domingo, 26 de outubro de 2014
Phnom Penh — Anne Sofie e George R. R. Martin
domingo, 19 de outubro de 2014
Camboja — Deim em Agkor
Sabia (e ainda sei) muito pouco sobre o Reino do Camboja. E o pouco que sabia prendia-se quase exclusivamente com duas coisas: os Templos de Angkor, Património Mundial da Humanidade que sonhava conhecer um dia; e o regime sanguinário dos Khmer Vermelhos, liderados por Pol Pot, assunto que nos anos 70 e 80 do século passado foi muito mediatizado a ocidente. Até a indústria do cinema deu o seu contributo na denúncia do Genocídio Cambojano quando estreou, em 1984, o filme "Terra Sangrenta" (The Killing Fields"). Vi-o quando era adolescente e marcou-me. Agora que sei um pouco mais sobre este país e que chego a envergonhar-me da imagem redutora que trouxe na cabeça durante tantos anos, recordo as palavras sábias de Chimamanda Ngozi Adichie, a autora nigeriana que numa TedTalk se debruçou sobre o "perigo da história única" a que somos todos tão vulneráveis muito por influência dos media. Diz ela: "Esta é a forma como se cria uma história única. Descrevam um povo como uma coisa, como apenas uma coisa, uma e outra vez, e é nisso que ele se torna (...) A história única cria estereótipos e o problema dos estereótipos não é que sejam falsos, mas que sejam incompletos. Fazem com que uma história seja a única história". Daí o português manso, o espanhol aguerrido, o francês racista, o alemão nazi, o angolano corrupto, o brasileiro trafulha, o chinês porco, o muçulmano terrorista... Tenho dito a quem me pergunta sobre os supostos perigos da viagem que fiz, que o mundo não é o que se vê nos noticiários das 20h. O que esses noticiários mostram é uma parcela ínfima do que é a vida no nosso planeta, feito na sua maioria de gente que, com mais ou menos dificuldade, leva um dia a dia rotineiro, "normal", em muitos aspetos semelhante ao meu. Como também disse Chimamanda, "a consequência da história única é que (...) enfatiza o quanto somos diferentes, mais do que o quanto somos similares". Por tudo isto, se me pedissem um dia para apontar apenas uma virtude ao ato de viajar, julgo que diria que é a possibilidade de nos libertarmos das muitas histórias únicas que reduzem o nosso planeta caleidoscópico a uma lista de preconceitos. Ainda antes de aterrar em Siem Reap, e com grande surpresa, a minha "história única" acerca dos Khmer desmoronou-se e a palavra ganhou toda uma nova dimensão, altamente positiva, que me permitiu ver o Camboja sob uma nova luz. Não, Khmer não são apenas os seguidores do Partido Comunista que governaram o país entre 1975 e 1979 e que são responsáveis pela morte de quase três milhões de compatriotas. Khmer é o nome dado à língua que se fala no Camboja, mas é, principalmente, o nome do maior grupo étnico cambodjano, aquele que entre os séculos IX e XVI estabeleceu o riquíssimo e muito sofisticado Império Khmer, que teve como principal capital a bela Angkor, a maior cidade pré-industrial do mundo. Aí, numa área de cerca de três mil quilómetros quadrados, ergueram-se mais de cem monumentos angkorianos e estabeleceu-se o coração político, cultural e religioso de uma das maiores civilizações do sudoeste asiático. Tive a felicidade de poder passar três dias a visitar alguns dos monumentos mais icónicos deste lugar extravagante. E fi-lo de bicicleta, apesar das temperaturas que chegaram a sensações térmicas na ordem dos 40 e muitos graus centígrados. A experiência superou todas as expectativas que eu poderia ter alimentado. Sim, o nascer do sol por detrás do templo principal, Angkor Wat, é de uma beleza esmagadora. Assim como é o por do sol precisamente no mesmo lugar. Mas o que dizer da liberdade que foi percorrer a selva luxuriante a pedal, por caminhos nem sempre alcatroados, e ver surgir no meio da vegetação o sorriso plácido de um gigantesco rosto de Buda esculpido na torre de um templo ou na abertura de uma muralha? E como descrever a emoção de entrar nesses templos, percorrer os corredores e as salas eximiamente decoradas com baixo-relevos de um requinte inesperado, subir ao topo dos edifícios e sentir-me pequeníssima perante a escala brutal daquela obra, a força do sol, a inclemência das temperaturas, o azul do céu, as grossas nuvens brancas imóveis, o verde da floresta e os sons que ela emana? "Que lindo! Que lindo!" era quase a única coisa que eu conseguia articular dia após dia, um monumento após o outro. Eu sei que sou dada a estes exageros e que muitos dos que já lá estiveram poderão não ter sentido o mesmo, mas visitar Angkor da maneira que o fiz — totalmente autónoma, ao meu ritmo, de acordo com o plano que eu mesma estabeleci, muitas vezes por trilhos desertos — não foi só um momento alto desta viagem; foi um dos momentos mais ricos da minha vida. E depois, aquilo que eu achava quase improvável: um cambojano a ler junto aos muros de Benteay Kdei, um templo budista construído em meados do século XII. "Sou funcionário do Parque Arqueológico de Angkor", disse-me, "e gosto de ler sobre a história do meu país, sobre os reis do Camboja e sobre estes templos em particular. Este livro é sobre a construção de dois dos monumentos mais importantes do Camboja: Angkor Wat e Bayon". E com isto, a estocada final numa outra história única: aquela em que se afirma que nos países pobres não se lê porque outras necessidades mais básicas se impõem.
