domingo, 21 de abril de 2013

Ler é muito divertido!
To read is a lot of fun!


Para a Liana e para o Enio os momentos de leitura são sempre de puro divertimento, com direito a gargalhas e tudo. Foram essas gargalhadas, a forma como partilhavam o pufe e a comunhão em torno do livro que me levaram a pedir-lhes a fotografia. A Liana contou-me que quando o Enio era mais pequeno frequentavam mais a biblioteca e que naquela tarde só estavam por lá porque o Enio tinha insistido muito para que fossem. É que para além dos livros, que ele adora, há também na biblioteca muitos brinquedos disponíveis. E a Liana, obviamente, não pôde negar esse prazer ao filho porque para além dos momentos divertidos que passam juntos, considera os livros aliados extraordinários no desenvolvimento da imaginação e das competências de comunicação do seu filhote. "Lulu e o Pinheirinho Orfão" era o livro que liam quando os fotografei.


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To Liana and Enio reading time is always full of fun, with laughter included. It was that laughter, the way they shared the puff and communion around the book that lead me to ask permission to photograph them. Liana told me that when Enio was smaller they went more often to the library and in that afternoon they were there only because Enio insisted a lot to go. The thing is, beyond books that he loves, there are lots of toys available at the library. And obviously Liana couldn't deny that pleasure to her son because besides the fun time they have together, she believes books are extraordinary allies in developing the imagination and the communication skills of her little boy. When I photographed them, they were reading "Lulu e o Pinheirinho Orfão".
Translated by Marisa Silva

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Pai e filha numa cruzada pelos livros
Father and daughter on a crusade for books


Uma das muitas vantagens de ter começado o Acordo Fotográfico é ter vindo a conhecer, ao longo deste ano e meio, gente tão ou mais apaixonada que eu pelo mundo dos livros. O Miguel é um desses casos, uma vez que o gosto pela leitura o levou a criar o www.winkingbooks.com, a maior plataforma portuguesa de troca de livros, totalmente gratuita. No seu entender, os livros foram escritos para ser lidos e não para ficarem parados nas prateleiras lá de casa. Por isso, procura pô-los a circular e fazer do Winkingbooks uma enorme biblioteca ao alcance de qualquer um. Desafio ainda maior, no entanto, parece ser o de estimular a sua filha Clara a ler, "uma cruzada", como diz, já que os interesses dos miúdos são muitos e a atenção facilmente se dispersa. Nesse esforço para que a Clara se dedique mais aos livros, costuma levá-la à Hora do Conto, na Biblioteca Municipal Almeida Garrett. Foi depois dessa atividade que os fotografei: o Miguel lia "O Espião Que Saiu do Frio", que estava na sua longa lista de livros por ler; a Clara lia "O Karaté Te Dou Eu", que tem o rato Geronimo Stilton como principal protagonista. 


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One of the many advantages of having started Acordo Fotográfico is that I met, in one and a half year, people as much or even more in love than me with the world of books. Miguel is one of them, once his taste for reading made him create www.winkingbooks.com, the biggest Portuguese book exchange platform, totally free. His point of view is that books were written to be read and not to be left in shelves at home. So, he tries to move them around and to transform Winkingbooks in a huge library accessible to everyone. However, a bigger challenge than this one seems to be to stimulate his daughter Clara to read, “a crusade”, as he says, because kids have lots of interests and their attention often wanders. In the effort to try that Clara spends more time reading, he usually takes her to Story Time at the Almeida Garrett Municipal Library. It was after that activity that I photographed them: Miguel was reading "The Spy Who Came in from the Cold", that was in his long list of books to read; Clara was reading "The Karate Mouse", with Geronimo Stilton as the main character.
Translated by Marisa Silva

