sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Hoje é Dia das Livrarias


Hoje assinala-se pela primeira vez em Portugal o Dia das Livrarias. A iniciativa, que teve origem em Espanha, é "importada" pela Fundação José Saramago, conta com o apoio do movimento Encontro-Livreiro e coincide, curiosamente, com a data da morte de Fernando Pessoa.

A Livraria Vieira existe desde 1984, mas eu só a descobri há poucas semanas, quando andava a vaguear pelos arredores da Praça Carlos Alberto, ali na baixa do Porto. Passei pela porta estreita, vi livros no interior e entrei por impulso. O Sr. Vieira, que estava atrás do balcão, perguntou-me se me podia ajudar, ao que eu respondi que estava apenas a ver. A verdade é que não me demorei mais de dois minutos, mas aquele espaço pequeno e aconchegante forrado de livros não me saiu da cabeça. Ontem de manhã, quando o Luís Guerra, das livrarias Assírio & Alvim, me falou do Dia das Livrarias e me incitou a divulgá-lo no Acordo Fotográfico, soube de imediato que era à Livraria Vieira que tinha de voltar. Desta vez quem me atendeu foi a D. Fernanda, mas o Sr. Vieira, que estava a almoçar, não tardou a juntar-se-nos, e foi com extrema simpatia que ambos me receberam, aceitaram falar sobre a sua livraria e deixaram que a fotografasse. 

Nos idos anos 70 a D. Fernanda estava empregada numa conhecida livraria do Porto, quando havia trabalho e os livros se vendiam muito bem. Já então, apaixonada pela profissão de livreira, acalentava vir a ter o seu "cantinho", a sua livraria, sonho que acabou por concretizar. Nesses anos de bonança o negócio cresceu, o Sr. Vieira, seu marido, acabou por ir trabalhar com ela e foi com os rendimentos da livraria que educaram os dois filhos: a menina tornou-se bióloga e o menino escritor. 

Porém, os tempos mudaram drasticamente. Num esforço para manter as portas abertas, a Livraria Vieira mudou a lógica do negócio do livro novo para o usado, mas as vendas mantêm-se difíceis. Disse-me a D. Fernanda que nunca imaginou chegar à fase da vida em que se encontra e ser forçada a trabalhar ainda mais, mas afirma com muita emoção que não quer acabar com o seu "cantinho" que criou com tanto amor e carinho. E apesar desta mágoa, desta tristeza, foi com alegria, com orgulho até, que afirmou que a profissão de livreira "é a profissão mais linda que pode haver", que foi graças à sua livraria que ambos conheceram "as pessoas mais bonitas, gente séria, culta" e que todos os dias aprendem algo com os clientes.

Sabor amargo e doce, foi o que trouxe da Livraria Vieira. Amargo porque estes espaços únicos, tão cheios de caráter e de sentimento, estão em vias de extinção e nada os poderá substituir: nenhuma rede de livrarias de nome mais ou menos estrangeiro, nem nenhum espaço trendy com projeto de decoração assinado. E doce porque a dedicação, a generosidade, e a candura da D. Fernanda e do Sr. Vieira me comoveram. Se me dissessem que o Dia das Livrarias foi criado por causa deles eu acreditava.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A Elsa, em pleno voo


Na ida para Milão voei pela primeira vez numa companhia low cost. Esta era uma experiência que andava a adiar, convencida que este tipo de voo não me encheria as medidas. Lembrando-me eu dos tempos em que andar de avião era um acontecimento glamoroso, estreando-se até peças de roupa para a ocasião, esta coisa de não ter lugar marcado, não ter espaço para as pernas, não nos oferecerem uma refeição por muito pequena que seja, pagar uma fortuna para meter a mala no porão e estar sujeita a horários muito pouco convenientes (para quem trabalha de segunda a sexta, entre as 9h e as 18h e pica o ponto) fazia-me muita confusão. Mas "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades" e acabei por embarcar num voo da Easy Jet que marcou pela sua linearidade: saímos a horas, aterrámos a horas e a bagagem não se extraviou. 

