terça-feira, 18 de março de 2014

Salvador da Bahia - Fernando & Olavo de Carvalho


No que diz respeito ao uso do material fotográfico no Brasil, as recomendações foram muitas. Desde o não usar de todo, usar apenas em locais com muita gente ou usar só quando não houvesse muita gente por perto... Decidi usá-lo com discrição e saí todos os dias de casa com duas câmaras na mochila: a velhinha Canon e a Sony compacta. Até agora tem corrido tudo muito bem, mas tenho de admitir que na primeira manhã em que enfrentei Salvador ia um pouco apreensiva. Queria muito encontrar leitores e queria muito fazer a minha primeira fotografia em terra — já que as anteriores foram todas tiradas a cerca de onze mil metros de altitude —, mas havia demasiadas condicionantes. O acaso, porém, encarregou-se de me proporcionar a melhor situação possível para a primeira foto, uma espécie de "toma lá um leitor num sítio perfeito para ver se relaxas". Ao sair do local onde estava alojada — um apartamento num condomínio fechado no Alto de Itaigara, bairro distinto — deparei-me com o Fernando a ler nas áreas comuns do edifício, perto da entrada, onde corria uma aragem e fazia sombra. O Fernando é Paulista, de Ribeirão Preto, mas vive em Salvador há vinte e dois anos. Geólogo e Físico de formação é, também, praticante de Astrologia Helenística e, no seu entender, o desenvolvimento da Astrologia, da Física e da Geologia só tem significado diante da Filosofia. Era essa a razão pela qual lia "A Filosofia e Seu Universo", do consagrado filósofo brasileiro Olavo de Carvalho, livro que lhe permitia rever os principais conceitos da Filosofia. Leitor habitual, o Fernando reconhece, no entanto, que hoje em dia lê menos por causa do seu trabalho como consultor. Ainda assim, diz que ainda consegue ler cerca de 25 livros por ano, de estilos literários muito variados, mais uma série de trabalhos académicos. Obrigada Fernando por este momento. Acabou por me dar sorte. Desde que aterrei no Brasil fotografei leitores todos os dias!

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Concerning the use of photographic equipment in Brazil, there were lots and lots of recommendations. Since not using it at all, only using it in places with many persons around or only use it when few persons were nearby… I decided to use it discreetly and everyday I got out with two cameras on my backpack: the old Canon and the compact Sony. So far everything is going great, but I have to admit that on the first morning I faced Salvador I was a little apprehensive. I really wanted to find readers and do my first picture on shore - since the previous ones have been taken about 35 thousand feet high - but there were too many constraints. Chance, however, took care of giving me the best possible situation for the first picture, kind of "here you have a reader in a perfect place so you can relax". Leaving the place I was staying — an apartment in a closed condo in Alto Itaigara, a distinct neighborhood — I came across with Fernando reading in the common areas of the building, near the entrance, where there was a light breeze and shadow. Fernando is from Ribeirão Preto, São Paulo, but has been living in Salvador for twenty-two years. Geologist and Physicist by training, he is also experienced in Hellenistic Astrology and, in his point of view, the development of Astrology, Physics and Geology only has meaning together with Philosophy. That was why he was reading "A Filosofia e Seu Universo" (Philosophy and its Universe”), from the devoted Brazilian philosopher Olavo de Carvalho, a book that allowed him to review the main concepts of Philosophy. Usual reader, Fernando admits, however, that nowadays he reads less because of his work as a consultant. Still, he says he can read about 25 books a year, from various different styles, plus a series of academic papers. Thank you Fernando for this moment. You gave me luck. Since I landed in Brazil I photographed readers everyday!

