Gosto destas coincidências. Quando iniciei a viagem em direção à China, tinha uma única fotografia para publicar — esta — e havia dias que me queixava da escassez de leitores. No entanto, assim que parti, os leitores foram surgindo e as suas fotos acabaram por passar à frente desta, tirada no jardim da Cordoaria. Na altura, o que eu não podia imaginar é que esta imagem, mais de um mês depois de capturada, iria permitir-me fechar o périplo chinês e voltar às fotos portuguesas através de um fio condutor chamado Oscar Wilde. A Maria, que foi a última leitora que fotografei a oriente, lia os seus contos; o Rui, que fotografei mesmo antes de partir, lia "O Retrato de Dorian Grey". Contou-me o Rui que havia pouco mais de um ano que tinha retomado o interesse pela leitura e que decidira dedicar-se aos clássicos. Escolheu Oscar Wilde por estar referenciado como um autor fundamental e optou pel' "O Retrato de Dorian Grey" por ser o seu único romance. A escolha não o desiludiu: estava a gostar imenso.
sábado, 30 de março de 2013
terça-feira, 26 de março de 2013
Maria & Oscar Wilde, no 798
Há em Pequim uma espécie de Lx Factory gigantesca. Comparada a Greenwich Village ou ao SoHo, em Nova Iorque, o Bairro das Artes 798 (também conhecido por 798 Art Zone ou 798 Art District) instalou-se numa área da capital chinesa onde, na década de 50 dos século passado, funcionou um complexo industrial para fabrico de armamento. Esse complexo foi originalmente erguido com a colaboração da antiga Alemanha de Leste a cargo da qual ficaram os projetos de arquitetura, daí a maior parte dos edifícios ter claras influências do estilo Bauhaus. 798 era o número de uma das unidades de produção desta enorme estrutura fabril, que começou a entrar em decadência no início dos anos 90 com as reformas políticas levadas a cabo por Deng Xiaoping. Por essa altura, a crescente comunidade artística de Pequim procurava um local para instalar-se, e os inúmeros edifícios que ficaram desocupados revelaram-se adequados para albergá-los, assim como às obras que estavam dispostos a criar. Hoje em dia funcionam neste complexo, que ocupa muitos milhares de metros quadrados, inúmeras galerias de arte, oficinas, gabinetes de design e arquitetura, ateliers de estilistas, editoras, livrarias (uma das quais, propriedade da neta de Mao Tse Tung), lojas de decoração, cafés, restaurantes e clubes noturnos. O Bairro das Artes 798 é, em suma, o local mais em voga de Pequim, o spot preferido pela emergente comunidade "Bo-Bo" (bourgeois-bohemian) da capital, e tem como anfitrião mais conhecido o polémico artista plástico Ai Weiwei. Eu tive a sorte de poder lá passar uma tarde inteira!
A pausa para o almoço fez-se num restaurante de estilo europeu com menu italiano. A decoração, muito trendy, era simples, despojada. Predominavam os tijolos vermelhos do edifício antigo, o aço escovado, a cozinha aberta para a sala de refeições e o branco de algumas paredes decoradas com cartazes de exposições e eventos. As grandes janelas permitiam a entrada de luz natural. Em cima da mesa, os individuais em papel exibiam fotografias de clientes ilustres. Entre eles, descortino Durão Barroso, identificado na legenda como Presidente da Comissão Europeia. O ambiente é distinto e jovem. Predominam os clientes ocidentais.
Atrás de mim sentou-se, sozinha, a Maria, uma russa que vive e trabalha em Pequim. Lia enquanto aguardava pela salada que pedira. O livro era uma edição russa dos "Contos de Oscar Wilde". Disse-me a Maria que já os tinha lido quando era criança, mas que quis recordar o fundamento moral das histórias que não entendeu plenamente na altura por ser demasiado nova.
