domingo, 18 de janeiro de 2015

Fion, em Hong Kong


Depois de ter deixado o Brasil nos últimos dias de março, passei vários meses a desbravar territórios que me eram absolutamente desconhecidos — Sidney, Dili, Kuala Lumpur, Malaca, Banguecoque, Shiang Mai, Luang Prabang, Vientiane, Angkor, Phnom Pehn, Saigão, Hanoi, SaPa, HaLong. Lugares tão distantes e tão exóticos, que achei fora do meu alcance, mas que pude por fim visitar com assombro. Aí, onde tenho poucas ou nenhumas referências, onde me vejo na estaca (quase) zero, sinto essa torrente de energia que brota das primeiras vezes. Viciei-me no confronto com o novo, com o estranho e em tudo o que isso exige de mim. Viciei-me na descarga de adrenalina provocada pela viagem, no desafio. Estou sempre pronta a partir. 

Porém, não posso negar que em meados de junho, quando voltei a pisar Hong Kong, o conforto do já conhecido me soube muito bem. Durante uns dias não tive de me preocupar com a orientação, arranjar pontos de referência, perceber como funcionam os transportes ou visitar monumentos ditos obrigatório. Em Hong Kong pude apenas vogar sem destino e usufruir das coisas mais simples que esta cidade vibrante tem para oferecer: a vista sobre os arranha-céus a partir do calçadão de Kowloon — uma das paisagens urbanas mais incríveis que já vi, estando parte do seu encanto na forma como muda com a passagem das horas — os jardins, o comércio, a comida, o choque entre as tradições centenárias e o ultra-moderno, o frenesi constante dos mais de sete milhões de habitantes. 

Num desses dias permiti-me ceder às saudades de duas coisas: comer um bom sushi e passar algum tempo sentada à mesa de um café para atualizar o diário da viagem. Matar o primeiro desejo não foi difícil, uma vez que não faltam restaurantes japoneses em Hong Kong. Já encontrar um café de rua que não pertencesse a uma qualquer cadeia ocidental foi tarefa impossível. Contrariada, dirigi-me ao Starbucks com vista para a baía e sentei-me numa mesa de dois lugares junto à grande janela. Foi então que constatei com surpresa, enquanto mexia o café expresso e trincava o brownie, que afinal aquele lugar comum até me sabia bem. Por uns momentos, o ambiente padronizado permitiu-me aquietar os sentidos e concentrar-me apenas na tarefa de escrever. Refleti pela milésima vez sobre as vantagens e desvantagens do mundo globalizado antes de abrir o caderno e pegar na caneta. Não me desviei da minha tarefa até a Fion se sentar na mesa em frente, de livro em punho. 

Nascida e criada em Hong Kong, Fion é professora primária e estava a preparar-se para começar a ensinar chinês. "Uns amigos que também são professores recomendaram que lesse este livro para me inteirar do que andam os miúdos a ler", contou-me. "Fui buscá-lo à biblioteca da escola. É de um autor também natural de Hong Kong e pertence a uma série que tem como herói um agente especial. Neste livro, o protagonista parte numa missão anti-terrorista no médio oriente." Disse-me a Fion que, na sua qualidade de professora, tenta ler o mais possível. Gosta particularmente de literatura infantil, que diz ser mais direta, fácil de entender e próxima do dia a dia. Mas não põe de parte os livros para os mais crescidos e aponta sem hesitações um autor de que gosta muito (e cujo nome entendi a muito custo): Paulo Coelho. Passei os minutos seguintes a ensiná-la a pronunciar corretamente o nome do autor, elucidando-a sobre a sua nacionalidade e a língua em que se expressa: o belíssimo português.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Vietname — Dunj & John Green


Era domingo à tarde e os domingos à tarde em Hanoi parecem-se com os domingos à tarde em qualquer outra parte do mundo. A cidade nunca pára, é um facto, mas havia mais gente disposta a preguiçar junto às margens do lago. Quis passar lá as minhas últimas horas no Vietname, já de nó apertado na garganta. Sabia que andaria por muito tempo com este país sob a pele. Mas desconhecia o poder duradouro do seu fascínio. 

Apostada em absorver ao máximo cada derradeiro minuto, fiz um esforço consciente para apurar ainda mais os meus sentidos e mergulhar no meio deles, os vietnamitas, enquanto uma forma de mantra se repetia no meu pensamento: estou aqui e agora. E observei para viver o momento e recordar para sempre. O sol já baixo, os casais com os filhos pelas mãos, as mulheres aos pares que se exercitavam em passo apressado, os homens que faziam o seu jogging de auriculares nos ouvidos, os grupos de amigas entretidas a tirar selfies, o quiosque que vendia os melhores gelados da cidade e cuja fila de clientes nunca diminuía, os bancos ocupados pelos mais velhos, os outros turistas, as árvores inclinadas cujos ramos mergulhavam no espelho de água, a dúzia de idosas que ao som de um rádio estridente realizavam em fila uma coreografia que implicava, em certos passes, que massajassem as costas umas das outras. E Dunj que, sentado na borda de um canteiro, começava a ler "A Culpa é das Estrelas", de John Green, um livro acabado de comprar. 