terça-feira, 16 de abril de 2013

Na biblioteca com Calvin & Hobbes
At the library with Calvin & Hobbes


A Flávia e o Ico costumam levar as filhas Yasmin e Maria Eduarda à Biblioteca Municipal Almeida Garrett para que assistam à hora do conto, um momento de que as meninas gostam muito. O estímulo à leitura é algo que os preocupa bastante enquanto educadores e acreditam que a biblioteca tem um papel muito importante a desenvolver nesse campo. No entanto,  ambos acham que deveria haver mais atividades como a Hora do Conto à disposição das famílias, sobretudo aos fins de semana, altura em que os pais têm maior disponibilidade para acompanhar os miúdos. Quando os conheci, o Ico e as filhas liam aquele que é já um clássico da banda desenhada: "Há Monstros Debaixo da Cama". Um volume cheio de aventuras de Calvin & Hobbes, que o Plano Nacional de Leitura recomenda. 
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Flávia and Ico usually go with their daughters Yasmin and Maria Eduarda to Story Time at Almeida Garrett Municipal Library, a moment that the girls really enjoy. As parents Flavia and Ico are quite worried about stimulating their daughters to read and they believe that the library performs an important role in that area. They both think that more activities like Story Time should be available to the families, especially on weekends, when most parents have more time to spend with their kids. When I met them, Ico and the girls were reading a comic book that is already a classic: "Something Under The Bed Is Drooling". A volume full of adventures of Calvin & Hobbes, witch is recommended by the Reading National Plan.
Translated by Marisa Silva

domingo, 14 de abril de 2013

Quatro leitores e uma bruxa
Four readers and a witch


A cena era ternurenta. O Abel lia um livro de grande formato e alternava a voz do narrador com a voz da protagonista da história, representando com grande empenho e convicção o papel de Bruxa Mimi, que andava às voltas com o seu novo computador mágico. A Eva, o Noam e o Adam, por seu turno, disputavam o colo do Abel num esforço para estar o mais possível em cima do livro e não perder pitada da história. O entusiasmo era de tal ordem que a minha interrupção, embora breve, gerou algum descontentamento. O Adam interrompe a minha conversa com o Abel e, forçando o pai a virar o rosto para o livro, diz: "Vá láááá!". É que não havia tempo a perder: uma vez terminada a história, os quatro iam para a sala de audiovisuais da Biblioteca Municipal Almeida Garrett ver o filme "O Pedro e o Lobo".


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The scene was full of tenderness. Abel was reading a large size book and alternated the voice of the narrator with the voice of the main character, representing with great commitment and conviction the role of Winnie the Witch, who was round and round her new magical computer. Eva, Noam and Adam, on the other hand, disputed the lap of Abel in a effort to be as close as possible to the book and don't miss a thing of the story. The enthusiasm was such that my interruption, although short, generated some discontentment. Adam interrupts my conversation with Abel and, forcing his father to turn the face to the book, says: "Caaaamooon!". There was no time to loose: once the book was finished, the four should go to the multimedia room of the Almeida Garrett Municipal Library to see the movie "Peter and the Wolf".
Translated by Marisa Silva

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Frans de visita ao Porto
Frans in Porto


Para os meus padrões, o início daquela tarde era bastante frio e ventoso, mas para Frans, que é holandês, o pouco sol que fazia era suficiente para se sentar num dos bancos do jardim do Palácio de Cristal e desfrutar de um livro. Frans e a mulher estavam de visita a Portugal pela segunda vez. Há dois anos exploraram Lisboa, Cascais e o Estoril. Desta vez voltaram para passar cinco dias no Porto. Fotografei-o quando faziam uma pausa no passeio, momento que o Frans aproveitou para ler algumas páginas de "De Sophie". O livro, escrito por Patrick O'Brian, narra a história do capitão de um pequeno navio de guerra que zelava pelos navios mercantes que faziam a rota do Egipto nos tempos de Napoleão. Um romance histórico, estilo literário de que Frans gosta particularmente.