domingo, 24 de março de 2013
A Guerra dos Tronos em Pequim
Uma das maiores evidências, quando se passa algum tempo na China, é que naquele país trabalha-se muito. Não vou tecer considerações sobre as condições de trabalho, as remunerações auferidas ou a maior ou menor qualidade de vida daí resultante. Fico-me, apenas, por esta constatação e volto a sublinhar: na China trabalha-se muitíssimo! No dia a dia, pelas ruas das cidades que visitei, essa capacidade de trabalho, entre muitas outras coisas, reflete-se no comércio, que é pujante: há milhares de vendedores de rua, mercados cobertos ou a céu aberto, uma panóplia interminável de negócios de restauração, todo o tipo de lojas de comércio tradicional, franchisings de todas as grandes marcas globais (das mais luxuosas às mais corriqueiras) e um sem número de shoppings abarrotados de clientes. Foi num desses shoppings — o Raffles City do bairro de Dongzhimen, em Pequim — que conheci o Eric, um americano que lia o primeiro volume de "A Game of Thrones". Tinha acabado recentemente de ver a série televisiva e um amigo emprestara-lhe o livro. Por estar ainda muito no início (tinha lido pouco mais de 50 páginas) não me pôde dizer se o livro era ou não superior à série.
quarta-feira, 20 de março de 2013
O Poder do Hábito
Na mesma sala de embarque do aeroporto de Hong Kong onde fotografei o Rou, abordei um outro leitor chamado Zhou. Zhou lia "The Power of Habit", um livro que revela as mais recentes descobertas científicas sobre os hábitos: por que existem, como funcionam e como podemos mudá-los. No entender de Zhou, o tema é de grande interesse uma vez que, para o bem ou para o mal, os hábitos nos definem, daí ser importante saber identificá-los e, se necessário, mudá-los.
segunda-feira, 18 de março de 2013
Um pequeno leitor, em Hong Kong
Senti-o pela primeira vez em Kowloon. Tínhamos de nos ir embora e eu não conseguia afastar os olhos da deslumbrante paisagem urbana do outro lado da baía. Hong Kong by night viciou-me como nenhuma outra cidade antes. Na manhã seguinte, chego ao aeroporto e o nó da véspera adensa-se na garganta: a viagem está a chegar ao fim. Permito-me ceder um pouco ao cansaço. A mochila parece pesar o dobro, embora carregue quase o mesmo. Não partilho com a N. o que me vai na alma. Afinal, temos ainda pela frente dois dias em Pequim e as férias só terminam no momento em que me sentar à secretária, no trabalho. Não vou dar parte fraca.
Na sala de embarque, algumas filas à minha frente, senta-se uma família: o pai, a mãe, o filho. No país onde os miúdos parecem nascer acoplados a todo o tipo de telemóveis, tablets e consolas, este filho traz antes um livro que abre e começa a ler. Comento com a N.: "Seria o primeiro pequeno leitor fotografado na China." E lá fui eu. Dirijo-me aos pais para constatar que não dominam o inglês. Repito-me uma e outra vez (in english!), sempre sorridente, para mostrar que venho por bem. Acabo por me fazer entender e é-me concedida a fotografia. Antes, entrego o marcador e posso ver que o livro em causa é de banda desenhada, a primeira BD do Acordo Fotográfico. Acho que o Rou Yan Tong ficou muito bem na fotografia. Terei eu ficado bem nos retratos que o pai me fez enquanto eu lhe retratava o filho? Vou ver se me enviam as fotos da China.
PS - As fotografias já estão disponíveis aqui e aqui. :)
PS - As fotografias já estão disponíveis aqui e aqui. :)
quinta-feira, 14 de março de 2013
O Segredo de Yuki, em Hong Kong
Uma vez chegadas a Hong Kong a nossa primeira visita, de manhã bem cedo, foi ao Victoria Peak, talvez a atração turística mais importante da cidade. O acesso a esta montanha, que tem mais de 550 metros de altura, é feito através de um funicular inaugurado em 1888, que se assemelha muito aos nossos velhinhos elétricos e cujo grau de inclinação, à subida e à descida, faz disparar os níveis de adrenalina. Uma vez chegadas ao topo, percebemos por que razão esta é uma das melhores maneiras para começar a explorar Hong Kong: a vista é deslumbrante! À nossa frente estendem-se os excêntricos arranha-céus, que albergam todo o tipo de empresas, sobretudo da área das finanças; depois o imenso porto e, para além deste, no lado oposto da baía, o frenético bairro de Kowloon, onde acabámos por passar a maior parte do nosso tempo. Naquela manhã de céu limpo, sol e temperaturas primaveris as horas correram velozes, enquanto nos passeámos pelos jardins onde, a cada curva, se descobria por entre a vegetação mais uma paisagem que não podia deixar de ser apreciada com espanto e fotografada dezenas de vezes.