quarta-feira, 8 de outubro de 2014
Liu no Laos, a caminho do Camboja
domingo, 28 de setembro de 2014
Vientiane, Houmphan e Khamnikhom
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
Luang Prabang — Oliver & Collin Cotterill
Antes de se unir ao rio Mekong, o rio Nam Khan desenha uma curva acentuada que contorna, à esquerda, a península de Luang Prabang. Quem se passeia pelas principais artérias da cidade — ruas Sisavangvong e Sakkaline — irá invariavelmente terminar alguma das suas caminhadas na colina que se ergue no local onde os dois rios de juntam. Nesse ponto alto existe um pequeno jardim relvado e com coqueiros altíssimos à sombra dos quais é comum encontrar gente sentada. Já lá tinha estado um dia e tinha ficado intrigada com o que estaria na outra margem, de maneira que regressei ao local decidida a pagar os 5000 Kips (0,47 Euros) para atravessar a ponte de bambu, que me pareceu saída de um filme do Indiana Jones. No outro lado encontrei, para além de dois templos budistas muito simples, uma aldeia atravessada por um caminho de terra batida. As casas tradicionais, construidas sobre estacas e preparadas para deixar passar as águas furiosas da época da chuva, alinhavam-se nos dois lados do caminho e albergavam uma pequena comunidade de pescadores, agricultores e tecelãs peritas na arte de fabricar as sedas mais finas e delicadas. Foi junto a um desses teares que fiquei mais tempo, entretida a observar os gestos repetitivos que dão origem a peças únicas. Ao regressar à outra margem e à proteção do coqueiral, sentei-me junto do Oliver, que lia. Sorvi uma garrafa inteira de água, levantei o chapéu para limpar o suor da testa, recuperei o fôlego e só depois meti conversa. Este alemão tinha tirado um mês para viajar pela Ásia. Havia 10 dias que andava de mochila às costas. Já tinha estado em Banguecoque e tinha chegado recentemente ao Laos. Leitor habitual daquilo a que chamou "clássicos modernos", lamenta não ler mais por falta de tempo. As férias serviam, portanto, para se redimir e tinha-lhe parecido muito boa ideia aproveitar para ler algo cuja ação se passasse no país que visitava. Era o caso de "Dr. Siri und Seine Totem" ("The Coroner's Lunch", na edição original), um dos policiais de Collin Cotterill, autor de nacionalidade inglesa e australiana que reside na Tailândia. A série que tem Dr. Siri, um médico legista, como principal personagem é totalmente passada no Laos e já arrecadou vários prémios literários. Os seus livros estão à venda nas poucas livrarias do país, assim como em quase todas as lojas de souvenirs e Cotterill tem a hombridade de fazer reverter os direitos de autor para projetos de solidariedade social a decorrer no Laos.
domingo, 21 de setembro de 2014
Luang Prabang, Touy e Winnie
Sobrenatural. Este é o primeiro adjetivo que me ocorre para vos descrever Luang Prabang. Há algo de sobrenatural em Luang Prabang. Há naquela pequena cidade, que foi capital do reino do Laos por mais de mil anos, uma energia única, uma força pura a que me entreguei sem reservas. E quando recordo os dias que lá vivi penso em leveza. Sim, acho que foi isso que aconteceu, andei por lá a levitar. Levitei sobre as ruas de velhas casas coloniais erguidas pelos franceses nos tempos da Indochina; sobre os montes de onde vi o pôr do sol cobrir a cidade de ouro; sobre os templos de telhados inclinados que se desdobram em sucessivas camadas até quase roçarem o chão; sobre as palmeiras verdíssimas e as frangipanis floridas, ainda mais belas quando em contraste com as nuvens negras da monção; sobre as filas de monges de vestes laranja que recolhem a comida ofertada pelos fiéis ao nascer do dia; sobre os rios Mekong e Khan, de águas castanhas, embora possa jurar que também os atravessei deslizando numa canoa ou pousando os meus pés, muito a medo, nas pontes de bambu. Levitei, apesar da canícula que a seguir ao almoço me empurrava com urgência para o ar condicionado do quarto de hotel, de onde só saía à tardinha para me dirigir, uma e outra vez, à margem do Mekong, o rio feitiço. Aí, a tomar uma BeerLao fresca, assistia sempre com espanto ao espetáculo da bruma que surgia do nada para se apoderar das fileiras infinitas de montanhas que, na riba em frente, se desenhavam até ao horizonte. Fui feliz em Luang Prabang, esse pedaço de alma do Laos. Fui feliz até nas pessoas que o acaso colocou no meu caminho, como aconteceu na primeira manhã que passei na cidade, quando entrei na modestíssima biblioteca pública: três pequenas salas, dois funcionários simpáticos, algumas estantes com livros laosianos, franceses e ingleses e cinco leitores. Foi aos noviços que pedi a fotografia, longe de adivinhar que iria vê-los todos os dias até à minha partida para Vientiane. O Touy (à esquerda) e o Winnie (à direita) vieram ambos de longe, de aldeias remotas, para continuar os seus estudos no Wat Pa Phai, um templo budista construído no início do século XIX. Ambos terão de decidir, aos 20 anos, se pretendem enveredar pelo sacerdócio. Para Winnie, o mais novo, essa decisão pode esperar, mas para Touy, com 19 anos, a escolha terá de ser feita em breve. Perguntei-lhe se já sabia o que fazer. Não me soube responder. A única certeza que tem, tal como Winnie, é que quer estudar inglês. Esse é o seu sonho, ser fluente em inglês e com essa ferramenta poder visitar outros países. No templo onde estudam já houve em tempos aulas de inglês, mas agora estão sem professor. Por isso, numa ânsia