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For me, the beginning of that sunny afternoon was rather cold and windy, but to Frans, a Dutch, it was warm enough to sit on one of the few benches of the gardens of Palácio de Cristal and enjoy a book. Frans and his wife were visiting Portugal for the second time. Two years ago they travelled through Lisbon, Cascais and Estoril, so, this time they came back to spend five days in Porto. I photographed him when they were just taking a break and Frans took some time to read a few pages of "De Sophie". The book, written by Patrick O'Brian, tells the story of a captain of a small war vessel that watched over the merchant ships on their way to Egypt in the age of Napoleon. A historical novel, the literary style that Frans particularly enjoys.

terça-feira, 9 de abril de 2013

A dicotomia
The dichotomy


O Rui não é frequentador habitual da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, mas deu-se a coincidência de lá estar num dos dias que eu tinha estipulado para fotografar no interior do edifício. Leitor de tudo um pouco, gosta de poesia em particular. Quando o fotografei, lia uma coletânea de poemas sobre a cidade do Porto organizada por Eugénio de Andrade. À pergunta sobre o porquê daquela escolha, o Rui respondeu: "Pela dicotomia Porto/Lisboa. Porque quem faz versos sobre Lisboa, escreve fados; e quem faz versos sobre o Porto escreve poesia".

Hoje, pela primeira vez no Acordo Fotográfico, segue-se uma tradução do texto para inglês, um passo importante que não seria possível sem a gentil colaboração da Marisa Silva, a quem muito agradeço.


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Rui isn't a frequent user of Almeida Garrett Municipal Library, but by coincidence he was there in one of the days that I have scheduled to photograph inside the building. Reader of a bit of everything, he likes poetry in particular. When I photographed him, he was reading a collection of poems about the city of Porto organized by Eugénio de Andrade. When I asked him the reason for that choice, Rui answered: "Because of the dichotomy Porto/Lisboa. Because someone that makes verses about Lisbon, writes fados*; and someone that makes verses about Porto writes poetry".
Translated by Marisa Silva

*Translator's Note: Fado - a typical song from Portugal.

domingo, 7 de abril de 2013

Um pequeno devorador de histórias


O Dinis é frequentador assíduo da Biblioteca Municipal Almeida Garrett. Vai pelas mãos da tia Mafalda e do amigo Nuno e juntos assistem à muito concorrida Hora do Conto. Mas antes disso há sempre tempo para a leitura de uma história a três. O Dinis escolhe os livros, entrega-os ao Nuno e enquanto este lê, absorve cada palavra, cada detalhe, assim mesmo, com este ar compenetradíssimo que se vê na fotografia. Diz a tia Mafalda que o Dinis adora ler, que é incapaz de adormecer sem que lhe seja contada uma história e que fica fascinado por todas elas. Na manhã em que os fotografei a escolha literária tinha recaído sobre "Piggy Wiggy Pirata", um título que tem como protagonista um simpático porquinho aventureiro e que é recomendado pelo Plano Nacional de Leitura.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

O mundo maravilhoso das bibliotecas


Gosto de bibliotecas. Da biblioteca dos meus pais, que me formou; da minha modesta biblioteca, lentamente construída; das bibliotecas que vejo em certas casas de revista, que ocupam todas as paredes de uma divisão, com estantes do chão ao teto; da Biblioteca Nacional, em Lisboa, cujo cheiro é impossível esquecer e de tantas outras, públicas ou privadas, por onde fui passando. Quando olho para as minhas estantes sinto o conforto das boas recordações. Ali está gente com quem aprendi muito. E quando estou perante uma grande biblioteca, daquelas com milhares de livros, a quase infinita possibilidade de escolha perturba-me. Se pudesse ler tudo o que me apetecesse, suspeito que jamais saberia por onde começar.

