sábado, 30 de março de 2013

Entre a China e Portugal há um fio condutor


Gosto destas coincidências. Quando iniciei a viagem em direção à China, tinha uma única fotografia para publicar — esta — e havia dias que me queixava da escassez de leitores. No entanto, assim que parti, os leitores foram surgindo e as suas fotos acabaram por passar à frente desta, tirada no jardim da Cordoaria. Na altura, o que eu não podia imaginar é que esta imagem, mais de um mês depois de capturada, iria permitir-me fechar o périplo chinês e voltar às fotos portuguesas através de um fio condutor chamado Oscar Wilde. A Maria, que foi a última leitora que fotografei a oriente, lia os seus contos; o Rui, que fotografei mesmo antes de partir, lia "O Retrato de Dorian Grey". Contou-me o Rui que havia pouco mais de um ano que tinha retomado o interesse pela leitura e que decidira dedicar-se aos clássicos. Escolheu Oscar Wilde por estar referenciado como um autor fundamental e optou pel' "O Retrato de Dorian Grey" por ser o seu único romance. A escolha não o desiludiu: estava a gostar imenso.

terça-feira, 26 de março de 2013

Maria & Oscar Wilde, no 798


Há em Pequim uma espécie de Lx Factory gigantesca. Comparada a Greenwich Village ou ao SoHo, em Nova Iorque, o Bairro das Artes 798 (também conhecido por 798 Art Zone ou 798 Art District) instalou-se numa área da capital chinesa onde, na década de 50 dos século passado, funcionou um complexo industrial para fabrico de armamento. Esse complexo foi originalmente erguido com a colaboração da antiga Alemanha de Leste a cargo da qual ficaram os projetos de arquitetura, daí a maior parte dos edifícios ter claras influências do estilo Bauhaus. 798 era o número de uma das unidades de produção desta enorme estrutura fabril, que começou a entrar em decadência no início dos anos 90 com as reformas políticas levadas a cabo por Deng Xiaoping. Por essa altura, a crescente comunidade artística de Pequim procurava um local para instalar-se, e os inúmeros edifícios que ficaram desocupados revelaram-se adequados para albergá-los, assim como às obras que estavam dispostos a criar. Hoje em dia funcionam neste complexo, que ocupa muitos milhares de metros quadrados, inúmeras galerias de arte, oficinas, gabinetes de design e arquitetura, ateliers de estilistas, editoras, livrarias (uma das quais, propriedade da neta de Mao Tse Tung), lojas de decoração, cafés, restaurantes e clubes noturnos. O Bairro das Artes 798 é, em suma, o local mais em voga de Pequim, o spot preferido pela emergente comunidade "Bo-Bo" (bourgeois-bohemian) da capital, e tem como anfitrião mais conhecido o polémico artista plástico Ai Weiwei. Eu tive a sorte de poder lá passar uma tarde inteira!

A pausa para o almoço fez-se num restaurante de estilo europeu com menu italiano. A decoração, muito trendy, era simples, despojada. Predominavam os tijolos vermelhos do edifício antigo, o aço escovado, a cozinha aberta para a sala de refeições e o branco de algumas paredes decoradas com cartazes de exposições e eventos. As grandes janelas permitiam a entrada de luz natural. Em cima da mesa, os individuais em papel exibiam fotografias de clientes ilustres. Entre eles, descortino Durão Barroso, identificado na legenda como Presidente da Comissão Europeia. O ambiente é distinto e jovem. Predominam os clientes ocidentais.

Atrás de mim sentou-se, sozinha, a Maria, uma russa que vive e trabalha em Pequim. Lia enquanto aguardava pela salada que pedira. O livro era uma edição russa dos "Contos de Oscar Wilde". Disse-me a Maria que já os tinha lido quando era criança, mas que quis recordar o fundamento moral das histórias que não entendeu plenamente na altura por ser demasiado nova.