de saber mais, estudam sozinhos sempre que podem, quer no quarto onde dormem, quer na biblioteca onde para além dos livros têm acesso à internet e podem ver vídeos em inglês no Youtube. No templo não há televisão. Fotografei-os a ler em inglês e os livros escolhidos espelhavam o domínio que tinham do idioma. Embora Winnie fosse muito mais fluente, os dois liam livros infantis nada adequados às suas idades, mas adequados ao pouco que sabiam. Touy, por exemplo, lia uma história do urso Pooh. Nesse momento, o Laos ficou-me para sempre associado à imagem de um rapaz de 19 anos que, na viragem para a vida adulta, lê a história de um ursinho: um território milenar com episódios recentes de grande violência e, ainda assim, com um grau desconcertante de ingenuidade. Depois de tirada a fotografia, estes dois adolescentes, com uma delicadeza comovente a que já não estou habituada, perguntaram-me se não estaria na disposição de ir com eles para outra sala onde pudéssemos conversar em inglês à vontade. Explicaram-me que aproveitam todas as oportunidades para praticar um pouco. E assim fiz. Naquela manhã e em todas as outras que passei em Luang Prabang. Falámos de tudo um pouco: das aldeias de onde vêm, das famílias, da vida nos campos, dos grupos étnicos a que pertencem, dos seus projetos de vida, do pouco dinheiro que têm para realizar os seus sonhos, da minha viagem, da imensidão do mundo e do quanto tem de belo para ver. Diálogos que decorreram de forma lenta, com grandes silêncios pelo meio de cada vez que procuravam a palavra inglesa certa para se expressarem. Vi-os pela última vez num domingo à tarde no templo Wat Pa Phai, onde vivem. Nesse dia o Touy estava de guarda ao recinto e não podia ausentar-se. Quando cruzei a porta do templo levantou-se da mesa onde estava a estudar, sob uma árvore, e sorriu largamente enquanto ajeitava o hábito laranja. O resto dos colegas fazia as suas orações. Ouvia-lhes os cânticos. À nossa volta circulavam alguns cães, felizes, de caudas imparáveis. Dei uma vista de olhos aos exercícios em inglês que fazia, conversámos mais um pouco e despedimo-nos quando o sol se punha. Luang Prabang, Touy e Winnie. Um trio que tem lugar cativo nas minhas recordações mais emotivas dos dias passados no Laos. Pergunto-me com frequência o que será dos seus futuros.
terça-feira, 16 de setembro de 2014
Laos — Chris, a caminho de Luang Prabang
A maioria dos passageiros transportados pelo "slow boat" que deslizou com vagar pelo Mekong era ocidental. Para além da tripulação, praticamente não havia laosianos a bordo. Meia dúzia, talvez. E dos cinquenta ou sessenta estrangeiros que lá iam sentados, quase todos estavam na faixa entre os dezoito e os vinte e poucos anos. Ingleses, alemães, suecos, dinamarqueses, holandeses, todos estes mochileiros e mochileiras de ar pueril pareciam não ter ainda sequer frequentado a faculdade. Durante os dois dias em que estivemos confinados ao espaço exíguo do barco, pude observá-los e... invejá-los. Dei por mim a lamentar não ter passado por uma experiência destas mais cedo. Após uma viagem de longa duração, a vantagem que estes miúdos levam sobre os outros, ao enfrentar a vida académica ou um primeiro trabalho, só pode ser enorme. Todos os dias, durante semanas, por vezes durante meses, tomam decisões que os obrigam a crescer. Para além da gestão óbvia do tempo e do dinheiro, têm no mínimo de lidar com choques culturais consideráveis, adaptar-se a climas extremos, escolher com quem relacionar-se ou não, estabelecer novas redes de contactos e de apoio, definir itinerários que possam percorrer em segurança, negociar preços de refeições e de alojamentos com gente que não fala uma palavra de inglês ou optar entre preguiçar na praia ou explorar um museu. Ao mesmo tempo, estas viagens são também um grande exercício de liberdade, a ocasião para testarem os seus limites e se afirmarem longe da família e do habitual círculo social controlador. E naquele barco, durante os dois dias de ócio a que fomos forçados, a liberdade foi flirtar, beber litros de alcool, comer batatas fritas e consumir drogas. Depois, por vezes, num intervalo entre conversas, cervejas e charros, alguém puxava de um livro. A dada altura, eram tantos os leitores a bordo que me entretive a fotografá-los ao longe, sem que disso se apercebessem. Por fim, quando decidi falar com um deles, optei por me dirigir ao Chris, que lia "Catch 22". À semelhança da Emma, este britânico andava a viajar só e já ia no seu terceiro ano de aventuras. Apanhou o Transiberiano até à Mongólia, passou uma temporada a trabalhar na Coreia do Sul, partiu depois para as Filipinas e daí seguiu para a Austrália onde voltou a trabalhar. Visitou a Nova Zelândia e iniciou a seguir o périplo pelo sudoeste asiático. Depois do Laos ainda ia conhecer o Cambodja e o Vietname de onde voltaria, por fim, a casa. Quanto ao livro que lia, explicou: "Encontrei-o no último hostel onde estive alojado. Há muito tempo que queria lê-lo, por isso trouxe-o. Não compro livros. Vou de hostel em hostel e troco os que acabei de ler por outros. Só quando comecei a viajar é que comecei a ler mais. Na faculdade não tinha este hábito". A julgar pelo exemplo do Chris e de muitos outros que conheci, as viagens têm também esta grande virtude: despertar leitores adormecidos. O irónico é que comigo tenha acontecido exatamente o contrário. Não peguei num único livro durante seis meses. Talvez um dia escreva sobre isso.