Já o voo de regresso pela TAP, companhia em que viajo desde sempre e da qual não me lembro de ter razões de queixa, foi toda uma outra história. Partimos com um atraso de mais de hora e meia que nunca nos foi justificado. O piloto e a tripulação só se nos dirigiram para informar que, devido a fortíssimos ventos contrários, teríamos de fazer um desvio e aterrar em Barcelona para reabastecer. O pequeníssimo Embraer que nos transportava iria despender mais combustível para fazer face ao vento e não teria, portanto, autonomia suficiente para nos levar em segurança até ao Porto. Uma vez em Barcelona, o reabastecimento demorou muito mais do que os 15 minutos que nos prometeram e a viagem que deveria ter demorado cerca de 2h entre Milão e o Porto acabou por demorar quase 4h. Em vez de chegarmos ao Porto às 23h como estava previsto, chegámos por volta das 3h da madrugada e as únicas palavras proferidas pela tripulação quando aterrámos foram aquela lenga-lenga debitada maquinalmente independentemente das particularidades de cada voo: "Esperamos que tenham gostado da viagem." A cassete, portanto. Bem sei que tudo isto se deveu ao zelo pela nossa segurança, mas sabem aquele pedido de desculpas que teria sido, no mínimo, de bom tom? Pois... 

Para passar o tempo vinguei-me na UP Magazine, a belíssima revista de bordo da TAP que li de fio a pavio. Já a Elsa aproveitou para acabar de ler o romance "Nunca me Esqueças", de Lesley Pearse. O livro fora-lhe emprestado pela filha que está a fazer Erasmus em Itália e que a Elsa tinha ido visitar. 

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Greta, os gelados e os livros


Na Gelateria Riva Reno, em Milão, comi o melhor gelado de pistácio da minha vida e conheci a Greta que, depois de mo servir, se sentou atrás do balcão para retomar a sua leitura. Naquela tarde fria, chuvosa e de fraca clientela, a Greta tinha por companhia um exemplar de "Il Centenario Che Saltò della Finestra e Scomparve" (em português "O Centenário Que Fugiu Pela Janela e Desapareceu"), um livro simples e divertido que serviu para desanuviar da leitura mais intensa que tinha feito anteriormente. 

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Um pedido importante / An important request


O Acordo Fotográfico foi convidado a expor algumas das suas fotografias numa galeria em Guimarães. 

A exposição deverá a conhecer no início do próximo ano. Preciso, portanto, de obter a autorização dos leitores e leitoras que fui fotografando ao longo do último ano. 

Uma vez que não fiquei com a esmagadora maioria dos contactos, venho pedir que me contactem através do seguinte email: acordofotografico@gmail.com. 

Por favor, divulguem esta mensagem. Muito obrigada!

*****

Acordo Fotográfico has been invited to exhibit some of its photos at a gallery in the city of Guimarães (Portugal).

The exhibition will take place in early 2013. Therefore I need to obtain permissions of all those readers I had the opportunity to photograph this past year.

Since I don't have the contacts of the majority of the persons I met, I kindly ask you to contact me trough the following email: acordofotografico@gmail.com.

Please, help me spread this message. Thanks!

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Holly, a ibérica


Quando vim viver para o Porto, em março de 2000, o Clérigos Shopping — que compunha um quarteirão inteiro na baixa da cidade, entre a Torre dos Clérigos, a Reitoria da Universidade do Porto e o conjunto de edifícios onde fica a Livraria Lello — já não era um espaço comercial pujante. Com o passar dos anos as lojas, os restaurantes e os bares foram fechando e por volta de 2005 o shopping deu lugar a uma galeria comercial fantasma, completamente votada ao abandono e alvo de atos de vandalismo. Garanto-vos que o espetáculo era do mais deprimente que se pode imaginar, bem no centro histórico de uma cidade tão bela e não muito distante de uma área classificada como Património Mundial da Humanidade.... 

No entanto, o ano passado o espaço entrou em obras e de há umas semanas a esta parte o antigo Clérigos Shopping deu lugar ao Passeio dos Clérigos. Não morro de amores pelo novo edifício, é verdade, mas acho imensa piada ao jardim de oliveiras que plantaram no cimo da estrutura e à rua que rasga o edifício ao meio. É como se a baixa do Porto tivesse ganho mais uma rua de lojas, já que todos os espaços comerciais têm montras para o exterior. O primeiro a abrir ao público foi o Costa Coffee que conta com uma boa esplanada e foi aí, ao sol, que encontrei a Holly a ler. 

