quinta-feira, 31 de maio de 2012

Ler para começar bem o dia


Quem trabalha na Rua da Restauração, no Porto, e não pode dispensar o uso do carro sabe o quanto são disputados os poucos lugares de estacionamento que lá existem. Por isso, são muitas as pessoas (eu incluída) que se esforçam por chegar muito antes da hora de entrada no trabalho para poder garantir um lugar. Alguns optam por se sentar de imediato à secretária, outros aproveitam os 40 ou 30 minutos que ainda têm livres até às 9h para pôr a leitura em dia. Faço-o muitas vezes. 

Uma destas manhãs, ao subir a rua, passei pelo carro da Rita e não pude deixar de notar que estava a ler. A fotografia era inevitável! O livro em causa era "A Independência de Uma Mulher", da autora australiana Colleen McCullough, que a Rita fez questão de sublinhar ter comprado na WOOK. Chamou-lhe a atenção a frase que está destacada na capa — "Retoma um dos grandes clássicos de sempre, Orgulho e Preconceito de Jane Austen." — e a história, um misto de romance e suspense com raptos e homícidios pelo  meio, não a desiludiu. Tinha começado a ler o livro havia 4 dias e já estava a acabá-lo.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Paixão por Murakami


O David estuda Biotecnologia na Universidade de Aveiro e aproveita as constantes viagens de comboio para ler. Na tarde em que o conheci, no Moustache, estava a ler "A Rapariga Que Inventou Um Sonho", de Haruki Murakami, livro que lhe foi recomendado pela namorada. O David, que nunca tinha lido nada deste autor, disse-me ter ficado apaixonado pela sua escrita. Tão apaixonado que no momento em que acabou o livro voltou de imediato ao início para relê-lo. Assim mesmo, sem qualquer intervalo. Depois desta segunda leitura tinha à sua espera "Kafka à Beira Mar", um livro dos pais que vinha mesmo a jeito para alimentar esta sua paixão arrebatadora.

domingo, 27 de maio de 2012

Maria das Dores & Etty Hillesum


Contou-me a Maria das Dores que devora livros desde criança. Quando andava na escola, por exemplo, fazia um vistaço porque era frequente antecipar-se às leituras que os professores recomendavam. Na tarde em que a encontrei, esta ex-professora de Português e Inglês estava a ler "Diário 1941-1943", de Etty Hillesum, uma jovem intelectual judia que morreu em Auschwitz em 1943. Curiosamente, o livro tinha sido ganho no sorteio realizado entre os elementos do grupo da igreja a que a Maria das Dores pertence, por ocasião de uma ida a Fátima. Embora ainda estivesse a ler as primeiras páginas, afirmou estar a gostar e sublinhou que até já se identificava com a autora, que afirmava estar sempre nos braços de Deus. "Eu também estou sempre nos braços de Deus", disse-me a Maria das Dores. Sorri ao antecipar o prazer que me daria escrever este post imbuído de espírito ecuménico. 

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Ana, a super-heroína


"Se eu não estivesse a ler este livro diria que não. Mas como estou a ler este livro digo que sim." Foi desta forma que a Ana me respondeu quando lhe pedi que me deixasse fotografá-la. E depois explicou-me que este "sim" se devia ao facto de acreditar que as pessoas entram nas vidas umas das outras com um propósito e que as coincidências não existem. Entendi este "sim" como uma forma de abrir os braços à minha presença na sua vida e de estar atenta aos "ensinamentos" resultantes deste nosso encontro. E também eu lhe abri os braços e aceitei ouvi-la e aprender com o que tinha para me contar. 

Entrei no café Lavazza, que fica em frente ao Teatro Sá da Bandeira, para comer um gelado e foi aí que a encontrei a ler "As Sete Leis Espirituais dos Super-Heróis", um livro que o famoso guru Deepak Chopra escreveu com a colaboração do seu filho Gotham. Habituada a refletir sobre o que lhe vai acontecendo na vida, a Ana precisou de regressar a este autor (de quem já leu outros livros) para, a propósito de episódios marcantes que experienciou, se debruçar de novo sobre a questão do bem e do mal. E também porque sente que, com o avançar da idade, está cada vez ao mais ao serviço do outro e que, desse ponto de vista, tem muito de super-heroína. 