domingo, 20 de julho de 2014
Laos — Emma, deixando pegadas por aí
No dia em que acordei em Chiang Khong, na margem tailandesa do Mekong, ainda demorei a decidir se deveria ou não atravessar a fronteira para o Laos e iniciar nessa mesma manhã a descida do mítico rio asiático até Luang Prabang. Chovera torrencialmente durante toda a noite, como se a natureza tivesse decidido mostrar-me como é a monção no seu máximo esplendor, e faltam-me os adjetivos para qualificar a enormidade dos relâmpagos e dos trovões que foram interrompendo o meu sono. A descida, nos moldes em que eu quis fazê-la, implica viajar durante dois dias num "slow boat", uma embarcação a motor com 35 metros de comprimento que, tal como o nome indica, se desloca muito lentamente — mas muito lentamente mesmo! — e cujos antigos assentos de madeira foram recentemente substituídos por bancos de carros e carrinhas que devem ter tido a sucata como destino. Note-se que estes bancos não são reclináveis nem estão pregados ao chão, o que permite que cada freguês faça uma gestão muito particular do espaço que lhe cabe para as pernas... Outra característica destes "barcos lentos" é não terem janelas, por isso, quando chove, a única forma de proteger os passageiros das enxurradas é baixar uns oleados que tapam a vista quase por completo, arruinando aquele que era para mim o único objetivo deste passeio demorado: apreciar a paisagem. Vá-se lá saber porquê, decidi arriscar tudo e seguir viagem, cumprindo o calendário que tinha estipulado para este troço da pequena volta ao mundo. Naquele pedaço de terra que parece não pertencer a ninguém, ali entre a Tailândia e o Laos, estava eu na fila para tratar do visto laosiano e a conversar com a minha companheira de viagem, quando a pessoa à nossa frente se volta para trás e exclama: "Portuguesas!". Foi assim que conheci a Emma, felicíssima por encontrar as primeiras compatriotas em vários meses. Dona de um sorriso que lhe ocupa o rosto todo (sim, sou muito sensível a sorrisos), a Emma é um ser que transborda luz. E palavras. Mas não palavras ocas ou vãs. Palavras cativantes, cheias de histórias, de gentes, de paisagens, de sensações colhidas por esse mundo fora. Palavras carregadas de gratidão, também, por a vida lhe permitir viver o seu maior sonho: viajar durante três anos. Palavras que, por isso, se fazem acompanhar muitas vezes de lágrimas, daquelas que choramos de alegria e que eu acabei por chorar com ela. Determinada a viajar durante uma longa temporada, a Emma trabalhou arduamente em Londres durante vários anos e juntou de forma obstinada todos os tostões. Manteve o foco até ao dia em que largou o lugar de direção que ocupava numa empresa do mundo do petróleo. Quando nos conhecemos à entrada do Laos, já tinha passado sete meses entre a Índia, China, Singapura, Malásia e Tailândia. Tinha, portanto, cerca de dois anos e meio de viagem pela frente e mais do que nunca os meus seis meses de licença sem vencimento pareceram-me muito pouco... O primeiro dia de descida do Mekong já levava várias horas quando do meu lugar, na popa, olho para a proa e vejo a Emma com um tablet nas mãos. Por sorte, estava a começar a ler "Americanah", de Chimamanda Ngozi Adichie, e essa foi a deixa perfeita para lhe falar do Acordo Fotográfico, propôr-lhe a foto e obter licença para contar aqui a sua história. "Fiz o download deste livro depois de saber que a autora, tal como eu, defende ativamente os direitos dos homossexuais", disse, "mas ainda estou sob o efeito do livro que li antes deste". "Invencível" era o livro em questão, a espetacular biografia de Louie Zamperini, um atleta olímpico norte-americano que parte em combate durante a Segunda Guerra Mundial e cujo avião se despenha um dia no Oceano Pacífico. Depois de sobreviver a sete semanas à deriva, é resgatado por japoneses ao largo de uma ilha e quando pensava que o pior já tinha passado, na verdade estava apenas no início do seu calvário. "É um livro maravilhoso! Marcou-me tanto que não consigo parar de falar dele e de recomendá-lo a toda a gente!". Há mais de dois meses que não vejo a Emma. Por vezes trocamos mensagens via Facebook, mas consigo recordar o timbre da sua voz. Depois de três semanas no Laos, passou um mês no Cambodja, regressou à Tailândia e encontra-se por estes dias em Myanmar. Se quiserem acompanhar o seu périplo nos próximos dois anos e alguns meses podem fazê-lo através do seu blogue: Footprints in the clouds.