Quando a abordei, optei por lhe perguntar se falava inglês, ao que respondeu que sim. Só quando lhe entreguei o cartão do Acordo Fotográfico e lhe expliquei que o blogue estava escrito em português é que ela me disse, baixinho, "Eu falo português." Esta simpática inglesa de voz e sorriso muito doces estuda português há dois anos na Universidade de Bristol e aproveitou o programa Erasmus para vir até ao nosso país aperfeiçoar o idioma. A par do português, a Holly também estuda espanhol e era um romance em espanhol que estava a ler quando passei por ela. O livro, que se intitula "La Tesis de Nancy", é, pelo que fiquei a saber depois, muito popular por entre os estudantes de língua espanhola de todo o mundo e relata as experiências de uma jovem universitária americana chamada Nancy durante a sua estadia de um ano em Sevilha. 

PS - No próximo post volto a Milão.

domingo, 18 de novembro de 2012

Stefano, em Milão



"Saio do chão, entrego-me de corpo e alma. Tenho o maior prazer de viajar pela possibilidade dos encontros, das coisas novas, das pessoas, de visuais e de inspirações. Fico extremamente aberto para tudo o que vejo."
Hans Donner, à revista "UP", da TAP

Assim como adoro livros e não posso passar sem eles, tenho uma necessidade quase fisiológica de viajar. Ambos, livros e viagens, são os alimentos que a minha alma mais reclama e sei que sem eles seria uma versão menor de mim. Costumo dizer que a culpa é dos meus pais, que emigraram no final dos anos 60. Aquelas longas travessias de carro entre Paris e Portimão, passando por Espanha, ou as vindas mais fugazes pelo Natal, já de avião, moldaram-me irremediavelmente. Para mim tudo na viagem é adrenalina: a partida, o desconhecido, a descoberta, a diferença ou a semelhança, o choque, o confronto, o deslumbramento, o espanto, a aprendizagem, o regresso. E agora, para além de tudo isto, há o Acordo Fotográfico e a expectativa de poder conhecer e conversar com gente que lê nessas paragens mais ou menos distantes. 

Há quinze dias tive a oportunidade de voltar a Milão. A primeira visita à cidade, há quase cinco anos, não me marcou. Na altura, eu e as minhas companheiras de viagem estávamos a acabar um périplo de duas semanas por várias cidades italianas, de mochila às costas, e trazíamos a barriga cheia de arte, comida, vinho, cores e gentes quentes das paragens mais a sul. Em Milão chovia, fazia frio, achámos as pessoas antipáticas e a cidade com pouca oferta cultural. Nem pudemos ver a Última Ceia porque não sabíamos que era preciso marcar a visita com meses de antecedência... Mas desta vez, desafiada por um casal de grandes amigos que veem Milão com outros olhos, decidi dar uma segunda oportunidade à cidade. E ainda bem que o fiz porque acho que a entendi melhor e fui, até, seduzida pela sua sofisticação, pelo luxo, pelo requinte, pela gente bonita e sobretudo pelo extremo bom gosto com que tudo é feito. 

Foi numa paragem para o almoço, à procura de mais uma fatia de pizza ou de um panini num local a que aqui no Porto chamaríamos um "pão quente", que encontrei o Stefano a ler sentado junto a uma grande vitrina com vista para a rua. O Stefano nasceu no sul de Itália, mas foi criado em Milão desde muito pequeno. Quando lhe disse que estávamos a gostar da cidade mostrou-se surpreendido porque no que lhe diz respeito Milão tem um lado sombrio, melancólico, que o leva a ponderar partir. Naquela hora de almoço, completamente alheado do bulício da clientela e da azáfama dos empregados, lia com atenção um livro em grego sobre as canções tradicionais da Grécia. A leitura iria ajudá-lo a redigir uma tese sobre a métrica das canções gregas, um trabalho que nunca ninguém fez acerca de um tema que considera verdadeiramente excitante. 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Maria, a sócia (concentradíssima)


No mesmo fim de tarde em que tirei esta fotografia, conheci a Maria que viajava no mesmo autocarro, sentada quase em frente à Isabel. A primeira coisa que a Maria fez questão de me dizer quando lhe perguntei sobre os seus hábitos de leitura, é que é sócia do Círculo de Leitores há quase 40 anos e que ao longo destas quatro décadas tem lido de tudo um pouco. Coleccionou e leu as obras de autores tão diversos como Eça, Camilo, Saramago, Lobo Antunes, Sveva ou Danielle Steel. No momento em que falámos estava a ler "O Mar Dourado", um romance de Konsalik de quem já tinha lido outros dois livros e cuja escrita considerou ser muito diferente de tudo aquilo a que estava habituada até então. 