domingo, 16 de março de 2014

Raquel & Richard Bach no voo TAM 3152
Raquel & Richard Bach on flight TAM 3152


Salvador da Bahia estava cada vez mais perto. Depois de um voo de 10 horas entre Madrid e o Rio de Janeiro faltava uma última viagem, de hora e meia apenas, para regressar à cidade que foi o meu primeiro amor brasileiro. Do outro lado da coxia, perto do meu lugar, sentou-se a Raquel que se dirigia a Salvador para assistir à festa dos 15 anos da sua neta, uma espécie de baile de debutante que, na América do Sul, é um evento muito importante na vida de uma jovem mulher e da sua família. A viagem da Raquel já tinha começado em São Paulo, onde vive, e a leitura pareceu-lhe uma boa forma de ocupar essas horas vagas. Tinha consigo "Ilusões", de Richard Bach, um livro que o marido já tinha lido e recomendado. Deste autor, a Raquel recorda ter lido "Fernão Capelo Gaivota" há muitos anos, quando era adolescente, mas admite que não é o estilo literário com que mais se identifica. Os livros de que a Raquel gosta mesmo são os que contam histórias verídicas e dentro desse género aquele que mais a marcou foi "Cisnes Selvagens". 

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Salvador da Bahia was getting closer. After a 10 hours flight between Madrid and Rio de Janeiro I had just one more journey ahead, of only one hour and a half, to return to the city that was my first Brazilian love. Across the aisle, near my seat, was Raquel heading to Salvador to be at her granddaughter 15 years old party, a sort of debutants ball, that in South America, is a very important event in the life of a young woman and her family. Raquel's journey had begun in São Paulo, where she lives, and reading seemed a good way to occupy those free hours. She Richard Bach’s “Illusions" with her, a book her husband had read and recommended. From this author, Raquel remembers reading “Jonathan Livingstone Seagull" many years ago, when she was a teenager, but admits that it isn't the literary style she most identifies with. The books Raquel really likes are the ones which tell true stories and the one which struck her the most was "Wild Swans".

sexta-feira, 14 de março de 2014

Gustavo & Mr. Penumbra no voo IB 6025
Gustavo and Mr. Penumbra on flight IB 6025


O voo entre Madrid e o Rio de Janeiro já levava umas horas. O almoço tinha sido servido, a romaria às casas de banho tinha sido retomada, os filmes iam começar a ser exibidos e eu sabia que faltava muito pouco para que apagassem as luzes. Se queria fazer uma fotografia, tinha de ser naquele momento. Levantei-me para me obrigar a mexer as pernas e caminhei pela coxia. Num A340-600 cheio que nem um ovo, com mais de 300 passageiros a bordo, tinha de haver alguém a ler. E não me enganei. Uns lugares mais à frente do meu fui encontrar o Gustavo, um brasileiro que regressava a casa depois de umas férias em Marraquexe e no sul de Espanha. Estava absorto na leitura d' "A Livraria 24 Horas de Mr. Penumbra" (cuja edição portuguesa tem o título "A Livraria Noite e Dia do Senhor Sombra"), um thriller bem humorado sobre as aventuras de um web designer que se vê desempregado por causa da crise financeira e arranja trabalho numa estranha livraria onde acontecem coisas deveras intrigantes. "Gosto de entrar em livrarias e fossar livros. Como trabalho com computadores achei que este seria divertido e peguei".
Mais fotografias deste leitor no Facebook.

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The flight between Madrid and Rio de Janeiro had already a few hours. Lunch had been served, the pilgrimage to the bathrooms had been resumed, movies were about to start and I knew that lights would soon be turned off. If I wanted to take a photo, it had to be at that moment. I got up to force myself to move my legs and walked along the aisle. In an A340-600 full as an egg with over 300 passengers on board, there had to be someone reading. And I wasn't mistaken. A few seats in front of mine I found Gustavo, a Brazilian returning home after holidays in Marraquexe and in the south of Spain. He was absorbed in the reading of “Mr. Penumbra’s 24-Hour Bookstore”, a humorous thriller about the adventures of a web designer who finds himself unemployed because of the financial crisis and finds work in a weird bookstore where very intriguing things happen. "I like going to bookstores and nuzzle through books. Since I work with computers I thought this would be fun and I grabbed it".
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quarta-feira, 12 de março de 2014