As bibliotecas que frequentei muitas vezes quando era estudante — nomeadamente, a velhinha Biblioteca Municipal de Portimão, que funcionava no decrépito edifício do antigo tribunal — já nada têm a ver com as modernas estruturas de hoje. Onde antes havia livros trancados em estantes inacessíveis e salas de leitura inóspitas, há hoje edifícios modernos, concebidos de raiz para cumprirem esta maravilhosa função de albergar livros e convidar todos a entrar e por lá se demorarem. Disse-me no outro dia a bibliotecária mais entusiasta que alguma vez conheci, que as bibliotecas municipais foram, em Portugal, uma das maiores conquistas do pós-25 de abril. Também elas protagonizaram, à sua maneira silenciosa, uma revolução e deram um contributo fundamental para a consolidação da nossa democracia. 

No interior destes edifícios — quais cidades dentro das cidades — cruza-se gente de todas as condições sociais, de todas as idades, com os mais variados interesses e motivações, de diferentes raças ou credos. Ali impera a liberdade de chegar, vaguear por entre as estantes, espreitar as lombadas, pegar num livro qualquer e sentar-se confortavelmente para ler o tempo que se quiser, num espaço pensado para tal ao mais ínfimo pormenor, sem ter de prestar contas a ninguém. Um luxo tremendo! Um luxo que não valorizamos o suficiente e que os tempos de austeridade cega que vivemos ameaçam seriamente...

Por todas estas razões, acalentava há já algum tempo retratar leitores dentro de um destes espaços e a belíssima Biblioteca Municipal Almeida Garrett (BMAG), no Porto, era onde mais desejava fotografar. Tive o privilégio de me ser concedida a autorização solicitada e estou em condições de começar a partilhar convosco o resultado do trabalho que tenho vindo a desenvolver naquele espaço. O meu muito obrigada aos responsáveis pela biblioteca e aos leitores que tenho interrompido.

O primeiro leitor que fotografei foi o Manuel e, modéstia à parte, acho que não poderia ter começado melhor: a fotografia está muito bonita. Este senhor de porte distinto é um frequentador assíduo da BMAG, assim como da outra biblioteca municipal do Porto, a de S. Lázaro. Nutre um gosto muito especial pelos livros e aprecia em particular o sossego que lhe proporcionam. Quando o conheci tinha sobre a mesa o índice geral d' "O Tripeiro" — revista fundada em 1908 — assim como um volume onde estavam arquivados os números editados em 1969. O Manuel considera o trabalho desta publicação muito válido e formidável a consulta que permite.

sábado, 30 de março de 2013

Entre a China e Portugal há um fio condutor


Gosto destas coincidências. Quando iniciei a viagem em direção à China, tinha uma única fotografia para publicar — esta — e havia dias que me queixava da escassez de leitores. No entanto, assim que parti, os leitores foram surgindo e as suas fotos acabaram por passar à frente desta, tirada no jardim da Cordoaria. Na altura, o que eu não podia imaginar é que esta imagem, mais de um mês depois de capturada, iria permitir-me fechar o périplo chinês e voltar às fotos portuguesas através de um fio condutor chamado Oscar Wilde. A Maria, que foi a última leitora que fotografei a oriente, lia os seus contos; o Rui, que fotografei mesmo antes de partir, lia "O Retrato de Dorian Grey". Contou-me o Rui que havia pouco mais de um ano que tinha retomado o interesse pela leitura e que decidira dedicar-se aos clássicos. Escolheu Oscar Wilde por estar referenciado como um autor fundamental e optou pel' "O Retrato de Dorian Grey" por ser o seu único romance. A escolha não o desiludiu: estava a gostar imenso.