domingo, 24 de março de 2013

A Guerra dos Tronos em Pequim


Uma das maiores evidências, quando se passa algum tempo na China, é que naquele país trabalha-se muito. Não vou tecer considerações sobre as condições de trabalho, as remunerações auferidas ou a maior ou menor qualidade de vida daí resultante. Fico-me, apenas, por esta constatação e volto a sublinhar: na China trabalha-se muitíssimo! No dia a dia, pelas ruas das cidades que visitei, essa capacidade de trabalho, entre muitas outras coisas, reflete-se no comércio, que é pujante: há milhares de vendedores de rua, mercados cobertos ou a céu aberto, uma panóplia interminável de negócios de restauração, todo o tipo de lojas de comércio tradicional, franchisings de todas as grandes marcas globais (das mais luxuosas às mais corriqueiras) e um sem número de shoppings abarrotados de clientes. Foi num desses shoppings — o Raffles City do bairro de Dongzhimen, em Pequim — que conheci o Eric, um americano que lia o primeiro volume de "A Game of Thrones". Tinha acabado recentemente de ver a série televisiva e um amigo emprestara-lhe o livro. Por estar ainda muito no início (tinha lido pouco mais de 50 páginas) não me pôde dizer se o livro era ou não superior à série. 

quarta-feira, 20 de março de 2013

O Poder do Hábito


Na mesma sala de embarque do aeroporto de Hong Kong onde fotografei o Rou, abordei um outro leitor chamado Zhou. Zhou lia "The Power of Habit", um livro que revela as mais recentes descobertas científicas sobre os hábitos: por que existem, como funcionam e como podemos mudá-los. No entender de Zhou, o tema é de grande interesse uma vez que, para o bem ou para o mal, os hábitos nos definem, daí ser importante saber identificá-los e, se necessário, mudá-los.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Um pequeno leitor, em Hong Kong


Senti-o pela primeira vez em Kowloon. Tínhamos de nos ir embora e eu não conseguia afastar os olhos da deslumbrante paisagem urbana do outro lado da baía. Hong Kong by night viciou-me como nenhuma outra cidade antes. Na manhã seguinte, chego ao aeroporto e o nó da véspera adensa-se na garganta: a viagem está a chegar ao fim. Permito-me ceder um pouco ao cansaço. A mochila parece pesar o dobro, embora carregue quase o mesmo. Não partilho com a N. o que me vai na alma. Afinal, temos ainda pela frente dois dias em Pequim e as férias só terminam no momento em que me sentar à secretária, no trabalho. Não vou dar parte fraca.

Na sala de embarque, algumas filas à minha frente, senta-se uma família: o pai, a mãe, o filho. No país onde os miúdos parecem nascer acoplados a todo o tipo de telemóveis, tablets e consolas, este filho traz antes um livro que abre e começa a ler. Comento com a N.: "Seria o primeiro pequeno leitor fotografado na China." E lá fui eu. Dirijo-me aos pais para constatar que não dominam o inglês. Repito-me uma e outra vez (in english!), sempre sorridente, para mostrar que venho por bem. Acabo por me fazer entender e é-me concedida a fotografia. Antes, entrego o marcador e posso ver que o livro em causa é de banda desenhada, a primeira BD do Acordo Fotográfico. Acho que o Rou Yan Tong ficou muito bem na fotografia. Terei eu ficado bem nos retratos que o pai me fez enquanto eu lhe retratava o filho? Vou ver se me enviam as fotos da China.

PS - As fotografias já estão disponíveis aqui e aqui. :)

quinta-feira, 14 de março de 2013

O Segredo de Yuki, em Hong Kong


Uma vez chegadas a Hong Kong a nossa primeira visita, de manhã bem cedo, foi ao Victoria Peak, talvez a atração turística mais importante da cidade. O acesso a esta montanha, que tem mais de 550 metros de altura, é feito através de um funicular inaugurado em 1888, que se assemelha muito aos nossos velhinhos elétricos e cujo grau de inclinação, à subida e à descida, faz disparar os níveis de adrenalina. Uma vez chegadas ao topo, percebemos por que razão esta é uma das melhores maneiras para começar a explorar Hong Kong: a vista é deslumbrante! À nossa frente estendem-se os excêntricos arranha-céus, que albergam todo o tipo de empresas, sobretudo da área das finanças; depois o imenso porto e, para além deste, no lado oposto da baía, o frenético bairro de Kowloon, onde acabámos por passar a maior parte do nosso tempo. Naquela manhã de céu limpo, sol e temperaturas primaveris as horas correram velozes, enquanto nos passeámos pelos jardins onde, a cada curva, se descobria por entre a vegetação mais uma paisagem que não podia deixar de ser apreciada com espanto e fotografada dezenas de vezes. 