Mal tínhamos acabado de sair do funicular, já eu comentava com a N.: "O que era mesmo bom era encontrar alguém a ler aqui em cima". E mal acabo de proferir esta frase, olho para a direita, para dentro de um Starbucks, e vejo uma mulher a ler junto a uma das grandes janelas do café. A Vicky é japonesa e vive em Hong Kong, onde é dona de casa. O livro que tinha consigo era uma edição japonesa d' "O Segredo", um livro de autoajuda escrito por Rhonda Byrne e editado em 2006, que já terá vendido cerca de 20 milhões de exemplares em todo o mundo. Verdadeiramente surpreendente foi saber que esta não era a primeira vez que Vicky lia o livro. Gosta tanto da sua mensagem que o lê uma vez por mês e quando a fotografei estava em plena décima leitura.
terça-feira, 12 de março de 2013
No Jardim Luís de Camões, em Macau
Em Macau há um jardim que tem o nome do nosso poeta. E se havia lugar onde eu queria fotografar alguém a ler era ali. Mal entrámos vi-o e a emoção foi muita. Aproximei-me: "Do you speak english?". Respondeu que não, abanando a cabeça. "Português?", arrisquei. Outro gesto negativo. E eu que queria tanto, mas tanto aquela fotografia... Investi de novo e, com uma mistura de palavras soltas — photo, you, read, book — e gestos enfáticos, pedi-lhe que me deixasse fotografá-lo. Sorriu, aquiesceu e retomou a leitura enquanto eu pressionava o disparador várias vezes. Tremiam-me as mãos e falhava o foco. Só depois de ter conseguido pelo menos uma boa imagem é que lhe entreguei o marcador. E mais uma vez palavras soltas: "photo, you, internet". Ver-se-á algum dia no Acordo Fotográfico? É provável que eu nunca venha a saber.
domingo, 10 de março de 2013
Angel Liu, a 10 mil metros de altitude
Durante toda a viagem, a N. revelou-se uma ótima spotter de leitores e foi ela quem me chamou a atenção para a miúda sentada à nossa frente que estava a ler. Por aquela altura, o voo já levava umas duas horas, a agitação da refeição já tinha passado e o pessoal de bordo apagara as luzes da cabine para que os passageiros pudessem relaxar um pouco. Éramos as únicas ocidentais no A320 da Juneyao Airlines que fazia a ligação entre Xangai e Macau, e o facto de me ter levantado para abordar uma estranha em inglês e fotografá-la gerou alguma curiosidade.
A Angel Liu e o seu namorado (ou marido, não pude perceber) são de Ningbo, na província de Zhejiang, uma das cidades mais antigas da China, cuja história remonta a 4800 anos antes de Cristo. Iam passar uns dias a Macau antes de seguirem para a Tailândia e consumir, desta forma, a única semana de férias que têm durante todo o ano. Não imaginam o seu espanto quando lhes expliquei que em Portugal temos pelo menos 22 dias úteis de férias...
Durante o voo, a Angel Liu aproveitou para ler um livro de autoajuda da escritora mais popular de Taiwan — Tiffany Chang —, cujas histórias simples ajudam os leitores a redescobrirem-se. Traduzido literalmente, o título seria algo como "Meet Yourself in the Future" (Encontre-se no Futuro). Quem voltou a encontrar-se fomos nós, dois dias mais tarde, na ruelas intrincadas de Macau. Na verdade, foi a Angel Lin quem me abordou, porque eu não a teria reconhecido. O momento também ficou registado.
