, que estava a gostar muito da sua leitura.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Helena e a moral da história


Uma das coisas boas a que o Acordo Fotográfico me obriga é o aprofundar da minha cultura geral. Volta e meia abordo alguém a ler um autor ou um livro que desconhecia e sou levada a fazer uma pequena investigação para poder escrever o post. Hoje, por exemplo, fui descobrir mais sobre Esopo, o fabulista da antiga Grécia sobre quem se sabe tão pouco que há quem defenda que nunca existiu. De acordo com a informação que chegou até nós, Esopo terá vivido entre os séculos VII e VI a. C, foi escravo, viajou pelo Egito, pela Babilónia e pelo Oriente e terá sido condenado à morte por roubo. Era feio, corcunda, gago, mas muito inteligente. Tinha o dom da palavra e uma grande habilidade para contar histórias simples em que os protagonistas eram animais e nas quais havia sempre ensinamentos profundos. Põe-se a hipótese, por isso, de ter sido o inventor da "moral da história". A mais antiga coletânea de fábulas atribuída a Esopo data do século IV a. C. e eram esses textos que a Helena estava a reler quando me aproximei para lhe pedir que me deixasse fotografá-la.

A Helena é formada em Filosofia e gosta muito de ler todas as obras que a levem a refletir. Daí apreciar tanto as "Fábulas de Esopo" que, graças à moral que encerram, ensinam lições importantíssimas. E a Helena sublinha que essas lições não se aplicam apenas aos outros. São lições que também a atingem porque, passo a citá-la, "defeitos toda a gente tem. É bom refletir sobre o que temos a mudar em nós. Gostamos de apontar erros nos outros, mas nós também temos de mudar."

domingo, 19 de agosto de 2012

Diana e a Economia


A Diana é de Leiria mas vive no Porto, onde estuda, e é por causa dos estudos que diz não ter oportunidade de ler tanto quanto gostaria. No entanto, quando chegam as férias de verão, a Diana aproveita o tempo livre para recuperar as leituras adiadas. Na tarde em que a fotografei estava a ler "O Economista Disfarçado" um livro que explica ao leitor comum os mecanismos essenciais da economia recorrendo a exemplos do dia-a-dia. O livro foi-lhe recomendado e emprestado por um amigo no seguimento de uma outra leitura que a Diana tinha feito anteriormente — "Verdade, Humildade e Solidariedade - O método dos executivos do futuro" — e que tinha apreciado muito. E porquê dois livros seguidos sobre economia? Simplesmente para entendê-la melhor. 

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Samba na Cordoaria


À medida que me aproximei do Samba, comecei a ouvir música. Não me recordo exatamente que música era, mas sei que era portuguesa. Enquanto conversamos não consegui perceber onde estava o rádio. Talvez guardado num bolso interior do casaco, o que resultava num efeito curioso porque era como se a música emanasse do próprio Samba. E isto de andar por aí um homem chamado Samba a emanar música pareceu-me acertado, natural e até poético.

O Samba é guineense e veio para Portugal estudar medicina. O curso está parado, mas o hábito de ler livros sobre o assunto mantém-se. Daí ser frequentador habitual da Biblioteca Municipal do Porto onde requisita muitas obras. Para prová-lo abriu a carteira, mostrou-me os muitos talões que vai acumulando e afirmou: "Gosto muito de ler". Naquele início de tarde, no entanto, não lia sobre medicina, mas sim sobre a história da sua Guiné-Bissau. Ao requisitar na biblioteca um dos volumes de "A História da Guiné", o Samba pretendia não só aprender mais sobre o seu país, mas também perceber o que andaram os portugueses a fazer por lá durante tanto tempo. E sem se ter adiantado muito na leitura, uma coisa o Samba já sabia: os portugueses andaram por lá "a sofrer muito. A sofrer e a morrer." 

domingo, 12 de agosto de 2012

Quanto tempo dura o amor?