terça-feira, 26 de março de 2013

Maria & Oscar Wilde, no 798


Há em Pequim uma espécie de Lx Factory gigantesca. Comparada a Greenwich Village ou ao SoHo, em Nova Iorque, o Bairro das Artes 798 (também conhecido por 798 Art Zone ou 798 Art District) instalou-se numa área da capital chinesa onde, na década de 50 dos século passado, funcionou um complexo industrial para fabrico de armamento. Esse complexo foi originalmente erguido com a colaboração da antiga Alemanha de Leste a cargo da qual ficaram os projetos de arquitetura, daí a maior parte dos edifícios ter claras influências do estilo Bauhaus. 798 era o número de uma das unidades de produção desta enorme estrutura fabril, que começou a entrar em decadência no início dos anos 90 com as reformas políticas levadas a cabo por Deng Xiaoping. Por essa altura, a crescente comunidade artística de Pequim procurava um local para instalar-se, e os inúmeros edifícios que ficaram desocupados revelaram-se adequados para albergá-los, assim como às obras que estavam dispostos a criar. Hoje em dia funcionam neste complexo, que ocupa muitos milhares de metros quadrados, inúmeras galerias de arte, oficinas, gabinetes de design e arquitetura, ateliers de estilistas, editoras, livrarias (uma das quais, propriedade da neta de Mao Tse Tung), lojas de decoração, cafés, restaurantes e clubes noturnos. O Bairro das Artes 798 é, em suma, o local mais em voga de Pequim, o spot preferido pela emergente comunidade "Bo-Bo" (bourgeois-bohemian) da capital, e tem como anfitrião mais conhecido o polémico artista plástico Ai Weiwei. Eu tive a sorte de poder lá passar uma tarde inteira!

A pausa para o almoço fez-se num restaurante de estilo europeu com menu italiano. A decoração, muito trendy, era simples, despojada. Predominavam os tijolos vermelhos do edifício antigo, o aço escovado, a cozinha aberta para a sala de refeições e o branco de algumas paredes decoradas com cartazes de exposições e eventos. As grandes janelas permitiam a entrada de luz natural. Em cima da mesa, os individuais em papel exibiam fotografias de clientes ilustres. Entre eles, descortino Durão Barroso, identificado na legenda como Presidente da Comissão Europeia. O ambiente é distinto e jovem. Predominam os clientes ocidentais.

Atrás de mim sentou-se, sozinha, a Maria, uma russa que vive e trabalha em Pequim. Lia enquanto aguardava pela salada que pedira. O livro era uma edição russa dos "Contos de Oscar Wilde". Disse-me a Maria que já os tinha lido quando era criança, mas que quis recordar o fundamento moral das histórias que não entendeu plenamente na altura por ser demasiado nova.

domingo, 24 de março de 2013

A Guerra dos Tronos em Pequim


Uma das maiores evidências, quando se passa algum tempo na China, é que naquele país trabalha-se muito. Não vou tecer considerações sobre as condições de trabalho, as remunerações auferidas ou a maior ou menor qualidade de vida daí resultante. Fico-me, apenas, por esta constatação e volto a sublinhar: na China trabalha-se muitíssimo! No dia a dia, pelas ruas das cidades que visitei, essa capacidade de trabalho, entre muitas outras coisas, reflete-se no comércio, que é pujante: há milhares de vendedores de rua, mercados cobertos ou a céu aberto, uma panóplia interminável de negócios de restauração, todo o tipo de lojas de comércio tradicional, franchisings de todas as grandes marcas globais (das mais luxuosas às mais corriqueiras) e um sem número de shoppings abarrotados de clientes. Foi num desses shoppings — o Raffles City do bairro de Dongzhimen, em Pequim — que conheci o Eric, um americano que lia o primeiro volume de "A Game of Thrones". Tinha acabado recentemente de ver a série televisiva e um amigo emprestara-lhe o livro. Por estar ainda muito no início (tinha lido pouco mais de 50 páginas) não me pôde dizer se o livro era ou não superior à série. 

