domingo, 28 de setembro de 2014

Vientiane, Houmphan e Khamnikhom



Decidi que a viagem de Luang Prabang para Vientiane, capital do Laos, se faria de autocarro. A outra hipótese era o avião, que me levaria de um ponto ao outro em quarenta minutos, mas sempre que as distâncias não eram exageradamente grandes e as paisagens prometedoras, escolhi deslocar-me por terra. Foi assim entre Brasília e o Rio de Janeiro (de autocarro), entre Banguecoque e Chiang Mai (de comboio), entre Chiang Khong e Luang Prabang (de barco). De Luang Prabang a Vientiane vão cerca de quatrocentos quilómetros, mas o trajeto leva no mínimo oito horas a ser percorrido. No meu entender, tanta demora só poderia dever-se à qualidade da via e ao estado do veículo que nos ia transportar, por isso, perante a perspetiva de passar o dia inteiro na estrada, optei por comprar um bilhete para o melhor autocarro disponível, aquele a que os laosianos chamam VIP e dizem ter ar condicionado. Na verdade, não tem. A partida estava marcada para as 9h, mas o tuk tuk deixou-me no terminal quinze minutos antes. O tempo de encontrar o autocarro certo, colocar a mochila na bagageira e garantir um lugar junto a uma janela. Dei-me conta de imediato que havia poucos passageiros. No interior, meia dúzia aguentava estoicamente as temperaturas similares às de uma sauna; lá fora, outros tantos sentavam-se à sombra, mas não era por isso que suavam menos. Ao fim de algum tempo percebi que o autocarro não partiria com uns minutos de atraso. Na verdade, o autocarro partiria apenas quando todos os lugares estivessem vendidos, o que aconteceu depois das 10h, quando um casal de mochileiros comprou os últimos bilhetes. Só à medida que Luang Prabang foi ficando para trás é que entendi por que razão iríamos demorar oito horas a percorrer trezentos e noventa quilómetros: embora soubesse, teoricamente, que o Laos é um país montanhoso, não sabia que é um país tão montanhoso e a demora não se deveria tanto ao estado da estrada, mas ao terreno acidentado que a estrada percorre. Julgo que não sentia tamanho desconforto a andar de autocarro desde 1999, ano em que atravessei a Cordilheira dos Andes para ir de Mendoza, na Argentina, a Santiago do Chile. Quinze anos volvidos, lá estava eu de novo a encarar uma estrada dos infernos, alcatroada, sim, mas estreita como uma tira de tagliatelle, a serpentear sempre em sentido ascendente, curva e contracurva, com ribanceiras brutais à esquerda e à direita, até aos 1500 metros de altitude. Para que o cenário se tornasse ainda mais dramático, abateu-se sobre um troço do trajeto uma daquelas tempestades típicas da monção e foi com horror que vi desenhar-se do céu à terra um relâmpago medonho que caiu com estrondo a poucos metros do autocarro. Muitos passageiros não conseguiram conter um grito. Pela janela vi os búfalos de água esbaforidos a correr em todas as direções pelos arrozais. Tal como nós, não ganharam para o susto. Mas para redimir tudo isto, havia a paisagem, a magnífica paisagem das montanhas do norte do Laos cujos cumes pontiagudos se perdiam nas nuvens e os sopés mergulhavam nas águas dos campos de arroz. No meu peito, o medo e o deslumbramento lutaram entre si para ver qual me tirava mais o fôlego. Ao fim de cinco horas de caminho, as montanhas foram-se tornando gradualmente mais pequenas e o terreno cada vez mais plano. As aldeolas esparsas foram dando lugar a aldeias maiores, na estrada o tráfego intensificou-se e por volta das 18h estávamos a atravessar os arredores da capital onde, a par das casas mais humildes de traça tradicional, se erguem casa apalaçadas — a maioria acabadas de construir ou ainda em construção — de inspiração ocidental e de gosto muito duvidoso, que deixam entrever jardins, piscinas e vários carros estacionados para lá dos portões. No Laos — um dos últimos estados socialistas de partido único — há, portanto, dinheiro fresco e gente determinada a mostrar que o tem em grande quantidade. Ainda assim, Vientiane é uma capital modesta e o pouco que há para visitar concentra-se de tal forma no centro da cidade que dois dias bastam para ficar a conhecê-la bem. Quase todos os caminhos levam à longa avenida Lane Xang, ladeada de frangipanis, cuja flor é o símbolo do país. Num extremo fica o Patouxai, um arco do triunfo ao qual se pode subir e de onde se tem uma ótima vista sobre a cidade. É de lá de cima que se confirma a inspiração soviética na arquitetura dos edifícios públicos, muito austeros, que contrastam com a exuberância multicolor dos templos budistas. No outro extremo da avenida, fica o Palácio Presidencial e para lá dele o rio Mekong, cuja margem