João & Kafka no voo IB 3107
João & Kafka on flight IB 3107


No dia 10 de março de 2014, pelas 6h55, o meu sonho começou a tornar-se realidade. Parti de Lisboa para Madrid, o primeiro de três voos que me levariam a Salvador da Bahía, no Brasil, país que escolhi para começar a minha pequena volta ao mundo lusófono, viagem tão desejada. Foi a bordo do A319 a caminho de Barajas que conheci o João. Também ele tinha pela frente uma longa viagem, por isso levou um livro consigo. Contou-me que hesitou entre os contos de Tchekhov e os de Kafka, mas optou por estes últimos. Lia o primeiro volume d' "Os Contos", com a chancela da Assírio & Alvim. Kafka é um autor que o João já conhece bem: para além de o ter estudado na faculdade, leu vários textos seus, nomeadamente "O Processo", "A Metamorfose" e "Amérika". "Gosto muito do autor", disse, "embora seja difícil. E ainda que estes contos sejam curtos, são muito densos".
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On March the 10th 2014, around 6:55 am, my dream started to come true. I left from Lisbon to Madrid, the first of three flights that would take me to Salvador da Bahia in Brazil, country that I chose to start my small journey around the world and the Portuguese speaking countries, a journey I long wished for. It was on board of an A319 on the way to Barajas that I met João. Like me he also had a long journey ahead of him, so he took a book with him. He told me he hesitated between Tchekhov and Kafka short stories, but he chose the last ones. So, he was reading the first volume of Kafka short stories, publisherd in Portugal by Assírio&Alvim. Kafka is an author João knows well: besides studying is work in college, he read several of his texts, namely "The Trial", “The Metamorphosis” and "Amérika". “I really like the author", he said, "although he is difficult. The tales are short, but they are very dense."

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Conversar sobre livros e esquecer a chuva
To talk about books and forget the rain


Mais um dia de chuva torrencial no Porto. Entro na carruagem do metro apinhada de gente, o ar saturado de humidade, as janelas embaciadas. Tento manter-me afastada dos guarda-chuvas molhados dos outros e procuro não incomodar ninguém com o meu. Detesto guarda-chuvas. Detesto! Algumas paragens mais adiante vaga um lugar. É a satisfação de me sentar por uns quinze minutos, pegar num livro e esquecer os pés molhados dentro das botas que cederam ao dilúvio. Só quero chegar a casa. Mas este fim de dia neurótico reserva-me um desenlace feliz: ao ocupar o meu lugar dou de caras com a Marlene que lê. Consumidora habitual de romances, romances históricos e livros de teor espiritual — os seus géneros literários preferidos —, a Marlene considera que ler é um prazer que tem grandes virtudes: permite que conheçamos histórias (reais ou fictícias) que servem de exemplos orientadores para as nossas vidas, amplia o nosso vocabulário e a nossa capacidade de expressão, estimula o nosso imaginário. "Idealizamos  os locais, os objectos, as personagens fisicamente e aí é que está a magia da leitura. Por vezes quando acabo um livro e começo outro, tenho dificuldade em desligar-me do anterior", diz. O livro que tinha consigo quando a conheci era "A Herança", de Danielle Steel. "É uma escritora de que gosto muito. Já li vários livros dela. A escrita é simples, com histórias intrigantes e empolgantes que envolvem sempre o amor", explica. O romance fora-lhe emprestado, algo normal para Marlene que troca frequentemente de livros com familiares, amigos e colegas de trabalho. Pedi-lhe que me dissesse qual é o livro da sua vida. Respondeu que talvez seja "A Sombra do Vento", de Carlos Ruiz Zafón. E a mensagem ou ensinamento mais importante que um livro já lhe transmitiu? A Marlene foi buscar a resposta a um outro livro de Zafón, "O Jogo do Anjo": "As boas palavras são bondades inúteis que não exigem sacrifício algum e recebem mais agradecimentos do que as verdadeiras bondades".
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It is another stormy day at Porto. I go into the crowded subway carriage, air is filled with moist, the windows misty. I try to stay away from other people wet umbrellas and try not to bother anyone with mine. I hate umbrellas. I hate it! A few stops further a seat is left vacant. The satisfaction to be able to seat for fifteen minutes, grab a book and forget the wet feet inside the boots that couldn't handle the flood. I just want to get home. But this neurotic finish for the day has a happy end: while taking my seat I find Marlene reading. A usual consumer of romances, historic novels and spiritual books - her favorite literary styles -, Marlene thinks reading is a pleasure with great virtues: it allow us to know (real or fictitious) stories which work as guiding examples for our lives, it enlarges our vocabulary and the ability to express ourselves, it stimulates our imagination. "We idealize the places, the objects, the characters in their physical form and that is where the magic of reading lies in. Sometimes when I finish a book and start another, I have troubles getting rid of the one before”, she says. The book she had with her when we met was "Legacy", by Danielle Steel. “It is a writer I like very much. I read several of her books. The writing is simple, with intriguing and exciting stories that always involve love", she explains. The novel was loaned to her, something common for Marlene who usually trades books with relatives, friends and co-workers. I asked her to tell me what is the book of her life. She answered that possibly is “Shadow of the Wind", by Carlos Ruiz Zafón. And the most important message or teaching given by a book? Marlene got the answer form another Zafón book, "The Angel’s Game": “Good words are useless kindness that demands no sacrifices and get more thanks than true kindness".
Translated by Marisa Silva