sábado, 9 de março de 2013
Nagasáqui em Xangai
Quando me sentei ao seu lado, num dos terminais do Shanghai Pudong International Airport, a folhear com toda a naturalidade a edição de fevereiro da Time Out Shanghai, escrita de fio a pavio em Mandarim, o Quansheng não se conteve e perguntou-me com muita delicadeza, em inglês: "Desculpe, consegue ler tudo o que aí está?". Soltei uma gargalhada, e respondi-lhe, divertida, que não, que tinha comprado a revista porque achara a capa magnífica e porque era uma recordação que levava da cidade. Depois, foi a minha vez de lhe perguntar onde tinha aprendido a falar tão bem inglês, ao que me respondeu que tinha estudado na Nova Zelândia. Foi então que lhe confidenciei estar surpreendida com o facto do inglês ser razoavelmente dominado pela maioria das pessoas com quem tinha contactado até então, o que contrariava a ideia que se tem a ocidente de que a comunicação com os chineses é difícil. Ainda assim, minutos antes, tinha abordado uma jovem que lia numa sala de embarque e que não percebeu uma palavra do que lhe disse. Não pude, por isso, fazer a foto...
Daí a uns instantes, movida por um desejo repentino, levantei-me para ir até uma loja comprar chocolates e no regresso ao meu lugar deparei-me com o Quansheng a ler. Agradeci à vida, que teima em fazer-me as vontades, e fiz a fotografia. O livro era uma edição chinesa de "Nagasáqui", um romance do francês Eric Faye que tem lugar naquela cidade japonesa e que reflete sobre o individualismo e a solidão.
De Shanghai, o Quansheng partiu para a sua terra natal, numa provincia chinesa distante. Eu e a N. rumámos para Macau.
quinta-feira, 7 de março de 2013
Estão todos convidados!
É com grande alegria que vos convido a visitar a exposição do Acordo Fotográfico, na linda cidade de Guimarães. O ideal seria poder contar com a vossa presença no dia da inauguração mas, caso não possam vir já, terão até meados de junho para passar pelo Espaço Cultural Portas da Vila.
terça-feira, 5 de março de 2013
He Lei, no Templo do Buda de Jade
O Templo do Buda de Jade é o templo mais importante de cidade de Xangai. Fundado em 1822, alberga dois budas de jade branco trazidos da Birmânia. É aqui que os habitantes da cidade, assim como os eventuais turistas chineses, realizam os mais variados rituais, desde cerimónias diárias comuns, cerimónias em honra de familiares falecidos ou cerimónias estipuladas pelo calendário budista.
No dia em que o visitei, o templo tinha sido invadido por uma multidão. O novo ano chinês — ano da Serpente — começara havia menos de uma semana e muitos rituais tinham de ser cumpridos: orar perante as imagens de Buda, ofertar velas em forma de flor de lótus, queimar incenso e resmas de delicados papéis coloridos depois de cuidadosamente preenchidos. O ruído das gentes, o cheiro a incenso, o fumo denso e as cores vibrantes típicas dos templos budistas têm, em almas ocidentais nada habituadas a este género de ambientes, um efeito atordoante.
Muito perto da entrada do templo, numa ala logo à esquerda, passei pela porta de uma sala comprida onde, num contraste com a agitação que ia lá fora, reinava o silêncio quase absoluto. Aí, monges sentados atrás de guichés atendiam utentes do templo. Foi nesse "oásis" que vi a He Lei, visivelmente grávida e de rosto sereno, concentrada nas páginas de um livro sobre os primórdios do budismo.
sábado, 2 de março de 2013
Carlos & The Founding Fathers
Para além de contar com o famoso Sky Walk — o mais alto observatório de todo o mundo, situado a quase 500 metros de altura e totalmente transparente, que permite uma deslumbrante vista panorâmica sobre a cidade —, o Shanghai World Financial Center integra escritórios, um hotel de luxo, um centro de congressos, um centro para a cultura e os media e um centro comercial. Foi aí, na zona da restauração, que passei pelo Carlos, que estava sentado ao balcão de um restaurante japonês.
