sábado, 23 de fevereiro de 2013

Natália & Oleg Roy


Adoro andar de comboio, por isso não hesitei em optar pelo Beijing/Shanghai Express Train em detrimento do avião para viajar entre aquelas duas cidades. A viagem, feita a trezentos quilómetros por hora, demorou cinco horas, tempo mais que suficiente para observarmos quem vinha na carruagem, ouvirmos as suas conversas sem perceber absolutamente nada, apreciarmos a paisagem coberta de neve durante boa parte do trajeto e ficarmos mortinhas de fome quando se aproximou a hora do almoço e toda a gente puxou pelo farnel. A carruagem inundou-se de aromas exóticos que nos abriram o apetite e nos obrigaram a ir até ao bar para ver o que poderíamos comer. Foi nesse trajeto entre o meu lugar e a carruagem do bar que passei pela Natália, uma russa de Yaroslavl que também viajava pela China na companhia de uma amiga. Aliás foi essa amiga que nos serviu de intérprete, porque a Natália não fala inglês. Só com essa ajuda pude ficar a saber que lia um romance de Oleg Roy, um dos mais populares escritores russos, e que o livro, numa tradução literal, tinha o seguinte título: "Husband, Wife and Lover" ("Marido, Mulher e Amante"). 

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Yang & Anni Baobei


Depois de termos passado o dia a visitar o Templo do Lama, o Templo de Confúcio e de termos deambulado por ruas apinhadas de gente que compravam incenso e amuletos ou comiam iguarias servidas por vendedores ambulantes, eu, a N. e a M. pegámos nas nossas bicicletas e fomos em busca de um restaurante para um almoço já tardio. Seriam umas 17h quando nos sentámos para comer. A meio da refeição a M. recebeu um telefonema da rádio portuguesa com a qual colabora. Pediam-lhe que entrasse em direto na emissão para uma entrevista, o que nos obrigou a procurar um local mais calmo. No restaurante, famílias inteiras, grupos de jovens e empregados levantavam as vozes numa algaraviada incompreensível e ensurdecedora, que ainda estranho. Se há coisa que se constata assim que se chega à China é que os chineses falam muito alto. 

Voltámos, a pedalar, a um café tranquilo e aconchegante em Guozijian (rua do Templo de Confúcio), onde já tínhamos feito uma pausa nesse mesmo dia. Tinha comentado com as minhas companheiras de passeio que aquele seria o local ideal para a minha primeira foto de um leitor em território chinês, mas não tive essa sorte. À falta de gente agarrada a livros, fotografarei detalhes do espaço e os dois ou três gatos mimados que por ali vivem. Mas mais uma vez tudo aconteceu como se já estivesse escrito. Como se eu tivesse de voltar àquele lugar. Graças à entrevista em direto da M. — que falaria para Portugal num programa matutino, quando em Pequim o dia estava a acabar — eu pude conhecer a Yang.

Sentada no fundo da sala, na companhia de uma bebida quente e abrigada das temperaturas negativas que faziam lá fora, a Yang lia um romance da sua autora favorita: a chinesa Anni Baobei. Porque teve a oportunidade de estudar em Londres, foi-nos possível entendermo-nos perfeitamente em inglês. Contou-me que o livro versava sobre uma espécie de história de amor, mas também sobre religião, nomeadamente o budismo. A meu pedido, arriscou uma tradução literal do título para inglês: "Sleep in Emptiness and Peace" (algo como "Dormir no Vazio e em Paz").

Deixei-lhe um marcador, claro. E também um sincero desejo de que pudesse, um dia, ver este post. Na China o acesso ao Blogspot e ao Facebook são proibidos. Mas pelo menos por email farei um esforço para que nos mantenhamos em contacto. 

O Acordo Fotográfico em alta no Brasil

Depois de ter sido referenciado no Don't Touch My Moleskine, um dos blogues mais influentes do Brasil, o Acordo Fotográfico foi destacado na revista digital brasileira TPM (Trip Para Mulheres) e mais recentemente na rádio CBN (que me parece fazer parte do universo Globo). Agradeço a todos esta ajuda preciosa na divulgação do Acordo Fotográfico!

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Nino, a caminho de Xangai


Quando cheguei ao aeroporto de Istambul tinha um par de horas de espera pela frente antes de embarcar no voo para Pequim. Como não poderia deixar de ser, o free shop revelou-se uma ótima distração, com direito à prova de guloseimas turcas e tudo. Depois dirigi-me para a sala de embarque e quando me sentei, olhei em redor e comentei com a minha amiga/companheira de viagem: "Agora o que vinha mesmo a calhar era aparecer alguém a ler". E é nesse momento que chega o Nino, que se senta mesmo ao nosso lado, abre a mochila e saca de um livro!

O Nino é siciliano e trabalha em Xangai. Regressava de uma visita à sua terra natal, Palermo, e trazia a mochila carregada de livros que tencionava ler nos próximos tempos. Porque está particularmente interessado em perceber o que se passa com a moeda única, a maior parte dos títulos era sobre o Euro e a crise económico-financeira na Europa. Quando o fotografei lia "La trapolla dell'euro. La crisi, le cause, le conseguenze, la via d'uscita".