Para tomar as minhas notas, sentei-me em frente à Maria e ao lado da Isabel. E depois de arrumada a câmara fotográfica e guardado o bloco onde colecciono as histórias que para aqui transcrevo, mantive-me sentada junto a estas duas leitoras com quem acabei por seguir em amena cavaqueira até à minha paragem. Para mim — que de uma forma geral ando de auriculares nos ouvidos para me concentrar na leitura ou simplesmente para evitar ouvir, à força, detalhes cabeludos sobre as vidas alheias que se discutem sem pudor, alto e bom som — deslocar-me de transporte público até casa enquanto conversava sobre leituras com duas simpáticas desconhecidas foi um prazer. Graças aos livros, aquele dia da trabalho acabou mesmo bem!

domingo, 11 de novembro de 2012

O Pedro rendido às sombras


Elogiada por muitos e desprezada por outros tantos, a trilogia d' "As Cinquenta Sombras" é um fenómeno editorial incontornável e sem precedentes. Traduzida em 40 países, já terá vendido mais de 40 milhões de cópias e bateu todos os recordes de vendas previamente estabelecidos. Esqueçam os "Harry Potters", esqueçam "O Código Da Vinci": os três volumes d' "As Cinquenta Sombras" conquistaram e matêm-se há meses em todos os tops dos países onde foram publicados e são os livros que mais rapidamente venderam em toda a história da edição. Erótico, pornográfico, explícito, ardente, obsessivo, viciante são alguns dos adjetivos usados — quer pela crítica literária, quer pelas legiões de fãs — para descrever a trilogia que, ao que parece, conquistou sobretudo jovens mulheres/mães por esse mundo fora, sendo responsável pelo reavivar da chama de muitos casamentos. São frequentes os testemunhos de casais que dizem ter sentido os efeitos benéficos da leitura do romance, por ter sido despertado nas mulheres um desejo intenso por sexo com os companheiros. 

Estando eu a par dos milhares de exemplares que os dois primeiros volumes já venderam em Portugal (o terceiro só amanhã chega às livrarias), andava a estranhar ainda não me ter cruzado com ninguém a ler este livro, e não foram poucas as vezes que comentei com amigos ou com colegas de trabalho que achava que as portuguesas estavam com vergonha de ser vistas em público com o livro nas mãos. Até ao dia em que a vida, irónica como sempre, me levou não até uma leitora, como eu tinha imaginado, mas até ao Pedro que sem falsos pudores e na presença da namorada me falou abertamente d' "As Cinquenta Sombras". 

E o que tem o Pedro a dizer sobre este romance? Antes de mais, que foi a namorada que começou a lê-lo e que ela gostou tanto que ele não lhe resistiu e começou a "devorá-lo" (expressão sua). Depois, que gosta da forma objetiva como está escrito, do modo como a autora consegue transmitir ao leitor tudo o que os personagens sentem, tendo ficado "preso" ao que o casal protagonista vive e chegando a admitir que se revê em muitas das situações. E por último que esta leitura lhe permitiu entrar no mundo do BDSM (Bondage, Discipline, Sadism, Masochism) que desconhecia, embora esteja convencido que a abordagem do livro a esta prática sexual é muito "soft"Por estas razões (e com certeza por muitas outras que não se enumeraram no decorrer da nossa conversa) o Pedro e a namorada não veem a hora de pôr as mãos no terceiro e último volume do romance, fazendo salientar que também os amigos "andam todos entusiasmados" com a trilogia. 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Laura & Joanne Harris


À semelhança da Isabel, também a Laura diz não ter tempo para ler em casa. Por isso aproveita as viagens nos transportes públicos e alguns intervalos no dia de trabalho. Fotografei-a num desses momentos, há umas semanas, quando o tempo ainda permitia "esplanadar" sem grandes agasalhos. Estava a ler "Maligna", o primeiro romance de Joanne Harris, uma autora que a Laura aprecia imenso e de quem já tinha lido outros livros.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Isabel & Allende


Para além do trabalho, a Isabel ainda cuida dos filhos e da casa e tudo isto consome a maior parte do seu tempo. Por isso, as viagens nos transportes públicos são aproveitadas para ler. Fotografei-a num final de dia, no autocarro que nos levava a ambas de regresso a casa. Na altura estava a acabar de ler "Eva Luna", de Isabel Allende, um romance que lhe foi emprestado por uma amiga porque "infelizmente os tempos não estão para comprar livros". A Isabel, que lê de tudo um pouco, já tinha lido outros livros de Allende e de "Eva Luna" estava a gostar particularmente por causa do enquadramento sócio-económico que a autora fez da época em que se passa a história.  