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Irena & Jonas Jonasson


Foi o Programa Erasmus que trouxe a Irena até ao Porto. Chegou enquanto estudante de Design Industrial, ficou para fazer o Mestrado e foi graças à sua tese que arranjou um trabalho em Guimarães, no âmbito da Capital Europeia da Cultura. Depois disso, decidiu continuar por cá a trabalhar como designer. E assim se passaram quatro anos. A Irena, que é austro-alemã, gosta de viver na Invicta, cidade que aprecia ainda mais quando faz sol. "Quando chove tanto como nos últimos dias não gosto. Para isso prefiro a minha terra onde em vez de chover, neva. Ao menos posso fazer ski ou snowboard", disse rindo. Mas no último domingo, todos tivemos direito a uma pausa no mau tempo e fomos brindados com um dia luminoso, quase sem nuvens. À semelhança do que eu fiz por uns minutos junto ao Douro, a Irena aproveitou-o para se espraiar um pouco ao sol nas traseiras da Reitoria da Universidade do Porto, um spot perfeito. Consigo tinha o livro "Der Undertjährige der aus dem Fenster stieg und verschwand", isto é, "O Centenário Que Fugiu Pela Janela e Desapareceu", caso sério de sucesso editorial. "Foi-me emprestado por uma amiga austríaca quando fui visitá-la", explicou. "Agora tenho três semanas para acabá-lo porque tenho de entregá-lo a um outro amigo austríaco que vai levá-lo de volta". Não é tão linda esta livre circulação de livros?

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Erasmus brought Irena to Porto. She arrived as an Industrial Designer student, stayed to do her master's degree and thanks to her thesis she got a job at Guimarães in 2012, when the city was hosting the European Capital of Culture events. After that, she decided to stick around working as a designer. And so four years went by. Irena, who is Austro-German, likes living at the Invicta, city she enjoys even more when it is sunny. "When it rains so much like in the past few days I don't like it. I prefer my homeland where it snows instead of raining. At least there I can ski or snowboard", she said laughing. But last Sunday, we were all entitled to a break from the bad weather and were awarded with a shinny day, almost cloudless. Like I did for a few minutes near Douro, Irena took the time to stretch out on the sun at the back door of Porto University Rectory, a perfect spot. She had with her the book "Der Undertjährige der aus dem Fenster stieg und verschwand", I mean "The Hundred-Year-Old Man Who Stepped Out Of The Window And Disappeared", a huge case of editorial success. “An Austrian friend borrowed it when I went for a visit her”, she explained. "Now I have three weeks to finish it because I will deliver it to another Austrian friend who will take it back". Isn't this free trading of books beautiful?

Translated by Marisa Silva