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Anouch, a caminho do Recife


Foi no aeroporto da Portela, em Lisboa, que me cruzei com a Anouch, uma jovem francesa de Bordéus que aguardava pelo avião que a levaria até ao Recife, no Brasil. Quando me disse que falava português, achei que a Anouch seria descendente de portugueses, mas na verdade esta jovem aprendeu a falar o nosso idioma porque quis e fê-lo através da internet. Enquanto aguardava pelo embraque, lia "Des Fleurs Pour Algernon", um romance de ficção científica publicado em 1959. O livro conta a história de um jovem deficiente mental a quem um cientista propõe uma cirurgia radical que lhe permitirá adquirir novas capacidades intelectuais. Tudo corre bem e o protagonista do romance começa a tirar partido da sua nova condição, até ao dia em que a ameaça de uma regressão começa a pairar sobre si...

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Pedro & Orwell


O Pedro define-se como um leitor habitual, embora não seja frequente ter tempo para ler. Num noite fria, em Campanhã, encontrei-o num desses preciosos momentos, pelos quais tanto anseia, em que pode perder-se num livro. Lia "A Quinta dos Animais", de George Orwell, um título que diz adequar-se ao estado das coisas em Portugal.

Depois chegou o Alfa, que nos levou a ambos para sul. Saí na Gare do Oriente. Foi a minha primeira escala a caminho do Império do Meio.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Decidir num piscar de olhos


Não escrevi este post mais cedo porque o que me aconteceu tem-me dado que pensar. Até já comentei este assunto com alguns colegas de trabalho. No meu entender houve duas ou três coisas em que não fui muito feliz neste encontro e tudo resultou de um conjunto de preconceitos que construí numa fração de segundos enquanto caminhava em direção ao casal que lia. E eu, que sou particularmente sensível a isto das primeiras impressões e até já dediquei parte do meu tempo a ler sobre o assunto, ainda não parei de me questionar sobre o porquê. Que fatores influenciaram a minha perceção e me levaram a errar nalgumas conclusões, mas a não estar assim tão enganada em relação a outros aspetos?

Primeiro achei que o casal que vi a ler ao longe não era português e abordei-o em inglês. E o que é que justifica esta atitude? O facto de ter estado a falar com a Iris, que é alemã, uns minutos antes? Ou o ambiente da Ribeira do Porto pejado de turistas? Por muitas justificações que arranje, o que me influenciou foi algo tão superficial e falacioso quanto o aspeto do Manuel a da Virgínia. Julguei-os pelo seu ar e foi com surpresa que ouvi o Manuel dizer que era português.

Depois, também à medida que me aproximava deles, meti na cabeça que o livro que a Virgínia tinha nas mãos era um guia de viagens e quando me aproximei ainda mais achei que afinal era um dicionário. E por que raio tirei esta conclusão quando nem tive a oportunidade de olhar convenientemente para a capa do livro? Parti, portanto, do princípio que só o Manuel estava a ler um livro daqueles que interessam ao Acordo Fotográfico e foi ao Manuel que expliquei o que pretendia, ignorando por completo a Virgínia. Nem mesmo quando o Manuel perguntou à Virginia se se importava de ser fotografada me apercebi que estava a esquecê-la injustamente.

Por último, a cereja no topo do bolo: quando chegou o momento de entregar o marcador do Acordo Fotográfico fui indelicada ao ponto de entregar um marcador apenas ao Manuel. Pior: só me dei conta do que fiz muitas horas depois, já em casa, a ver as fotografias no computador. 
Por tudo isto, cara Virgínia, se ler este texto peço-lhe que aceite as minhas desculpas. Espero bem que voltemos a encontrar-nos um dia para poder entregar-lhe o marcador a que tem direito.

Só depois de tiradas as fotos, quando perguntei ao Manuel o que lia, é que me foi explicado que ambos liam o mesmo texto filosófico: Ensaios de Amor, de Alain de Botton. O Manuel estava a lê-lo em português pela primeira vez, e a Virgínia estava a relê-lo numa edição romena. Tinham decidido ler o mesmo livro ao mesmo tempo para terem a oportunidade de trocarem impressões em cima do acontecimento (como ilustra a foto), partilhando assim um tema de conversa. 

Volto, portanto, ao início deste texto. Afinal, eu não estava assim tão errada quando à existência de "algo estrangeiro" naquele quadro. Por muito difícil que fosse identificar esse "algo", houve um conjunto de pequeníssimos elementos que o meu cérebro detetou à distância e interpretou, permitindo-me numa fração de segundos construir uma primeira impressão. E desculpem-me este texto secante, mas acho tudo isto fascinante! culpa é deste livro, que li há alguns anos mas cujos ensinamentos não esqueço.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Português com sotaque


Descemos a Rua da Alfândega em direção ao Cais Estiva, na Ribeira do Porto, e foi o meu pai que me chamou a atenção para a menina que lia, sentada num banco, de frente para o Douro. "É estrangeira", disse eu, e estava convencida disso até que a contornei, me aproximei de frente e verifiquei que o livro que lia era português. Quando começámos a conversar, a leitora que eu teimava em achar estrangeira revelou falar português com um sotaque especial, que tinha um travo a Brasil e a algo mais. Vim a descobrir que a Iris é alemã e aprendeu a falar português em Salvador da Baía, onde teve a oportunidade de participar num intercâmbio. Disse-me que aprendeu assim e que não quer de forma nenhuma perder o sotaque. Mais recentemente, veio para Portugal trabalhar como au pair e depois empregou-se num restaurante. Mas a estadia entre nós está quase a chegar ao fim: a Iris regressa a casa ainda este mês. Hoje, aproveitou a maravilhosa tarde de sol para ler ao ar livre na ribeira, onde os edifícios antigos lhe fazem lembrar o Pelourinho, em Salvador. O livro era uma edição antiga de "A Lua de Joana", que comprou numa feira porque estava sem nada para ler.