Publicado em 1997, o romance "L'amour dure trois ans" foi um sucesso editorial em França. Frédéric Beigbeder, autor do livro, escreveu-o quando o seu casamento de três anos chegou ao fim. Amargurado, decidiu pegar no seu caso e extrapolá-lo, numa tentativa de provar que o amor dura apenas três anos para toda a gente. E fê-lo de uma forma tão provocadora, que estalou a polémica e chegou a ser acusado de misoginia. Volvidos quinze anos, Frédéric Beigbeder decidiu estrear-se na realização de uma longa metragem e adaptou o seu romance autobiográfico ao grande ecrã. Após o sucesso nas livrarias, esta espécie de manifesto contra o amor conquistou as salas de cinema.

"L'amour dure trois ans" era o romance que a Laure estava a ler quando a encontrei no Porto. Esta francesa de Lille veio passar uma semana de férias à Invicta e aproveitou o tempo livre para ler o romance que esteve na origem do filme que também ela tinha ido ver ao cinema.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Uma foto que quase não o foi


Eu sabia que andava a abusar... Ia para quinze dias que não carregava a bateria. E a câmara a avisar que a energia era pouca. E eu a achar que daria para mais um dia, para pelo menos mais uma foto. A lição poderia ter acontecido no momento em que me apetecesse fotografar outra coisa que não fosse alguém a ler. Mas isso não seria uma lição, pois não? Por isso fiquei sem bateria no preciso momento em que carreguei no botão para fotografar o Henrique. Frustrada, prometi a mim mesma que isto não voltaria a acontecer e carreguei as duas baterias de que disponho assim que cheguei a casa. Mas quando voltei a ligar a câmara percebi que, afinal, a minha preciosa Canon não me tinha deixado ficar mal. Sorte do caneco!

Encontrei o Henrique nos jardins do Palácio de Cristal, a ler a biografia de Steve Jobs (o mesmo livro que o Carsten lia em inglês, há uns meses, na Ribeira do Porto). Contou-me que lê sobretudo com o intuito de aprender e que, por isso, não tem o hábito de ler ficção. A biografia do magnata da informática seduziu-o por retratar uma pessoa que considera inspiradora e cuja história de vida é engraçada.

Este encontro entre o Acordo Fotográfico e o Henrique foi registado pelo meu bom amigo F. que (nem  a propósito!) usou o seu iPhone para o efeito. Podem ver a foto aqui.

domingo, 5 de agosto de 2012

O Animal Social


Sentada à mesma mesa onde fotografei a Fátima há uns meses, encontrei, desta vez, a Inês  a ler "The Social Animal", uma obra de David Brooks que defende que o sucesso e a realização pessoal se devem em grande parte a qualidades individuais difíceis de medir ou quantificar. A Inês gosta de livros, mas gosta sobretudo de livrarias e da experiência de comprar livros numa boa livraria, porque comprá-los num hipermercado não sabe a nada. Este livro em particular foi adquirido na Blackwell's de Oxford, um pouco por acaso. Atraída por uma promoção que lhe permitia levar três livros pelo preço de dois, a Inês deixou-se convencer por uma crítica do Economist que estava impressa na capa. E embora não tivesse qualquer referência sobre "The Social Animal", a obra acabou por agradar-lhe e ir de encontro ao seu interesse pela Psicologia. 

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

José & Asimov


Há já uns três ou quatro anos que deixei de levar o carro para o Algarve. A despesa é muita e conduzir tantas horas é monótono e cansativo. Rendi-me, desde então, aos encantos do Alfa Pendular que liga diretamente o Porto a Faro. A viagem dura pouco mais de cinco horas e é com prazer que relaxo, desfruto do conforto da carruagem e aproveito a maior parte do tempo para ler. Neste último regresso a casa, conheci o José que vinha, também ele, agarrado a um livro. Leitor habitual de ficção científica, o José diz interessar-se sobretudo pelas ideias e teorias que os autores deste género literário desenvolvem. Arthur C. Clarke e Isaac Asimov são os seus escritores de eleição e era precisamente um livro deste último que estava a reler porque, passados dez anos sobre a primeira leitura, havia pormenores de "Prelúdio à Fundação" que queria relembrar. 