O Carlos é um americano-colombiano que trabalha em Xangai e que naquele sábado tinha por companhia, à hora do almoço, o livro "American Sphinx: The Character of Thomas Jefferson", uma biografia que vai de encontro ao fascínio que sente por tudo o que diz respeito aos fundadores dos Estados Unidos e pela Revolução Americana.
sábado, 23 de fevereiro de 2013
Natália & Oleg Roy
Adoro andar de comboio, por isso não hesitei em optar pelo Beijing/Shanghai Express Train em detrimento do avião para viajar entre aquelas duas cidades. A viagem, feita a trezentos quilómetros por hora, demorou cinco horas, tempo mais que suficiente para observarmos quem vinha na carruagem, ouvirmos as suas conversas sem perceber absolutamente nada, apreciarmos a paisagem coberta de neve durante boa parte do trajeto e ficarmos mortinhas de fome quando se aproximou a hora do almoço e toda a gente puxou pelo farnel. A carruagem inundou-se de aromas exóticos que nos abriram o apetite e nos obrigaram a ir até ao bar para ver o que poderíamos comer. Foi nesse trajeto entre o meu lugar e a carruagem do bar que passei pela Natália, uma russa de Yaroslavl que também viajava pela China na companhia de uma amiga. Aliás foi essa amiga que nos serviu de intérprete, porque a Natália não fala inglês. Só com essa ajuda pude ficar a saber que lia um romance de Oleg Roy, um dos mais populares escritores russos, e que o livro, numa tradução literal, tinha o seguinte título: "Husband, Wife and Lover" ("Marido, Mulher e Amante").
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Yang & Anni Baobei
Depois de termos passado o dia a visitar o Templo do Lama, o Templo de Confúcio e de termos deambulado por ruas apinhadas de gente que compravam incenso e amuletos ou comiam iguarias servidas por vendedores ambulantes, eu, a N. e a M. pegámos nas nossas bicicletas e fomos em busca de um restaurante para um almoço já tardio. Seriam umas 17h quando nos sentámos para comer. A meio da refeição a M. recebeu um telefonema da rádio portuguesa com a qual colabora. Pediam-lhe que entrasse em direto na emissão para uma entrevista, o que nos obrigou a procurar um local mais calmo. No restaurante, famílias inteiras, grupos de jovens e empregados levantavam as vozes numa algaraviada incompreensível e ensurdecedora, que ainda estranho. Se há coisa que se constata assim que se chega à China é que os chineses falam muito alto.
Voltámos, a pedalar, a um café tranquilo e aconchegante em Guozijian (rua do Templo de Confúcio), onde já tínhamos feito uma pausa nesse mesmo dia. Tinha comentado com as minhas companheiras de passeio que aquele seria o local ideal para a minha primeira foto de um leitor em território chinês, mas não tive essa sorte. À falta de gente agarrada a livros, fotografarei detalhes do espaço e os dois ou três gatos mimados que por ali vivem. Mas mais uma vez tudo aconteceu como se já estivesse escrito. Como se eu tivesse de voltar àquele lugar. Graças à entrevista em direto da M. — que falaria para Portugal num programa matutino, quando em Pequim o dia estava a acabar — eu pude conhecer a Yang.
Sentada no fundo da sala, na companhia de uma bebida quente e abrigada das temperaturas negativas que faziam lá fora, a Yang lia um romance da sua autora favorita: a chinesa Anni Baobei. Porque teve a oportunidade de estudar em Londres, foi-nos possível entendermo-nos perfeitamente em inglês. Contou-me que o livro versava sobre uma espécie de história de amor, mas também sobre religião, nomeadamente o budismo. A meu pedido, arriscou uma tradução literal do título para inglês: "Sleep in Emptiness and Peace" (algo como "Dormir no Vazio e em Paz").
Deixei-lhe um marcador, claro. E também um sincero desejo de que pudesse, um dia, ver este post. Na China o acesso ao Blogspot e ao Facebook são proibidos. Mas pelo menos por email farei um esforço para que nos mantenhamos em contacto.
O Acordo Fotográfico em alta no Brasil
Depois de ter sido referenciado no Don't Touch My Moleskine, um dos blogues mais influentes do Brasil, o Acordo Fotográfico foi destacado na revista digital brasileira TPM (Trip Para Mulheres) e mais recentemente na rádio CBN (que me parece fazer parte do universo Globo). Agradeço a todos esta ajuda preciosa na divulgação do Acordo Fotográfico!