"Adoro ler e leio muito. Um amigo recomendou-me este livro, disse que era muito bom. Sei que estreou o filme lá fora, mas não vai passar cá no Vietname, por isso leio o livro. E até prefiro porque sei que de uma forma geral os livros são sempre melhores. O meu autor preferido é vietnamita e escreve romances. Chama-se  Anh Khang. Mas também gosto muito do George R. R. Martin. Acho que o preço dos livros no Vietname é justo, mas os vietnamitas leem pouco. Os mais velhos leem jornais e os mais novos passam o tempo todo online."

Afastei-me, depois, à procura de um lugar para também eu me sentar um pouco. Nesse momento, fui abordada por um grupo de rapazes e raparigas que vieram apresentar-se e que me perguntaram se me importaria de conversar um pouco com eles para que praticassem inglês. Pareceu-me que não havia melhor forma de me despedir de Hanoi. Eram todos estudantes universitários, das mais variadas áreas: uma aspirante a médica, um futuro jornalista, um quase engenheiro. Contaram-me das suas origens, dos lugares de onde vinham, dos sacrifícios que as famílias faziam para que estudassem na capital, do significado dos seus nomes próprios: sorte, prosperidade, riqueza. Falámos de sonhos e do futuro. Rimos. Tirámos fotografias. Abraçámo-nos. Anoiteceu. E naquele domingo à noite, tão semelhante a qualquer outro domingo à noite em qualquer outra parte do mundo, senti-me "simplesmente membro da família humana" (José Tolentino Mendonça).

domingo, 4 de janeiro de 2015

Vietname — Lost in translation



Ao fim de três anos a escrever para o Acordo Fotográfico impuseram-se alguns hábitos na hora de produzir um post. Normalmente, as primeiras frases nascem quando não estou na frente do computador, mas sim ocupada com tarefas corriqueiras como lavar a loiça, tomar banho ou regar as plantas. Esse é o ponto de partida. Mas depois, claro, sento-me à mesa da sala, ligo o portátil, pego no bloco e revejo as notas que tirei quando conversei com o leitor, numa tentativa de compor o resto da história que já começou a ser contada na minha cabeça. Foi tudo isso que fiz hoje de novo, pela 348ª vez. 

"08.06.2014 Hanoi / Nome do leitor: Bui Thanh Liêm (escrito pelo seu próprio punho) / Livro sobre Geografia da China e do Vietname" — a isto se reduzem as notas para o post de hoje, porque a barreira linguística não deu para mais conversa com Bui. Mas esta coisa pouca não me pareceu entrave. Podia explicar, como tenho vindo a fazer nos últimos meses, onde estava e o que fazia quando o conheci. Podia descrever os últimos momentos vividos em Hanoi, antes de voar para Macau, contar a minha intenção de passá-los na margem do lago e detalhar o percurso que fiz pela enésima vez pela rua Hàng Gai, no Old Quarter, a grande artéria que intermediava entre o meu hotel e o coração líquido da capital. Podia recordar essas horas longas, leves e livres que esbanjei a entrar e a sair de todas as lojinhas onde experimentei vestidos de seda que não comprei, mandei confeccionar por medida roupa em algodão e linho, usufruí dos serviços de um sapateiro ambulante e fotografei sofregamente pormenores da vida alheia, que aos meus olhos era repleta de exotismo. E então, fui procurar por entre as 23 mil fotografias da viagem as imagens do leitor do dia 08.06.2014. 

Sim, lembro-me bem do momento em que o conheci. Estranhei aquele estaminé de venda de acessórios para telemóveis e tablets, montado à entrada daquilo parecia um longo corredor escuro de acesso a habitações. Não o tinha visto ali antes, mas a verdade é que os vietnamitas são pródigos em negócios pop up... Demoro-me a apreciar as fotos e delicio-me com os detalhes que transpiram Vietname: os banquinhos azuis de plástico, que existem aos milhares por todo o lado; os chinelos bege também de plástico, que parecem ser o calçado oficial dos vietnamitas; a unha comprida do polegar que ajuda a virar a página do livro, sinal de quem não trabalha a terra. Mas há algo que não bate certo: o que faz uma caveira sinistra de caninos gigantescos na capa de um livro sobre a geografia da China e do Vietname? E estaria Bui assim tão interessado no tema para já estar a ler o terceiro volume? Só mesmo esta ferramenta diabólica que é a internet me poderia ajudar a desvendar o enigma em poucos minutos. 

Não foi preciso mais do que uma mensagem enviada pelo Facebook ao português amigo que vive e trabalha em Saigão. A resposta chegou, veloz: o livro, com o título "Loi Nguyen Lo Ban" (algo como "A Maldição de Lo Ban"), pertence a uma série de inspiração fantástica que relata a história de um homem que cria armas extraordinárias. Este génio despejou todo o seu conhecimento num livro misterioso. Aquele que um dia conseguir descodificar o seu conteúdo verá a sua vida devastada por uma terrível praga. 

Esqueçam, portanto, a geografia. Obviamente, algures durante a curta conversa com Bui, "perdemo-nos na tradução".