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Kafka à beira mar de uma praia (quase) deserta


O acesso faz-se por um longo caminho em terra batida, cheio de altos e baixos. Não há qualquer restaurante, bar de apoio, casas de banho ou nadadores salvadores que zelem por nós. A rede móvel é fraca, por vezes inexistente. Não há bandeira azul, claro. Nem se ouvem pregões de vendedores de bolas de Berlim. E o mar, para além de perigoso para gente menos experiente, brinda-nos sempre com uma água bem fria. Estas características, que dissuadem a maioria dos veraneantes (e ainda bem!), fazem com que seja possível encontrar uma praia algarvia completamente deserta às dez horas de uma manhã de sábado em pleno mês de julho. Poderia dizer-vos que é sobretudo por isso que gosto de lá ir, mas estaria a esconder-vos o principal: a beleza avassaladora da paisagem. Tão bela que preferi não ler para poder absorver com todos os sentidos e sem interferências o espetáculo que esta praia maravilhosa tem para nos oferecer. Até porque, em duas semanas de férias, esta foi a única oportunidade que tive de lá ir. 

Felizmente a Maurícia não seguiu o meu exemplo e optou por dedicar-se à leitura de "Kafka à Beira Mar". Este era o seu primeiro Murakami, um autor que um ex-colega de trabalho japonês elogiou muito, convencendo-a a descobri-lo também. E, pelo que me contou, a Maurícia não estava nada arrependida de se ter aventurado pelas quase seiscentas páginas de um romance que definiu como um livro de aventuras, com dois grandes protagonistas que estavam prestes e encontrar-se.  

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Adolfo & Pepetela


O Adolfo é transmontano, vive no Porto há muitos anos e estava de férias no Algarve quando o fotografei. Naquela manhã, à sombra de um guarda-sol, na Praia dos Careanos, lia o romance "Predadores", de Pepetela, o ficcionista angolano a quem foi atribuído o Prémio Camões em 1997. Deste mesmo autor, o Adolfo já tinha lido "A Geração da Utopia", que classificou como um grande romance e, na sua opinião, "Predadores" não lhe ficava atrás: estava a apreciar particularmente o estilo da narrativa e considerou o tema da descolonização sempre interessante.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Outros retalhos da vida de um médico


A Praia do Alemão, em Portimão, é uma outra pequena praia abrigada a que recorremos como alternativa nos dias de muito vento. Infelizmente, desta vez, cada centímetro do areal estava ocupado por alguém, por isso não nos demoramos muito. Ficamos apenas o suficiente para assistir ao "batismo" de praia da minha sobrinha de 18 meses, que se rendeu aos encantos da areia e do mar e, nos dias seguintes, voltamos à praia dos Careanos. Este desvio serviu, no entanto, para que eu conhecesse a Maria e lhe tirasse o que considero uma fotografia muito bonita, onde o seu chapéu vermelho surge em grande destaque. Foi, aliás, esse chapéu que primeiro me chamou a atenção. Quando vi que se preparava para começar a ler não perdi a oportunidade e fui falar com ela. 

"Um Crime Passional e a Reforma do Cabo Antão" era o título do conjunto de contos que a Maria estava a ler. O autor, António Carvalho, tinha sido seu formando e foi ele quem lhe ofereceu o livro. Médico de clínica geral há vinte cinco anos e de família há dezanove, António Carvalho começou a escrever há pouco tempo e, nesta obra em particular, inspirou-se nas muitas peripécias que foi vivendo enquanto exercia medicina por esse país fora. Contou-me a Maria que embora o autor tivesse mudado os nomes dos personagens, todos os relatos eram verídicos e alguns até exploravam detalhes menos agradáveis do exercício da medicina. "Acreditamos nos médicos, mas a verdade em que nem sempre deveria ser assim..." disse-me. Mas este facto não a impediu de considerar as histórias muito engraçadas e era com prazer que as lia.

domingo, 22 de julho de 2012

Hugo e os segredos do sucesso


De férias no Algarve, o Hugo aproveitou o tempo livre para pôr a leitura em dia. Na tarde em que falamos, disse-me que já tinha lido o romance policial "Confia em Mim" e naquele momento estava bem avançado na leitura de "Outliers", um livro que decidiu ler em inglês para praticar o idioma. 