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
Nino, a caminho de Xangai
Quando cheguei ao aeroporto de Istambul tinha um par de horas de espera pela frente antes de embarcar no voo para Pequim. Como não poderia deixar de ser, o free shop revelou-se uma ótima distração, com direito à prova de guloseimas turcas e tudo. Depois dirigi-me para a sala de embarque e quando me sentei, olhei em redor e comentei com a minha amiga/companheira de viagem: "Agora o que vinha mesmo a calhar era aparecer alguém a ler". E é nesse momento que chega o Nino, que se senta mesmo ao nosso lado, abre a mochila e saca de um livro!
O Nino é siciliano e trabalha em Xangai. Regressava de uma visita à sua terra natal, Palermo, e trazia a mochila carregada de livros que tencionava ler nos próximos tempos. Porque está particularmente interessado em perceber o que se passa com a moeda única, a maior parte dos títulos era sobre o Euro e a crise económico-financeira na Europa. Quando o fotografei lia "La trapolla dell'euro. La crisi, le cause, le conseguenze, la via d'uscita".
O Nino é siciliano e trabalha em Xangai. Regressava de uma visita à sua terra natal, Palermo, e trazia a mochila carregada de livros que tencionava ler nos próximos tempos. Porque está particularmente interessado em perceber o que se passa com a moeda única, a maior parte dos títulos era sobre o Euro e a crise económico-financeira na Europa. Quando o fotografei lia "La trapolla dell'euro. La crisi, le cause, le conseguenze, la via d'uscita".
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Anouch, a caminho do Recife
Foi no aeroporto da Portela, em Lisboa, que me cruzei com a Anouch, uma jovem francesa de Bordéus que aguardava pelo avião que a levaria até ao Recife, no Brasil. Quando me disse que falava português, achei que a Anouch seria descendente de portugueses, mas na verdade esta jovem aprendeu a falar o nosso idioma porque quis e fê-lo através da internet. Enquanto aguardava pelo embraque, lia "Des Fleurs Pour Algernon", um romance de ficção científica publicado em 1959. O livro conta a história de um jovem deficiente mental a quem um cientista propõe uma cirurgia radical que lhe permitirá adquirir novas capacidades intelectuais. Tudo corre bem e o protagonista do romance começa a tirar partido da sua nova condição, até ao dia em que a ameaça de uma regressão começa a pairar sobre si...
domingo, 10 de fevereiro de 2013
Pedro & Orwell
O Pedro define-se como um leitor habitual, embora não seja frequente ter tempo para ler. Num noite fria, em Campanhã, encontrei-o num desses preciosos momentos, pelos quais tanto anseia, em que pode perder-se num livro. Lia "A Quinta dos Animais", de George Orwell, um título que diz adequar-se ao estado das coisas em Portugal.
Depois chegou o Alfa, que nos levou a ambos para sul. Saí na Gare do Oriente. Foi a minha primeira escala a caminho do Império do Meio.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
Decidir num piscar de olhos
Primeiro achei que o casal que vi a ler ao longe não era português e abordei-o em inglês. E o que é que justifica esta atitude? O facto de ter estado a falar com a Iris, que é alemã, uns minutos antes? Ou o ambiente da Ribeira do Porto pejado de turistas? Por muitas justificações que arranje, o que me influenciou foi algo tão superficial e falacioso quanto o aspeto do Manuel a da Virgínia. Julguei-os pelo seu ar e foi com surpresa que ouvi o Manuel dizer que era português.
Depois, também à medida que me aproximava deles, meti na cabeça que o livro que a Virgínia tinha nas mãos era um guia de viagens e quando me aproximei ainda mais achei que afinal era um dicionário. E por que raio tirei esta conclusão quando nem tive a oportunidade de olhar convenientemente para a capa do livro? Parti, portanto, do princípio que só o Manuel estava a ler um livro daqueles que interessam ao Acordo Fotográfico e foi ao Manuel que expliquei o que pretendia, ignorando por completo a Virgínia. Nem mesmo quando o Manuel perguntou à Virginia se se importava de ser fotografada me apercebi que estava a esquecê-la injustamente.