quinta-feira, 17 de julho de 2014
Chiang Mai — O amor e os livros
Patrick é um norte-americano que sempre leu muito e que agora que está reformado tem ainda mais disponibilidade para os livros. Um dia, estava ele na Tailândia, entrou numa loja onde apenas se vendiam uns delicados marcadores de livros feitos em teca e pintados à mão. Foi atendido pela artista, por quem se apaixonou e com quem veio a casar mais tarde. "Por ser leitor, conheci a minha mulher e hoje vivo na Tailândia. Este marcador que aqui tenho no livro é da edição limitada que oferecemos aos convidados no dia do nosso casamento", disse-me visivelmente orgulhoso. Conhecemo-nos num domingo à noite, quando andava a percorrer a grande feira que ocupa a maior parte do centro histórico de Chiang Mai (a segunda maior cidade do país) aos fins de semana. Patrick fazia companhia a Runy, a sua mulher, que vendia os marcadores de livros num pequeno stand. Alheio aos milhares de pessoas que circulavam pelas ruas estreitas e à confusão instalada, lia "Thirtheen", uma história futurista sobre uma linhagem de soldados geneticamente modificados. "Sou da área de engenharia e tecnologia, por isso gosto muito de ficção científica. Para leitura de relaxamento, é o estilo que prefiro. E este é um livro que venceu o Prémio Arthur C. Clarke. De resto, depende... Por exemplo, estou a ler também um outro livro sobre a história política e económica do Ocidente nos séculos XIX e XX".
domingo, 13 de julho de 2014
Tailândia — Joe a caminho de Chiang Mai
Dos cinco dias que estive em Banguecoque, dois foram passados no quarto do hotel. Nunca saberei ao certo o que aconteceu ao meu estômago. Talvez tenha tido uma intolerância momentânea à profilaxia da Malária ou talvez tenha comido alguma coisa que não digeri bem. Só sei que essa má disposição e o quase jejum a que me forcei durante 48 horas consumiram boa parte das minhas forças e que as temperaturas a rondar os 45 graus centígrados de sensação térmica acentuaram ainda mais o meu cansaço. Perante este cenário, carregar as mochilas — uma grande com cerca de 15 quilos e outra mais pequena com 8 quilos — até à carruagem do comboio noturno que me levou para Chiang Mai, no norte da Tailândia, representou um esforço titânico. Quando por fim me deixei cair no lugar que me coube, tinha a roupa colada ao corpo, escorria suor e arfava. Eram dez da noite, todas as janelas da velhíssima carruagem estavam escancaradas e todas as ventoinhas pregadas ao teto giravam furiosamente. Ainda assim, parecia não haver ar suficiente para se respirar. Só queria que o comboio partisse e que a sua marcha lenta me embalasse até ao sono profundo. Teria 13 horas para dormir. Quando por fim a máquina se pôs em movimento, produzindo um som metálico semelhante ao que ouvi no cinema quando o Titanic se afunda, ocorreu-me percorrer toda a carruagem com o olhar e ao virar-me para trás vi que um dos rapazes ingleses que tinha embarcado depois de mim estava a ler. Apesar das pernas trémulas e do meu muito mau aspeto, lá fui ter com ele e fiz a fotografia, enquanto os seus companheiros de viagem, gozões, me juravam que ele não sabia ler. "Está a fazer de conta! Ele só sabe ler os livros do "Onde está o Wally!", diziam por entre gargalhadas. Mas o Joe não desarmou e manteve a pose. "Não sou leitor habitual", disse-me depois, "mas estou a aproveitar a viagem pela Ásia para ler um pouco. Acabei o único livro que trouxe, por isso pedi este emprestado a um dos amigos que veio comigo". O livro em causa era "Do The Birds Still Sing in Hell?", um relato verídico escrito na primeira pessoa por Horace Greasley, um soldado britânico feito prisioneiro pelos alemães no decorrer da Segunda Guerra Mundial e que durante o seu cativeiro viveu uma intensa história de amor com a alemã que lhe servia de intérprete. Depois da nossa conversa, voltei ao meu lugar e adormeci de imediato. Na amanhã seguinte, já o sol ia alto, voltei a olhar para trás. O Joe e todos os seus camaradas de viagem estavam a ler.
segunda-feira, 30 de junho de 2014
Banguecoque — Nina & Michael Robotham
Detesto reduzir um país a uma só coisa, mas é inevitável pensar em massagens quando se fala da Tailândia. E quando se está na Tailândia é quase fatal acabar num daqueles Spas — que em certas ruas de Banguecoque existem porta sim, porta sim — para uma sessão de deliciosa e energizante fricção ao corpo inteiro (que se assemelha em muito a uma luta greco-romana...) ou, no mínimo dos mínimos, aos pés. Foi o que aconteceu à Nina, uma alemã de férias na Tailândia que vi ao fim da tarde num Spa da Silom Road e que não se importou de falar comigo enquanto era massajada. Leitora habitual, a Nina aponta os thrillers como o seu género literário preferido. Durante muito tempo leu tudo o que encontrou de autores escandinavos, até que esgotou esse filão. Teve, por isso, de procurar outros escritores e foi então que descobriu o australiano Michael Robotham. "Este autor é muito bom", disse-me. "Acabei de ler um livro seu ontem à noite e gostei tanto que fui imediatamente fazer o download de outro. Comecei logo a ler". O livro em questão era "Adrenaline", numa edição alemã para o Kindle.