Nesta obra de Malcolm Gladwell, o Hugo achou particularmente interessante a análise que o autor faz de algumas histórias de sucesso. Explicou-me que, normalmente, atribuímos os casos de sucesso às qualidades inatas das pessoas e ao empenho que colocam no seu trabalho mas, de acordo com o autor de "Outliers", há outros factores determinantes a ter em consideração. Já ouviram falar no Efeito de Matthew? De acordo com este Efeito, por exemplo, um miúdo que tenha nascido em Janeiro tem mais hipóteses de ser um jogador de futebol americano de sucesso do que um miúdo nascido em qualquer outro mês do ano. E sabiam que são necessárias aproximadamente 10 mil horas de prática para se ser verdadeiramente bom numa determinada tarefa? Pelos vistos, esse foi o tempo que os Beatles investiram a tocar no Star Club de Hamburgo antes de se tornarem "mais populares que Jesus" e que Bill Gates investiu no planeamento da sua ideia de negócio, fazendo da Microsoft um sucesso estrondoso. 

De Malcolm Gladwell li, há uns anos, o livro Blink! de que gostei muito e que vos recomendo vivamente. Depois da conversa com o Hugo fiquei com muita vontade de ler este "Outliers" para descobrir que outros segredos conduzem ao sucesso. 

terça-feira, 17 de julho de 2012

Escândalo na Praia dos Careanos


Em Portimão, a minha preferência vai para as praias com grande areais. A Praia da Rocha e a Praia de Alvor (na zona que se estende à direita da Restinga) são as que frequento com os meus pais e o meu irmão desde sempre. No pico do verão são aquelas que nos vão garantindo alguns metros de desafogo e relativa privacidade quando, noutras praias bem mais pequenas, o pessoal insiste em estender as toalhas a centímetros de perfeitos desconhecidos (e parece apreciar essa proximidade, coisa que abomino e me tira do sério...). Infelizmente, este ano, para além da água fria como nunca me lembro, o litoral Algarvio tem sido fustigado por umas rajadas de vento fortíssimas (vento noroeste, dizem os entendidos), daquelas que arrancam guarda-sóis ao areal por muito empenho que se tenha posto em enterrá-los bem fundo. Por isso, fui obrigada a procurar praias mais abrigadas, que me permitissem gozar o sol sem comer areia ou trazê-la às toneladas no cabelo ou por entre as páginas dos livros.

À Praia dos Careanos, entre o Vau e a Rocha, acede-se por uma grande escadaria que acompanha a arriba em perigo de derrocada. Apesar de ser uma praia bem pequena, acho que as escadas e a dificuldade em arranjar lugar para estacionar dissuadem muita gente de lá ir e, talvez por isso, nunca está atulhada de banhistas. Em dias de muito vento é uma ótima alternativa. Foi aí, na simpática praia dos Careanos, que encontrei a Susana a ler o romance "Escândalo", um livro emprestado por uma amiga com quem costuma trocar livros e impressões sobre o que vão lendo. A Susana, que é de Pombal e estava de férias em Portimão, disse-me que gosta muito de ler, mas que ultimamente tinha sido forçada a ler livros técnicos. As férias eram, por isso, uma ótima oportunidade para retomar a ficção. E o romance "Escândalo" não estava a desiludi-la. A amiga tinha gostado muito e a Susana garantiu-me que não largaria o livro enquanto não o acabasse, tal era o seu entusiasmo. 

domingo, 15 de julho de 2012

O Acordo Fotográfico foi à praia


Há muitos anos aprendi o que significava a empatia e desde então procuro, com maior ou com menor sucesso, colocar-me no lugar dos outros nas mais variadas ocasiões. Por isso, à medida que as férias de verão se aproximavam, assim como os longos dias passados na praia, dei por mim a pensar como reagiria se uma estranha me aparecesse à frente, de câmara em punho, para me propôr uma fotografia, estando eu em biquini e tendo como único adereço um livro (e talvez uns óculos de sol e um chapéu de palha).