Por último, a cereja no topo do bolo: quando chegou o momento de entregar o marcador do Acordo Fotográfico fui indelicada ao ponto de entregar um marcador apenas ao Manuel. Pior: só me dei conta do que fiz muitas horas depois, já em casa, a ver as fotografias no computador. Por tudo isto, cara Virgínia, se ler este texto peço-lhe que aceite as minhas desculpas. Espero bem que voltemos a encontrar-nos um dia para poder entregar-lhe o marcador a que tem direito.
Só depois de tiradas as fotos, quando perguntei ao Manuel o que lia, é que me foi explicado que ambos liam o mesmo texto filosófico: Ensaios de Amor, de Alain de Botton. O Manuel estava a lê-lo em português pela primeira vez, e a Virgínia estava a relê-lo numa edição romena. Tinham decidido ler o mesmo livro ao mesmo tempo para terem a oportunidade de trocarem impressões em cima do acontecimento (como ilustra a foto), partilhando assim um tema de conversa.
Volto, portanto, ao início deste texto. Afinal, eu não estava assim tão errada quando à existência de "algo estrangeiro" naquele quadro. Por muito difícil que fosse identificar esse "algo", houve um conjunto de pequeníssimos elementos que o meu cérebro detetou à distância e interpretou, permitindo-me numa fração de segundos construir uma primeira impressão. E desculpem-me este texto secante, mas acho tudo isto fascinante! A culpa é deste livro, que li há alguns anos mas cujos ensinamentos não esqueço.
Por último, a cereja no topo do bolo: quando chegou o momento de entregar o marcador do Acordo Fotográfico fui indelicada ao ponto de entregar um marcador apenas ao Manuel. Pior: só me dei conta do que fiz muitas horas depois, já em casa, a ver as fotografias no computador. Por tudo isto, cara Virgínia, se ler este texto peço-lhe que aceite as minhas desculpas. Espero bem que voltemos a encontrar-nos um dia para poder entregar-lhe o marcador a que tem direito.
Só depois de tiradas as fotos, quando perguntei ao Manuel o que lia, é que me foi explicado que ambos liam o mesmo texto filosófico: Ensaios de Amor, de Alain de Botton. O Manuel estava a lê-lo em português pela primeira vez, e a Virgínia estava a relê-lo numa edição romena. Tinham decidido ler o mesmo livro ao mesmo tempo para terem a oportunidade de trocarem impressões em cima do acontecimento (como ilustra a foto), partilhando assim um tema de conversa.
Volto, portanto, ao início deste texto. Afinal, eu não estava assim tão errada quando à existência de "algo estrangeiro" naquele quadro. Por muito difícil que fosse identificar esse "algo", houve um conjunto de pequeníssimos elementos que o meu cérebro detetou à distância e interpretou, permitindo-me numa fração de segundos construir uma primeira impressão. E desculpem-me este texto secante, mas acho tudo isto fascinante! A culpa é deste livro, que li há alguns anos mas cujos ensinamentos não esqueço.
domingo, 3 de fevereiro de 2013
Português com sotaque
Descemos a Rua da Alfândega em direção ao Cais Estiva, na Ribeira do Porto, e foi o meu pai que me chamou a atenção para a menina que lia, sentada num banco, de frente para o Douro. "É estrangeira", disse eu, e estava convencida disso até que a contornei, me aproximei de frente e verifiquei que o livro que lia era português. Quando começámos a conversar, a leitora que eu teimava em achar estrangeira revelou falar português com um sotaque especial, que tinha um travo a Brasil e a algo mais. Vim a descobrir que a Iris é alemã e aprendeu a falar português em Salvador da Baía, onde teve a oportunidade de participar num intercâmbio. Disse-me que aprendeu assim e que não quer de forma nenhuma perder o sotaque. Mais recentemente, veio para Portugal trabalhar como au pair e depois empregou-se num restaurante. Mas a estadia entre nós está quase a chegar ao fim: a Iris regressa a casa ainda este mês. Hoje, aproveitou a maravilhosa tarde de sol para ler ao ar livre na ribeira, onde os edifícios antigos lhe fazem lembrar o Pelourinho, em Salvador. O livro era uma edição antiga de "A Lua de Joana", que comprou numa feira porque estava sem nada para ler.
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