domingo, 22 de junho de 2014
Banguecoque — O meu Nirvana
Fui visitar Wat Pho, o templo mais antigo da capital da Tailândia, e não estava preparada para o que ali encontrei. Ainda bem. Sem saber ao que ia, sem ter visto antes qualquer imagem do local, a experiência foi avassaladora e tenho ainda hoje, passados quase dois meses, dificuldade em encontrar as palavras certas para descrever o que senti perante tanta beleza. Foi mágico... Chorei e ri, sem vergonha, na frente de toda a gente. Percorri com a ponta dos dedos o minucioso trabalho de cerâmica, vidrilho, madre pérola e folha de ouro que cobre a maior parte do exterior dos pagodes que se erguem no recinto. Segui atentamente as histórias contadas pelas figuras pintadas nos metros e metros de murais. Fui hipnotizada pela repetição exaustiva de padrões simples pintados em cores quentes nos tetos altos. Fiquei perplexa perante a elegância do Buda reclinado, apesar das suas dimensões colossais — 15 metros de altura e 43 metros de comprimento — e deliciei-me com o seu sorriso doce, sereno, um dos poucos que vi até hoje maiores que o meu: 5 metros de sorriso! Fechei os olhos e deixei que a poderosa energia que ali se concentrava tomasse conta de mim. Numa tentativa de evitar o caminho de um grupo de visitantes apressados, fiz um desvio súbito no meu trajeto, encontrei-me num recanto mais isolado e dei de caras com um monge a ler. Gostava de ter uma história maravilhosa para vos contar acerca desta fotografia. Uma história que contivesse uma revelação ou um ensinamento. Algo assim profundo. Mas não tenho. Contudo, este encontro breve, feito de parcas palavras e muitos sorrisos, fechou com chave de ouro o dia mais emocionante da minha curta passagem por Banguecoque. O monge, que não falava uma palavra de inglês, percebeu a minha intenção: tirar uma fotografia. Mas duvido que tenha percebido que o meu interesse era fotografá-lo a ler. Não percebi o seu nome. Não me soube explicar o que lia, nem porquê. Perguntei-lhe se teria um email para enviar-lhe a fotografia. Disse que sim. Passei-lhe o meu bloco de notas e a caneta para que o escrevesse, mas o que me deu foi a morada e o número de telefone de um templo numa província distante. Só o percebi mais tarde, quando a rececionista do hotel me traduziu os apontamentos. Foi, portanto, um encontro feito de alguns mal entendidos, mas ainda assim um encontro cheio de boas intenções. Foi o meu Nirvana.
Mais fotos deste encontro aqui.
Mais fotos deste encontro aqui.
quinta-feira, 19 de junho de 2014
Malaca — Inga, a viajar há quarenta anos
Conheci a Inga no hostel onde fiquei alojada em Malaca. Passei pela cozinha, ao descer do meu quarto, e lá estava ela, sentada à grande mesa, agarrada a um livro. A Inga tem 60 anos e começou a viajar sozinha na década de 70. Um dos locais por onde esta holandesa andou mais tempo foi o continente africano, onde trabalhou dez anos e viajou outros dezassete. No que diz respeito a Malaca, esta era a sua quarta vez na cidade. "Adoro esta parte do globo. É seguro e as pessoas são muito simpáticas. E também porque não há ninguém a pedir. Já vi demasiada gente a pedir. Não posso apreciar a minha vida se estou rodeada de gente sem comida", explicou. Para além das viagens, a leitura é uma outra grande paixão sua. Lê imenso e diz não conseguir imaginar o mundo sem livros. Fotografei-a ler "Lost in Shangri-La", o relato de um episódio verídico ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial, quando um grupo de militares parte em busca dos sobreviventes de um acidente de aviação, perdidos na floresta tropical da Nova Guiné. Uma história que considerou entusiasmante!
domingo, 15 de junho de 2014
Malaca — Nicolas & Emma
segunda-feira, 9 de junho de 2014
Kuala Lumpur — Livreiros: todos diferentes, todos iguais
Não sei do que gosto mais quando viajo: viver a experiência do choque cultural ou espantar-me com as semelhanças. Uma pessoa vai até ao outro lado do mundo, visita um país que nada tem a ver com o seu, perde quase todos os seus pontos de referência, mas encontra uma colega de profissão com quem tem imenso em comum. Estar a conversar com alguém de outra cultura pela primeira vez e dar por si a dizer "Pois é, é mesmo isso!" é tão emocionante quanto ficar alojada na casa de uma família Hmong, tribo do norte do Vietname, que está no extremo oposto do meu estilo de vida. Encontrei a Abbie no shopping das Torres Petronas, onde também eu tinha ido almoçar. Alegria pura foi o que senti quando me disse que era livreira na Books Kinokuniya, uma rede japonesa de livrarias. A partir desse primeiro ponto em comum coincidimos em muitas outras coisas. Tal como eu, a Abbie lê imenso e ri-se da ironia que é deixar parte considerável do seu salário no sítio onde trabalha. Tal como eu, a Abbie considera os livros caros, só que na Malásia isso não se deve à pequenez do mercado, mas sim ao facto de quase não haver edição nacional e trabalharem sobretudo com edições importadas dos EUA e do Reino Unido. Tal como eu, a Abbie tem a sorte de poder ler os livros que são oferecidos pelos editores, mas com uma diferença: quando me oferecem livros, recebo a edição que vai para o mercado, enquanto ela recebe uma "review copy", que é uma edição mais barata produzida para promover os livros junto de quem os vai vender. E tal como eu, a Abbie considera fundamental sentir-se agarrada pela primeira frase de um livro. Fotografei-a quando lia "The Killer Next Door", de Alex Marwood, um thriller psicológico que, na sua opinião, explora muito bem os meandros da mente humana. "É maravilhoso encontrar um bom livro!", disse-me. "É uma fonte de felicidade". E eu, tal como ela, sinto extamente o mesmo.