quarta-feira, 20 de março de 2013

O Poder do Hábito


Na mesma sala de embarque do aeroporto de Hong Kong onde fotografei o Rou, abordei um outro leitor chamado Zhou. Zhou lia "The Power of Habit", um livro que revela as mais recentes descobertas científicas sobre os hábitos: por que existem, como funcionam e como podemos mudá-los. No entender de Zhou, o tema é de grande interesse uma vez que, para o bem ou para o mal, os hábitos nos definem, daí ser importante saber identificá-los e, se necessário, mudá-los.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Um pequeno leitor, em Hong Kong


Senti-o pela primeira vez em Kowloon. Tínhamos de nos ir embora e eu não conseguia afastar os olhos da deslumbrante paisagem urbana do outro lado da baía. Hong Kong by night viciou-me como nenhuma outra cidade antes. Na manhã seguinte, chego ao aeroporto e o nó da véspera adensa-se na garganta: a viagem está a chegar ao fim. Permito-me ceder um pouco ao cansaço. A mochila parece pesar o dobro, embora carregue quase o mesmo. Não partilho com a N. o que me vai na alma. Afinal, temos ainda pela frente dois dias em Pequim e as férias só terminam no momento em que me sentar à secretária, no trabalho. Não vou dar parte fraca.

Na sala de embarque, algumas filas à minha frente, senta-se uma família: o pai, a mãe, o filho. No país onde os miúdos parecem nascer acoplados a todo o tipo de telemóveis, tablets e consolas, este filho traz antes um livro que abre e começa a ler. Comento com a N.: "Seria o primeiro pequeno leitor fotografado na China." E lá fui eu. Dirijo-me aos pais para constatar que não dominam o inglês. Repito-me uma e outra vez (in english!), sempre sorridente, para mostrar que venho por bem. Acabo por me fazer entender e é-me concedida a fotografia. Antes, entrego o marcador e posso ver que o livro em causa é de banda desenhada, a primeira BD do Acordo Fotográfico. Acho que o Rou Yan Tong ficou muito bem na fotografia. Terei eu ficado bem nos retratos que o pai me fez enquanto eu lhe retratava o filho? Vou ver se me enviam as fotos da China.

PS - As fotografias já estão disponíveis aqui e aqui. :)

quinta-feira, 14 de março de 2013

O Segredo de Yuki, em Hong Kong


Uma vez chegadas a Hong Kong a nossa primeira visita, de manhã bem cedo, foi ao Victoria Peak, talvez a atração turística mais importante da cidade. O acesso a esta montanha, que tem mais de 550 metros de altura, é feito através de um funicular inaugurado em 1888, que se assemelha muito aos nossos velhinhos elétricos e cujo grau de inclinação, à subida e à descida, faz disparar os níveis de adrenalina. Uma vez chegadas ao topo, percebemos por que razão esta é uma das melhores maneiras para começar a explorar Hong Kong: a vista é deslumbrante! À nossa frente estendem-se os excêntricos arranha-céus, que albergam todo o tipo de empresas, sobretudo da área das finanças; depois o imenso porto e, para além deste, no lado oposto da baía, o frenético bairro de Kowloon, onde acabámos por passar a maior parte do nosso tempo. Naquela manhã de céu limpo, sol e temperaturas primaveris as horas correram velozes, enquanto nos passeámos pelos jardins onde, a cada curva, se descobria por entre a vegetação mais uma paisagem que não podia deixar de ser apreciada com espanto e fotografada dezenas de vezes. 

Mal tínhamos acabado de sair do funicular, já eu comentava com a N.: "O que era mesmo bom era encontrar alguém a ler aqui em cima". E mal acabo de proferir esta frase, olho para a direita, para dentro de um Starbucks, e vejo uma mulher a ler junto a uma das grandes janelas do café. A Vicky é japonesa e vive em Hong Kong, onde é dona de casa. O livro que tinha consigo era uma edição japonesa d' "O Segredo", um livro de autoajuda escrito por Rhonda Byrne e editado em 2006, que já terá vendido cerca de 20 milhões de exemplares em todo o mundo. Verdadeiramente surpreendente foi saber que esta não era a primeira vez que Vicky lia o livro. Gosta tanto da sua mensagem que o lê uma vez por mês e quando a fotografei estava em plena décima leitura.