foi transformada num extenso calçadão para onde toda a população da capital parece convergir à noitinha na esperança de se refrescar um pouco. Demorei-me aí, numa noite de enorme lua cheia, a observar os laosianos que passeavam exibindo as suas melhores roupas e acessórios. Em Vientiane, como em Lisboa, Tóquio ou Nova Iorque, também se brinca ao "ver e ser visto". Visitei o Museu de Arte e Antiguidades, que funciona no antigo templo budista do rei e que aglomera num espaço exíguo centenas de peças que imagino muito valiosas mas mal conservadas, mal expostas e sem qualquer tipo de legendas que nos permitam perceber do que se trata. Passei algumas horas no Museu National, que funciona num grande edifício decrépito e onde muitas vezes o meu interesse se virou mais para as ventoinhas e as saídas de ar condicionado, às quais me colei numa tentativa de arrefecer o corpo, do que para o rol de salas onde através de fotografias desbotadas e maquetes rudimentares se narra toda a história do Laos. Julgo que aprendi mais sobre os tempos remotos, do que sobre a história recente, onde se enaltece a luta e a vitória do proletariado sobre os imperialistas — franceses, japoneses e americanos — e se exaltam as virtudes do partido comunista. Também visitei o That Luang, o edifício religioso mais importante do Laos ao qual me desloquei numa louca corrida de tuk tuk que me custou o chapéu: voou-me da cabeça para nunca mais o ver. E, por fim, entrei na Biblioteca Nacional que funciona num antigo edifício de traça colonial, rés-do-chão e primeiro andar, onde funcionários, utentes e livros se acumulam em salas pequenas e atravancadas com estantes, mesas e cadeiras. Foi aí que meti conversa com o Houmphan (na primeira fotografia) e com Khamnikhom (na outra imagem). Ambos são estudantes universitários, vão com frequência à biblioteca para consultar livros e estudar. O primeiro, pouco à vontade com o inglês e muito mais tímido, contou-me que estava a estudar gestão e marketing. O segundo, que frequenta o curso de economia e administração, estava a estudar para o exame final de gestão hoteleira, mas contou-me que para além destas temáticas, também se interessa muito por filosofia e política. Os livros que tinha consigo eram em inglês e tailandês o que me surpreendeu. Fiquei depois a saber que o tailandês e o laosiano são idiomas muito parecidos, pelo que a maioria dos habitantes do Laos lê e fala tailandês. Infelizmente, no entender de Khamnikhom, no Laos os livros são muito caros. Trabalhou dois meses numa livraria e sabe do que fala: a maioria das edições é importada da Tailândia, o que as encarece muito. Por isso recorre por vezes a um amigo que lhe traz diretamente os livros de Banguecoque. Sobre o seu futuro, Khamnikhom tem uma convicção: passará por ajudar a desenvolver o seu país, tornando-o num lugar melhor. Como o fará é que ainda não sabe. Talvez vá trabalhar para a Organização das Nações Unidas, ou então ser um homem de negócios, ou enveredar pela carreira política. E foi então que me encostou à parede com a seguinte pergunta: "Que conselho me dá para que eu possa ajudar o meu país?". Senti a cabeça a andar à roda. Há tanto por fazer no Laos que nem soube por onde começar. Mas enquanto o meu cérebro parecia ter congelado perante a complexidade da resposta a dar, a minha boca abriu-se e ouvi-me afirmar, convicta: "Tens de apostar na tua educação. A educação será sempre a tua melhor ferramenta. A educação é a maior riqueza de um povo. Vais precisar de dinheiro, é certo. Mas isso é secundário. O dinheiro sem educação não está ao serviço do progresso. E se puderes, viaja. Conhece outras culturas, outras maneiras de viver e de fazer acontecer. Viajar é uma forma poderosíssima de educação. E quando regressares ao Laos, talvez tenhas uma ideia mais concreta do que queres para ti e para o teu país". Esta semana recebi um email do Khamnikhom. Diz que se lembra muitas vezes do que lhe disse quando conversámos e que quando voltar à sua aldeia irá passar a minha mensagem aos estudantes da escola local. Agora que penso nisso, gostaria de lhe ter dado um conselho menos utópico.

3 comentários:

Nídia Nair disse...

"O dinheiro sem educação não está ao serviço do progresso."

"Viajar é uma forma poderosíssima de educação."

Conselhos "poderosos", mesmo que deixem em ti a dúvida "utópica".

:)

Lirida Macedo disse...

Concordo plenamente com Nídia!
Além disso, quero alertar para o fato de que tua escrita está a cada dia mais encantadora. Parabéns!

A. F. disse...

Obrigada, Lirida. :) Sinto que ultimamente me é mais difícil escrever. No entanto, o prazer que tiro da escrita aumentou.