Mal tínhamos acabado de sair do funicular, já eu comentava com a N.: "O que era mesmo bom era encontrar alguém a ler aqui em cima". E mal acabo de proferir esta frase, olho para a direita, para dentro de um Starbucks, e vejo uma mulher a ler junto a uma das grandes janelas do café. A Vicky é japonesa e vive em Hong Kong, onde é dona de casa. O livro que tinha consigo era uma edição japonesa d' "O Segredo", um livro de autoajuda escrito por Rhonda Byrne e editado em 2006, que já terá vendido cerca de 20 milhões de exemplares em todo o mundo. Verdadeiramente surpreendente foi saber que esta não era a primeira vez que Vicky lia o livro. Gosta tanto da sua mensagem que o lê uma vez por mês e quando a fotografei estava em plena décima leitura.

terça-feira, 12 de março de 2013

No Jardim Luís de Camões, em Macau


Em Macau há um jardim que tem o nome do nosso poeta. E se havia lugar onde eu queria fotografar alguém a ler era ali. Mal entrámos vi-o e a emoção foi muita. Aproximei-me: "Do you speak english?". Respondeu que não, abanando a cabeça. "Português?", arrisquei. Outro gesto negativo. E eu que queria tanto, mas tanto aquela fotografia... Investi de novo e, com uma mistura de palavras soltas — photo, you, read, book — e gestos enfáticos, pedi-lhe que me deixasse fotografá-lo. Sorriu, aquiesceu e retomou a leitura enquanto eu pressionava o disparador várias vezes. Tremiam-me as mãos e falhava o foco. Só depois de ter conseguido pelo menos uma boa imagem é que lhe entreguei o marcador. E mais uma vez palavras soltas: "photo, you, internet". Ver-se-á algum dia no Acordo Fotográfico? É provável que eu nunca venha a saber. 

domingo, 10 de março de 2013

Angel Liu, a 10 mil metros de altitude


Durante toda a viagem, a N. revelou-se uma ótima spotter de leitores e foi ela quem me chamou a atenção para a miúda sentada à nossa frente que estava a ler. Por aquela altura, o voo já levava umas duas horas, a agitação da refeição já tinha passado e o pessoal de bordo apagara as luzes da cabine para que os passageiros pudessem relaxar um pouco. Éramos as únicas ocidentais no A320 da Juneyao Airlines que fazia a ligação entre Xangai e Macau, e o facto de me ter levantado para abordar uma estranha em inglês e fotografá-la gerou alguma curiosidade. 

A Angel Liu e o seu namorado (ou marido, não pude perceber) são de Ningbo, na província de Zhejiang, uma das cidades mais antigas da China, cuja história remonta a 4800 anos antes de Cristo. Iam passar uns dias a Macau antes de seguirem para a Tailândia e consumir, desta forma, a única semana de férias que têm durante todo o ano. Não imaginam o seu espanto quando lhes expliquei que em Portugal temos pelo menos 22 dias úteis de férias... 

Durante o voo, a Angel Liu aproveitou para ler um livro de autoajuda da escritora mais popular de Taiwan — Tiffany Chang —, cujas histórias simples ajudam os leitores a redescobrirem-se. Traduzido literalmente, o título seria algo como "Meet Yourself in the Future" (Encontre-se no Futuro). Quem voltou a encontrar-se fomos nós, dois dias mais tarde, na ruelas intrincadas de Macau. Na verdade, foi a Angel Lin quem me abordou, porque eu não a teria reconhecido. O momento também ficou registado.

sábado, 9 de março de 2013

Nagasáqui em Xangai


Quando me sentei ao seu lado, num dos terminais do Shanghai Pudong International Airport, a folhear com toda a naturalidade a edição de fevereiro da Time Out Shanghaiescrita de fio a pavio em Mandarim, o Quansheng não se conteve e perguntou-me com muita delicadeza, em inglês: "Desculpe, consegue ler tudo o que aí está?". Soltei uma gargalhada, e respondi-lhe, divertida, que não, que tinha comprado a revista porque achara a capa magnífica e porque era uma recordação que levava da cidade. Depois, foi a minha vez de lhe perguntar onde tinha aprendido a falar tão bem inglês, ao que me respondeu que tinha estudado na Nova Zelândia. Foi então que lhe confidenciei estar surpreendida com o facto do inglês ser razoavelmente dominado pela maioria das pessoas com quem tinha contactado até então, o que contrariava a ideia que se tem a ocidente de que a comunicação com os chineses é difícil. Ainda assim, minutos antes, tinha abordado uma jovem que lia numa sala de embarque e que não percebeu uma palavra do que lhe disse. Não pude, por isso, fazer a foto...