terça-feira, 12 de março de 2013

No Jardim Luís de Camões, em Macau


Em Macau há um jardim que tem o nome do nosso poeta. E se havia lugar onde eu queria fotografar alguém a ler era ali. Mal entrámos vi-o e a emoção foi muita. Aproximei-me: "Do you speak english?". Respondeu que não, abanando a cabeça. "Português?", arrisquei. Outro gesto negativo. E eu que queria tanto, mas tanto aquela fotografia... Investi de novo e, com uma mistura de palavras soltas — photo, you, read, book — e gestos enfáticos, pedi-lhe que me deixasse fotografá-lo. Sorriu, aquiesceu e retomou a leitura enquanto eu pressionava o disparador várias vezes. Tremiam-me as mãos e falhava o foco. Só depois de ter conseguido pelo menos uma boa imagem é que lhe entreguei o marcador. E mais uma vez palavras soltas: "photo, you, internet". Ver-se-á algum dia no Acordo Fotográfico? É provável que eu nunca venha a saber. 

domingo, 10 de março de 2013

Angel Liu, a 10 mil metros de altitude


Durante toda a viagem, a N. revelou-se uma ótima spotter de leitores e foi ela quem me chamou a atenção para a miúda sentada à nossa frente que estava a ler. Por aquela altura, o voo já levava umas duas horas, a agitação da refeição já tinha passado e o pessoal de bordo apagara as luzes da cabine para que os passageiros pudessem relaxar um pouco. Éramos as únicas ocidentais no A320 da Juneyao Airlines que fazia a ligação entre Xangai e Macau, e o facto de me ter levantado para abordar uma estranha em inglês e fotografá-la gerou alguma curiosidade. 

A Angel Liu e o seu namorado (ou marido, não pude perceber) são de Ningbo, na província de Zhejiang, uma das cidades mais antigas da China, cuja história remonta a 4800 anos antes de Cristo. Iam passar uns dias a Macau antes de seguirem para a Tailândia e consumir, desta forma, a única semana de férias que têm durante todo o ano. Não imaginam o seu espanto quando lhes expliquei que em Portugal temos pelo menos 22 dias úteis de férias... 

Durante o voo, a Angel Liu aproveitou para ler um livro de autoajuda da escritora mais popular de Taiwan — Tiffany Chang —, cujas histórias simples ajudam os leitores a redescobrirem-se. Traduzido literalmente, o título seria algo como "Meet Yourself in the Future" (Encontre-se no Futuro). Quem voltou a encontrar-se fomos nós, dois dias mais tarde, na ruelas intrincadas de Macau. Na verdade, foi a Angel Lin quem me abordou, porque eu não a teria reconhecido. O momento também ficou registado.

sábado, 9 de março de 2013

Nagasáqui em Xangai


Quando me sentei ao seu lado, num dos terminais do Shanghai Pudong International Airport, a folhear com toda a naturalidade a edição de fevereiro da Time Out Shanghaiescrita de fio a pavio em Mandarim, o Quansheng não se conteve e perguntou-me com muita delicadeza, em inglês: "Desculpe, consegue ler tudo o que aí está?". Soltei uma gargalhada, e respondi-lhe, divertida, que não, que tinha comprado a revista porque achara a capa magnífica e porque era uma recordação que levava da cidade. Depois, foi a minha vez de lhe perguntar onde tinha aprendido a falar tão bem inglês, ao que me respondeu que tinha estudado na Nova Zelândia. Foi então que lhe confidenciei estar surpreendida com o facto do inglês ser razoavelmente dominado pela maioria das pessoas com quem tinha contactado até então, o que contrariava a ideia que se tem a ocidente de que a comunicação com os chineses é difícil. Ainda assim, minutos antes, tinha abordado uma jovem que lia numa sala de embarque e que não percebeu uma palavra do que lhe disse. Não pude, por isso, fazer a foto...