quinta-feira, 5 de junho de 2014
Kuala Lumpur — Danusha, nas Petronas
Quis ir à Malásia por causa de Malaca. Meti na cabeça que queria conhecer o bairro português ou "Portuguese Settlement", como lhe chamam por lá. Infelizmente a visita ao bairro foi uma tremenda desilusão. Há duas ou três ruas com nomes portugueses, casas de arquitectura descaracterizada, uma praça com um par de restaurantes onde se confeccionam pratos de inspiração vagamente lusa e um museu liliputiano repleto de tralha que não interessa nem ao Menino Jesus. Verde, vermelho e motivos do folclore português pintados nas paredes. E eu que implico solenemente com esta imagem de Portugal parada no tempo, como se nos reduzíssemos a bacalhau e corridinhos. Ou viras. Trocámos algumas palavras com um senhor que nos levou ao museu. Discursou longamente sobre as diferenças entre o português que lá falam e o português de Portugal, mas fê-lo sempre em inglês. E ainda se queixou que as novas gerações não querem aprender o idioma dos tetravós. Pudera! Que interesse tem aprender o idioma de um país que, retratado desta forma, parece cheirar a mofo? Da nossa língua só ouvimos mesmo as palavras ditas por um pescador, que remendava redes sentado no chão. As vogais muito abertas, num sotaque vagamente tropical. E mais nada. Malaca, Património Mundial da Humanidade desde 2008, é engraçada e merece ser visitada. Dá prazer passear pelas ruas de travo europeu cheias de turistas e fazer o roteiro das lojinhas, que são muitas e de muito bom gosto. Mas o que salvou mesmo a ida à Malásia foi a sua capital, Kuala Lumpur, a cidade que parece encerrar vários países. Fiquei alojada no bairro chinês, contudo, ao virar da esquina, parecia chegar à Índia quando surgia um templo hindu de cores psicadélicas. E cinco vezes por dia viajava até ao norte de África sempre que ouvia o muezim chamar os fiéis para as orações. Porém, os encantos de Kuala Lumpur não se reduzem a esta mistura surpreendente de culturas que parecem conviver em paz. Kuala Lumpur é, a par das tradições e rituais ancestrais, uma cidade moderníssima, que esbanja juventude, dinamismo e luxo, uma faceta que tem como expoente máximo as badaladíssimas torres Petronas, outrora as mais altas do mundo. Foi junto à entrada da Torre 2, mesmo antes de entrar no shopping que lhe está adjacente para ir almoçar, que conheci a Danusha, uma jovem malaia cujo trabalho de auditoria lhe consome muito tempo. "Trabalho aqui nas Petronas. Já li mais do que leio atualmente. Mas aproveito todo o tempo livre para fazê-lo. Leio sobretudo romances, mas também gosto de não ficção. Salman Rushdie é talvez o meu autor favorito, embora só tenha lido três romances dele", disse-me. O livro que tinha consigo naquele dia era "The Finkler Question" ("A Questão Finkler", na sua edição portuguesa), romance que valeu a Howard Jacobson o Booker Prize de 2010. "Foi-me oferecido por um amigo" contou-me. E enquanto me mostrava a extensa dedicatória escrita nas primeiras páginas, esse amigo chegou e aproximou-se de nós. "Bem, na verdade ela queria o livro", disse ele rindo-se. Trocaram um olhar cúmplice e a Danusha completou: "Não costumo ler as sinopses. Leio apenas as críticas. E pelas críticas feitas a este romance achei que devia ser giro. E é mesmo muito divertido. Estou a gostar muito!" Olha de novo para o amigo e acrescenta "Quem também é escritor é ele. Está a escrever um livro que um dia será publicado". Ele não desmente. Explica que ainda não sabe o que é "aquilo". "Só palavras, por enquanto. Mas ela é que devia ser escritora", diz olhando para a Danusha. "Escreves muito bem". E deixei-os a discutir esse assunto não sem antes combinarmos que quem publicasse primeiro um livro teria de me dar conhecimento.
Mais fotos da Danusha e das torres Petronas aqui.
You can find more pictures of Danusha and the Petrona Towers here.
Translated by Marisa Silva
Mais fotos da Danusha e das torres Petronas aqui.