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Serge e as árvores


O Serge é canadiano e vive perto de Vancouver. Encontrei-o no Porto durante o seu mês de férias em Portugal. Sentado na belíssima alameda de plátanos do Jardim da Cordoaria, lia "There Were Two Trees in the Garden", um título que alude à Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal e à Árvore da Vida, numa representação do conflito entre o reino deste mundo e o reino de Deus. O livro interpreta episódios da Bíblia, um assunto sobre o qual o Serge tem particular interesse. 

domingo, 28 de outubro de 2012

1Q84 no 501


Tirei esta fotografia na paragem dos STCP do Jardim do Carregal e o autocarro que se vê em pano de fundo era aquele pelo qual a Nancy esperava. Por isso, a nossa conversa foi muito breve. O suficiente para lhe perguntar o nome e dizer-me o que lia: o primeiro volume de "1Q84", de Haruki Murakami.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O Bruno na idade das miúdas


Esta foi a fotografia mais difícil que alguma vez tirei desde que comecei o Acordo Fotográfico. Andava a evitar fotografar dentro do autocarro que me leva ao trabalho todas as manhãs, mas foi impossível ignorar o jovem rapaz que vinha a ler sentado quase ao meu lado. Os solavancos, as pessoas que passavam à minha frente, a falta de luz dentro do autocarro e a falta de luz lá fora (porque chovia copiosamente) tornaram dificílima a tarefa de focar a imagem em modo manual. Puxei pela lente até ao limite, contei com a paciência do Bruno que aguentou vários disparos e o resultado é o que se vê. Naquela manhã, este jovem leitor, de mochila pousada sobre os joelhos, lia "Método de Engate", um livro que lhe foi oferecido pelo cunhado. E porquê esta oferta? Simplesmente porque o Bruno "está na idade das miúdas". 

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O resgate de Nora Roberts


Se há coisa que não consigo fazer é deitar livros fora. Prefiro dá-los, oferecê-los, mas pô-los no lixo é-me inconcebível. E a ideia de que possam ser "abatidos" ou "guilhotinados" (como se diz na gíria editorial e como se faz, de facto, aos monos que são tão monos que até esquecidos num armazém dão prejuízo) dói-me fundo na alma. Trago em mim esta convicção de que um livro, por muito mau que seja e até independentemente da sua mensagem, é um objeto quase sagrado. Talvez o meu objeto preferido, no extremo oposto a qualquer tipo de arma e aos guarda-chuvas, que detesto... E é por isso que arrasto comigo, a cada mudança de casa, dezenas de volumes que muito provavelmente nunca hei de ler — comprei-os, mas não me agradaram; ofereceram-mos e ficaram na prateleira; salvei-os de algum lugar onde estavam ao abandono —, mas que insisto em guardar com carinho.

A Ana é uma leitora assídua e passa as horas de almoço na companhia de livros. Encontrei-a no jardim da Cordoaria a ler "Lua de Sangue", um romance de Nora Roberts. Na semana anterior, tinha lido "Porto de Abrigo", um outro livro da mesma autora e contou-me que em casa tinha um terceiro livro de Nora à sua espera. Estes romances tinham sido oferecidos à instituição para crianças onde a mãe da Ana trabalha e, por não se adequarem aos mais novos, tinham o lixo como destino. Convencida de que a filha os apreciaria, resgatou-os a tempo e foi assim que a Ana pôde descobrir uma autora de quem nunca ouvira falar e que a surpreendeu muitíssimo. Uma história com final feliz que se encaixa perfeitamente no espírito do Acordo Fotográfico!

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

João & Saul Bellow


Num destes fins de semana, andava a passear no jardim do Passeio Alegre, na Foz, quando o João passou por mim num passo estugado e eu, que reconheço capas da Quetzal a milhas, percebi que levava na mão um livro do Saul Bellow. Lamentei não me ter cruzado com ele noutra ocasião, num momento em que estivesse a ler, mas resignei-me enquanto o via distanciar-se. Continuei o meu passeio em direção ao mar e foi uns metros mais à frente, na esplanada do mítico Bonaparte, que voltei a encontrá-lo, já sentado e a ler na companhia de uma Guinness. Foi perfeito!