Tinha a certeza que ia encontrar muitos leitores na praia. As férias são sempre aproveitadas para pôr as leituras em dia. Por isso, levei a câmara comigo desde o primeiro momento. Mas queria tanto que isto corresse bem, que decidi não arriscar e foi de forma calculada que não abordei o primeiro leitor que vi. Nem o segundo, nem o terceiro... Observei ao longe, escrutinei cada rosto, cada capa de livro e deixei que a intuição me guiasse. Tomei todo o meu tempo em prol de um "sim" que queria que fosse o prenúncio de uma temporada profícua para o Acordo Fotográfico nas praias do Algarve.

Foi no extenso areal da Praia da Rocha que decidi avançar. Na sombrinha imediatamente atrás da minha estava a Andreia, uma alentejana de Beja a gozar férias em Portimão. Enchi-me de coragem (ou de uma "grande lata", para utilizar as palavras da minha mãe e do meu irmão), aproximei-me e, com uma boa dose de cortesia, expliquei ao que vinha. A Andreia sorriu e aceitou. Tinha começado a ler "Um Longo Regresso a Casa", um romance que disse ter escolhido ao acaso, sem sequer espreitar a sinopse para que a história a surpreendesse completamente.

Depois da Andreia, vieram mais leitores, mais livros, mais fotos tiradas noutras praias. Aconteceu exatamente como eu queria: comecei com o pé direito e a partir daí foi tudo mais fácil!

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Renato & Raymond Roussel


São muitas as razões que me levam a visitar Serralves com frequência: uma nova exposição, uma festa, um concerto ou a simples vontade de me sentar num recanto do parque para ler um pouco. Mas de todas, a que me dá mais prazer é levar alguém — familiares, amigos, conhecidos — à Fundação pela primeira vez. Adoro acompanhá-los na descoberta do museu do Siza, da casa Art Déco, e do enorme parque, e aproveito sempre para partilhar o que aprendi acerca de Serralves nos poucos meses em que lá trabalhei, há doze anos. Esta última ida aconteceu no fim de semana do S. João, quando uma boa amiga veio do Algarve para me visitar, fazer uma ronda rápida pelos pontos obrigatórios da Invicta e cair na folia junina de martelinhos em punho. 

Na tarde de sábado, andávamos nós a passear no jardim, deparei-me com o Renato a ler na esplanada da Casa de Chá. Este Professor na Universidade Federal Fulminense e Coordenador Académico no OPLOP (Observatório dos Países de Língua Oficial Portuguesa), veio a Portugal para participar num colóquio na Universidade Nova de Lisboa e tirou, depois, uns dias de folga para ir até ao Porto, cidade que visita sempre porque é descendente de portuenses. Frequentador assíduo da Fundação de Serralves, o Renato tinha acabado de visitar a exposição "Locus Solus. Impressões de Raymond Roussel", a primeira grande mostra sobre o poeta, dramaturgo e romancista francês que, entre o final do século XIX e o início do século XX, influenciou movimentos artísticos de vanguarda. Daí a leitura de "Impressões de África", o romance de Roussel que tinha entre mãos quando nos conhecemos. 

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Ângela & John dos Passos


Foi nos jardins do Palácio de Cristal que abordei a Ângela para lhe propor uma fotografia. Esta jovem advogada vive em Lisboa, foi ao Porto em trabalho e estava a aproveitar uma pausa para avançar na leitura de "Manhattan Transfer", uma obra de John dos Passos. O livro foi-lhe oferecido por uns amigos depois de ter regressado de Nova Iorque, onde fez um Mestrado em International Business and Trade. A Ângela ainda tinha lido muito pouco e estava expectante quanto ao conteúdo do romance, mas já podia afirmar que a escrita lhe parecia "atrapalhada e alucinante".

domingo, 8 de julho de 2012

Morrer por uma história


De acordo com o CPJ (Committee to Protect Journalists) foram mortos, nos últimos vinte anos, 920 jornalistas. Só em 2012 já morreram 25 profissionais no exercício das suas funções, a esmagadora maioria na Síria. Jornalista de profissão, este é um tema a que o Pedro é particularmente sensível e foi com emoção que me falou do assunto quando o encontrei no Moustache, à hora do almoço.