***
I wanted to go to Malaysia because of Malaca. I was determined to visit the Portuguese neighbourhood or Portuguese Settlement, as it is called there. Unfortunately the visit was very disappointing. There are two or three streets with Portuguese names, houses with uncharacteristic architecture, a square with a couple of restaurants where dishes with remote Portuguese roots are served and a Lilliputian museum filled with junk with no interest at all. Green, red — the colours of the Portuguese flag — and motifs of Portuguese folklore are painted on the walls. A torment for me who disagrees with this image of a Portugal frozen in time, as if we were nothing else but codfish and corridinhos. Or viras.* We talked for a while with a gentleman who took us to the museum. He made a long speech about the differences between the Portuguese they speak and the Portuguese spoken in Portugal, but he did it in English. And yet he complained that the new generations don’t want to learn the language of their great-grandparents. No wonder! What interest could there be in learning the language of a country that, with such a portrait, seems to be old fashioned? We just heard a few Portuguese words from a fisherman who was sewing nets, sitting on the floor. Very open vowels, in a slightly tropical accent. Nothing else. Malaca, a World Heritage site since 2008, is funny and deserves to be visited. It is pleasant to stroll in its streets with a slight European ambience, filled with tourists, and enter the small shops, which are many and of good taste. But what really saved the trip to Malaysia was it’s capital, Kuala Lumpur, the city that seems to enclose several countries. I was housed at the Chinese neighbourhood, but, when I turned the corner, it seemed like I was arriving in India when Hindu temple of psychedelic colours appeared. And five times a day I travelled to North Africa every time I heard the muezzin calling the Muslim congregation to pray. But, the charms of Kuala Lumpur aren’t reduced to this surprising mix of cultures that apparently live together peacefully. Kuala Lumpur is, along with its traditions and ancient rituals, a very modern city, that exudes youth, dynamism and luxury, a side that has its pinnacle on the well-known Petrona Towers, once the highest of the world. It was near the entrance of tower 2, right before entering the shopping next to have lunch, that I met Danusha, a young Malaysian woman whose auditing job is very time consuming. “I work here at the Petronas. I have read more than I do now, yet I use all of my free time to do it. I read mostly novels, but I also like non-fiction. Salman Rushdie is maybe my favourite author, although I only read three of his novels”, she told me. The book she had with her that day was "The Finkler Question", the Howard Jacobson novel awarded with the 2010 Booker Prize. “A friend offered it to me” she said. And while she was showing me the extensive dedicatory written on the first pages, that friend arrived and came closer to us. “Well, actually she wanted the book”, he explained, laughing. They exchanged an accomplice look and Danusha completed: “I don’t usually read the synopsis. I only read the reviews. And by the reviews of this novel I thought it should be fun. And it is full of fun. I’m enjoying it very much!” Again she looks at her friend and adds “He is also a writer. He is writing a book that one day will be published”. He does not deny it. He explains he doesn’t know yet what “it” is. “Only words so far. But she should be a writer to”, he says looking to Danusha. “You write very well”. I left them arguing this matter but before we agreed that whoever publishes the book first would let me know. You can find more pictures of Danusha and the Petrona Towers here.
Translated by Marisa Silva
*Corridinhos and Viras are traditional Portuguese dances.
sexta-feira, 30 de maio de 2014
Timor-Leste — Às vezes mais vale estar calada
East-Timor — Sometimes it is better to be silent
Francisco Pereira. Assim se chama este leitor timorense que não entende uma palavra de português. O pouco que pude comunicar consigo foi possível por intermédio de um jovem australiano fluente em Tétum, o idioma em que estava escrita a Bíblia que o Francisco lia (Evangelho Segundo Mateus 17:24-27). "Francisco Pereira! Com esse nome devia falar português", exclamei. E arrependi-me de o ter dito no mesmo segundo. É como afirmar que todos os Iuris e todas as Kátias de sangue puro lusitano deviam falar russo... Perante a minha baboseira, o silêncio do Francisco foi de ouro. Fotografei-o na linda Praia dos Portugueses no sábado de Aleluia.
***
Francisco Pereira. This is the name of this Timorese reader that doesn't understand a word of portuguese. The little communication I had with him was only possible with the help
of a young Australian man fluent in Tetum, the language in which the Bible he
was reading was written (Gospel according to Matthew 17:24-27). “Francisco Pereira! With that name
you should speak Portuguese”, I exclaimed. And at the exact same second I
regretted saying that. It is like declaring that all Iuris and Kátias of pure
Portuguese blood should speak Russian… Before this nonsense, Francisco’s
silence was gold. I took his picture at the beautiful Portuguese Beach on Holly
Saturday.
terça-feira, 27 de maio de 2014
Timor-Leste — Ana, na Praia dos Portugueses
East-Timor — Ana, at the Portuguese Beach
Mais fotos aqui.
***
East Timor is 12 years old. It is a
pre-teenager country that can’t stay away from mobile phone, likes Korean soap
operas, drives a motorcycle, goes to the only shopping mall to eat at the only
MacDonald’s and defines its character on the rich history of its ancestors
(that it doesn’t rejects), the trauma of Indonesian occupation (that it doesn’t
want to forget), the years of struggle and resistance (that inspire it) and the
certainty of a better future (the petrodollars have a lot to do about it). I think
that was what I envied the most in the Timorese, this sense of hope that
Portugal has lost. In East Timor there was very little and reportedly the
Indonesian, at the time of their withdrawal, destroyed as much as they could.
So, in East Timor almost everything has to be done and in that long growth path
international assistance, some with more interests than others, has had a
leading role. The expatriate community in Dili, workers with contracts or
volunteers, is quite big. The Australians are the ones in larger scale. But
there also Portuguese, North-Americans, New Zealanders, Chinese and even
Philippines, like Ana, that lives and works in Dili since 2006. “I don’t know
how long I will stay here. Maybe until there is work. But every year I go
to thePhilippines once or twice”, she told me. I found her
reading at the Portuguese Beach, the day before Easter Sunday, when I decided
to walk until the top of the promontory where there is a Statue of Christ.
She was reading “The Farmer'sWife", a very simple novel,
like Ana herself described it. “I felt seduced by the character and by the
story. I like extraordinary and realistic characters. Even in films my
preference goes to simple stories”. This Engineer says she doesn’t have
much free time for books, but she reads when she can. That was the case of that
long weekend. “I went to exchange books there at the beach hotel. I left two
and brought other two”. For someone who reads very little, it’s not bad at
all.
More pictures here.
More pictures here.
Subscrever:
Mensagens




