O João, que é produtor musical e cofundador da Wasser Bassin Records, é também um comprador impulsivo de livros. Lê muito e compra de tudo: ensaios, romances, livros de viagens, entre outros. Porque me senti identificada com esta forma de ser leitor, mostrei-lhe o que eu própria andava a ler por aqueles dias — "Se Isto é um Homem", de Primo Levi — e foi ele que fez notar que ambos estávamos a ler autores judeus. 

O seu primeiro contacto com a obra se Saul Bellow aconteceu através do conto "Him With is Foot in His Mouth". Por ter gostado do que leu, procurou mais informação sobre a obra do autor e foi então que o livro "Morrem Mais de Mágoa" lhe chamou a atenção. Interessado pelo tema do romance, que aborda sobretudo a natureza das relações humanas, acabou por comprá-lo. E era por esse livro que o João se apressava quando passou por mim naquela tarde. Como me disse no início da nossa conversa, procurava um lugar onde pudesse lê-lo tranquilamente. 

domingo, 14 de outubro de 2012

Vicente prefere os portugueses


O Vicente lê muito e dá prioridade aos autores portugueses. Os livros, é ele quem os os compra e escolhe-os sobretudo pelos títulos, mas também há os que a sobrinha lhe oferece e os que vai trocando com ela. Já leu grande parte das obras de Camilo Castelo Branco e gosta muito de tudo o que Júlio Magalhães escreveu. Por outro lado, não aprecia nada José Saramago nem José Rodrigues dos Santos. Quando o encontrei no Parque da Cidade, estava a ler o último trabalho de Maria Elisa, "Amar e Cuidar", um livro onde a jornalista relata a sua viagem pelo mundo do cancro. 

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

António & Konsalik


Encontrei-o sentado na margem do Douro, de frente para o lugar onde o rio e o mar se encontram. O António, que se definiu como "um leitor nas horas vagas", diz que lê porque não consegue estar sem fazer nada. Naquela tarde ociosa de domingo ocupou-se com a leitura de "Mistério da Pedra Verde", um romance de Konsalik, autor cujas histórias o fascinam. 

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Último sapore di sale, sapore di mare


Hoje, no Porto, esteve um daqueles dias abafados e húmidos em que a morrinha e o nevoeiro não nos largam, colando-se à pele, ao cabelo, à roupa... Enfim, um dia de outono, como é suposto, mas que a mim não me apetece nada. Por isso me sabe tão bem publicar esta fotografia tirada há pouco mais de uma semana e que muito provavelmente encerrará o ciclo de imagens de "banhistas-leitores" registadas este ano. Nesse dia sem nuvens no horizonte e sol ainda quente conheci o Vincenzo, que desfrutava da leitura de "O Anjo Perdido" numa praia da Foz. A escolha do romance aconteceu por acaso: primeiro cruzou-se com umas referências na net que lhe despertaram a atenção; mais tarde viu-o exposto numa livraria e  acabou por comprá-lo. Quando questionado sobre os seus hábitos de leitura, o Vincenzo confirmou-me que é um consumidor assíduo de livros (dois a três por mês), mas lamentou o facto de serem caros. 

domingo, 7 de outubro de 2012

Na praia com Sherlock Holmes


Naquele domingo de manhã o Jorge dirigiu-se, como é hábito, ao local onde compra o Jornal de Notícias na expectativa de poder ler a Notícias Magazine na praia. Infelizmente, um qualquer lapso fez com que todos os exemplares do jornal tivessem sido distribuídos sem a revista e isso levou-o a procurar uma leitura alternativa. Foi então que se lembrou de uma coleção de livros com histórias do Sherlock Holmes, também distribuídos com o Jornal de Notícias há dois ou três anos, e que ainda tinha lá por casa. "Pequeno, prático, leve, com uma história que prende a atenção, ótimo para trazer para a praia", foram as palavras escolhidas pelo Jorge para justificar a sua escolha quando lhe perguntei o que lia e lhe pedi uma foto para o Acordo Fotográfico. 

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Iona e os oceanos


Num mercado completamente tomado por grandes ideias de negócio, altamente competitivo e onde todos se batem ferozmente pela conquista de novos consumidores, como fazer para implementar um novo negócio, conquistar clientes e ter sucesso? Escrito por dois gurus do mundo dos negócios, "Blue Ocean Strategy" é o livro que pretende responder a estas questões ao mesmo tempo que revoluciona as estratégias a adotar na criação de novos mercados. Era este o livro que a Iona — uma jovem romena de Bucareste, que veio estudar para a Faculdade de Economia do Porto — estava a ler numa belíssima tarde de outono (quem diria?!) em Matosinhos.