Contou-me o Pedro que tinha acabado de ler recentemente dois livros escritos por Anna Politkovskaya, a jornalista russa abatida a tiro em Moscovo, em 2006.  "Chechénia - A Vergonha Russa" e "A Rússia de Putin" foram obras que o marcaram bastante pelo exemplo de coragem e persistência na busca da verdade. Por isso, quando viu o livro "Assassinaram um Jornalista" à venda na FNAC não hesitou em comprá-lo, até porque uma das biografadas por Terry Gold é, precisamente, Anna Politkovskaya. 

Na sua opinião a grande virtude de "Assassinaram um Jornalistaé "dar vida às caras dos jornalistas" cujas mortes vão sendo contabilizadas para efeitos estatísticos, sem que ninguém se preocupe em saber quem foram verdadeiramente. Terry Gold investigou a fundo a vida de seis profissionais, procurando perceber por que motivo nunca desistiram das suas investigações jornalísticas, colocando-as à frente das próprias vidas. Para o Pedro, esta é a melhor forma de perpétuar grandes exemplos de dedicação ao trabalho e fazer com que os seus sacrifícios não tenham sido em vão. 

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Cláudia & Os Anjos Caídos


Foi numa paragem de autocarro na Av. dos Aliados, no coração do Porto, que vi a Cláudia agarrada a um livro. Esta é uma estreia no Acordo Fotográfico. Embora me tivesse mantido atenta, ainda não tinha tido a oportunidade de fotografar alguém a ler numa paragem dos STCP. Disse-me a Cláudia que é uma leitora habitual e que não só aproveita as deslocações nos transportes para ler, como também as horas mortas no local de trabalho. Naquele final de tarde, o livro que prendia a sua atenção era "Crescendo", de Becca Fitzpatrick, o segundo volume de uma trilogia sobre as aventuras amorosas entre uma jovem humana e um anjo caído. A Cláudia tinha lido "Hush, hush", o primeiro volume, e aproveitou uma promoção do Círculo de Leitores para continuar a ler a saga. Já lidos  estavam outros títulos de Literatura Fantástica, um género que aprecia muito, nomeadamente todos os volumes da saga Twilight, de Stephenie Meyer. 

terça-feira, 3 de julho de 2012

Maria Rosa & Padre Pio


Este ano não tive oportunidade de ir à Feira do Livro de Lisboa e quase falhava a do Porto. Entre férias, trabalho e outros compromissos, a única oportunidade que tive de lá ir foi no final da tarde de 13 de junho, dia de Sto. António e de Portugal/Dinamarca no Euro 2012. Quando cheguei à Av. dos Aliados, eram escassos os clientes em redor dos pavilhões. Ali ao lado, na praça D. João I, milhares de adeptos torciam por Portugal em frente a um ecrã gigante e foi graças aos seus festejos que fui seguindo o ritmo dos nossos golos. Dadas as circunstâncias achei que dificilmente encontraria leitores, mas o passeio pela feira rapidamente me provou o contrário. 

Foi dentro do pavilhão das Edições Paulinas que vi a Maria Rosa a ler, um hábito que alimenta desde muito pequena. Em Mondim de Basto, onde passou a infância, lia tudo o que lhe ia parar à mãos, inclusivamente os livros dos irmãos mais velhos e, à noite, era a mãe que tinha de lhe apagar o candeeiro a petróleo para que largasse os livros e adormecesse. Na posse destes dados, que a Maria Rosa partilhou de forma generosa, pareceu-me natural encontrá-la ali, no meio de livros, a zelar por eles e a vendê-los. Mais natural, ainda, foi fotografá-la no exercício dessa paixão que é ler, sobretudo quando a obra em questão era "Padre Pio — Um Santo Entre Nós", a biografia de um homem que a Maria Rosa considera ter sido "extraordinário desde pequenino" e que viveu, também com paixão, a sua fé.