Daí a uns instantes, movida por um desejo repentino, levantei-me para ir até uma loja comprar chocolates e no regresso ao meu lugar deparei-me com o Quansheng a ler. Agradeci à vida, que teima em fazer-me as vontades, e fiz a fotografia. O livro era uma edição chinesa de "Nagasáqui", um romance do francês Eric Faye que tem lugar naquela cidade japonesa e que reflete sobre o individualismo e a solidão. 

De Shanghai, o Quansheng partiu para a sua terra natal, numa provincia chinesa distante. Eu e a N. rumámos para Macau. 

quinta-feira, 7 de março de 2013

Estão todos convidados!


É com grande alegria que vos convido a visitar a exposição do Acordo Fotográfico, na linda cidade de Guimarães. O ideal seria poder contar com a vossa presença no dia da inauguração mas, caso não possam vir já, terão até meados de junho para passar pelo Espaço Cultural Portas da Vila.

terça-feira, 5 de março de 2013

He Lei, no Templo do Buda de Jade


O Templo do Buda de Jade é o templo mais importante de cidade de Xangai. Fundado em 1822, alberga dois budas de jade branco trazidos da Birmânia. É aqui que os habitantes da cidade, assim como os eventuais turistas chineses, realizam os mais variados rituais, desde cerimónias diárias comuns, cerimónias em honra de familiares falecidos ou cerimónias estipuladas pelo calendário budista. 

No dia em que o visitei, o templo tinha sido invadido por uma multidão. O novo ano chinês — ano da Serpente — começara havia menos de uma semana e muitos rituais tinham de ser cumpridos: orar perante as imagens de Buda, ofertar velas em forma de flor de lótus, queimar incenso e resmas de delicados papéis coloridos depois de cuidadosamente preenchidos. O ruído das gentes, o cheiro a incenso, o fumo denso e as cores vibrantes típicas dos templos budistas têm, em almas ocidentais nada habituadas a este género de ambientes, um efeito atordoante.

Muito perto da entrada do templo, numa ala logo à esquerda, passei pela porta de uma sala comprida onde, num contraste com a agitação que ia lá fora, reinava o silêncio quase absoluto. Aí, monges sentados atrás de guichés atendiam utentes do templo. Foi nesse "oásis" que vi a He Lei, visivelmente grávida e de rosto sereno, concentrada nas páginas de um livro sobre os primórdios do budismo.

sábado, 2 de março de 2013

Carlos & The Founding Fathers


Não foi há muito tempo que vi, num dos canais por cabo, um documentário sobre a conceção e construção do Shanghai World Financial Center, o arranha-céus mais alto de toda a China, que demorou onze anos a ser erguido. Lembro-me de ter pensado, na altura, que gostaria muito de poder visitar este edifício impressionante, assim como gostaria muito dar a volta ao mundo ou ir à lua. Estava, portanto, muito longe de poder imaginar que este desejo alguma vez se concretizaria...

Para além de contar com o famoso Sky Walk — o mais alto observatório de todo o mundo, situado a quase 500 metros de altura e totalmente transparente, que permite uma deslumbrante vista panorâmica sobre a cidade —, o Shanghai World Financial Center integra escritórios, um hotel de luxo, um centro de congressos, um centro para a cultura e os media e um centro comercial. Foi aí, na zona da restauração, que passei pelo Carlos, que estava sentado ao balcão de um restaurante japonês. 

O Carlos é um americano-colombiano que trabalha em Xangai e que naquele sábado tinha por companhia, à hora do almoço, o livro "American Sphinx: The Character of Thomas Jefferson", uma biografia que vai de encontro ao fascínio que sente por tudo o que diz respeito aos fundadores dos Estados Unidos e pela Revolução Americana.