Daí a uns instantes, movida por um desejo repentino, levantei-me para ir até uma loja comprar chocolates e no regresso ao meu lugar deparei-me com o Quansheng a ler. Agradeci à vida, que teima em fazer-me as vontades, e fiz a fotografia. O livro era uma edição chinesa de "Nagasáqui", um romance do francês Eric Faye que tem lugar naquela cidade japonesa e que reflete sobre o individualismo e a solidão. 

De Shanghai, o Quansheng partiu para a sua terra natal, numa provincia chinesa distante. Eu e a N. rumámos para Macau. 

quinta-feira, 7 de março de 2013

Estão todos convidados!


É com grande alegria que vos convido a visitar a exposição do Acordo Fotográfico, na linda cidade de Guimarães. O ideal seria poder contar com a vossa presença no dia da inauguração mas, caso não possam vir já, terão até meados de junho para passar pelo Espaço Cultural Portas da Vila.

terça-feira, 5 de março de 2013

He Lei, no Templo do Buda de Jade


O Templo do Buda de Jade é o templo mais importante de cidade de Xangai. Fundado em 1822, alberga dois budas de jade branco trazidos da Birmânia. É aqui que os habitantes da cidade, assim como os eventuais turistas chineses, realizam os mais variados rituais, desde cerimónias diárias comuns, cerimónias em honra de familiares falecidos ou cerimónias estipuladas pelo calendário budista. 

No dia em que o visitei, o templo tinha sido invadido por uma multidão. O novo ano chinês — ano da Serpente — começara havia menos de uma semana e muitos rituais tinham de ser cumpridos: orar perante as imagens de Buda, ofertar velas em forma de flor de lótus, queimar incenso e resmas de delicados papéis coloridos depois de cuidadosamente preenchidos. O ruído das gentes, o cheiro a incenso, o fumo denso e as cores vibrantes típicas dos templos budistas têm, em almas ocidentais nada habituadas a este género de ambientes, um efeito atordoante.

Muito perto da entrada do templo, numa ala logo à esquerda, passei pela porta de uma sala comprida onde, num contraste com a agitação que ia lá fora, reinava o silêncio quase absoluto. Aí, monges sentados atrás de guichés atendiam utentes do templo. Foi nesse "oásis" que vi a He Lei, visivelmente grávida e de rosto sereno, concentrada nas páginas de um livro sobre os primórdios do budismo.

sábado, 2 de março de 2013

Carlos & The Founding Fathers


Não foi há muito tempo que vi, num dos canais por cabo, um documentário sobre a conceção e construção do Shanghai World Financial Center, o arranha-céus mais alto de toda a China, que demorou onze anos a ser erguido. Lembro-me de ter pensado, na altura, que gostaria muito de poder visitar este edifício impressionante, assim como gostaria muito dar a volta ao mundo ou ir à lua. Estava, portanto, muito longe de poder imaginar que este desejo alguma vez se concretizaria...

Para além de contar com o famoso Sky Walk — o mais alto observatório de todo o mundo, situado a quase 500 metros de altura e totalmente transparente, que permite uma deslumbrante vista panorâmica sobre a cidade —, o Shanghai World Financial Center integra escritórios, um hotel de luxo, um centro de congressos, um centro para a cultura e os media e um centro comercial. Foi aí, na zona da restauração, que passei pelo Carlos, que estava sentado ao balcão de um restaurante japonês. 

O Carlos é um americano-colombiano que trabalha em Xangai e que naquele sábado tinha por companhia, à hora do almoço, o livro "American Sphinx: The Character of Thomas Jefferson", uma biografia que vai de encontro ao fascínio que sente por tudo o que diz respeito aos fundadores dos Estados Unidos e pela Revolução Americana.