No que me diz respeito, esta é a maior virtude do Acordo Fotográfico: a descoberta dos outros e dos seus mundos a propósito dos livros. Quando comecei este projeto, nunca pensei que a sua dimensão humana assumisse estas proporções. Há fotos, sim; há livros, claro; mas há acima de tudo pessoas, gente generosa que com poucos minutos de conversa enriquecem o meu mundo muito para além daquilo que alguma vez poderia ter imaginado. Acredito que é isto que se leva desta vida. Tudo coisas sem preço.

terça-feira, 22 de maio de 2012

O Autor & O Livro - II



No último domingo assisti pela primeira vez a um "Porto de Encontro", um ciclo de conversas com escritores que acontecem mensalmente no auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett.

Esta sétima edição do evento teve como convidado Francisco José Viegas, atual Secretário de Estado da Cultura, que assume ser, acima de tudo, escritor. Afirmou, aliás, que apesar da manifesta falta de tempo, recorre à escrita por uma questão de sanidade mental e que, no que lhe diz respeito, a literatura nunca para porque "uma pessoa não está escritor. É." E, para surpresa de muitos, anunciou que em breve será editado um novo romance seu chamado "O Colecionador de Erva", um policial que terá como protagonista o carismático Inspetor Jaime Ramos.

Foi no final da conversa, à saída do auditório, que lhe pedi uma fotografia  para a rubrica O Autor & O Livro do Acordo Fotográfico, pedido a que respondeu positivamente com a simpatia que lhe é conhecida. Aqui fica o retrato de Francisco José Viegas (com o seu último romance publicado), o escritor que está Secretário de Estado da Cultura e para quem "às vezes, a vida que vem nos livros é que é a verdadeira."

domingo, 20 de maio de 2012

Gustavo & João Guimarães Rosa



Numa tarde de flea market nos jardins do Palácio de Cristal, encontrei o Gustavo a reler as "Primeiras Estorias" de João Guimarães Rosa, um dos maiores escritores brasileiros de sempre. O Gustavo, também ele brasileiro, está no Porto para estudar Literatura e é nesse âmbito que regressa, em particular, à leitura do conto "Nenhum, Nenhuma", sobre o qual pretende fazer um trabalho. Nesta curta narrativa, que ele considera uma das mais complexas do livro, é-nos contada, através de uma bruma, a história de um homem de idade que tenta reformular uma recordação de infância. Este homem não sabe por que razão precisa de recordar esse episódio longínquo, mas sabe que só encontrará paz quando fôr capaz de fazê-lo... Na opinião do Gustavo, o conto disserta sobre a sabedoria, as relações entre pessoas e a proximidade da morte.

Ainda que a sua atenção se foque especialmente no texto "Nenhum, Nenhuma", o Gustavo recomenda com grande entusiasmo a leitura de todo o livro. Os contos, curtos e profundos, podem não ser fáceis de ler, mas são, no seu entender, "uma pérola, uma obra-prima fantástica".

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Liliana no Moustache


Se há sítio que gosto de frequentar na baixa do Porto é o Moustache. Este espaço, que abriu há uns meses na Praça Carlos Alberto, foi com toda a certeza minuciosamente concebido. Só isso explica que, ali, tudo resulte tão bem. A decoração é simples e ao mesmo tempo sofisticada, a música é sempre bem escolhida, o atendimento de extrema simpatia, os capuccinos e os macarrons deliciosos e as poltronas do andar de cima uma perdição de tão confortáveis. Já me aconteceu sentar-me para um café após o almoço e esquecer-me completamente que tinha de voltar ao trabalho... Mas há mais um detalhe que, para o Acordo Fotográfico, é a cereja no topo do bolo: no Moustache há prateleiras cheias de livros ao alcance de todos os clientes!

Nesta última vez que lá estive conheci a Liliana, que estava a almoçar. Ao sentar-se para comer chamou-lhe a atenção a capa do livro "Cartilha dos Amores Secretos", um volume que reúne contos de autores portugueses sobre o amor e que conta, também, com belíssimas fotografias a preto e branco. Decidiu, por isso, folheá-lo e acabou por ler na íntegra o conto "O Embarque Para Citera", de Urbano Tavares Rodrigues. 

terça-feira, 15 de maio de 2012

Falar de Agustina junto ao Douro


A serenidade da Alexandra e do Jorge contrastava com o bulício dos turistas e dos vendedores ambulantes que agitavam a Ribeira do Porto. Sentados num banco de frente para o Douro, pareceram-me alheios à confusão, como se estivessem a sós com o sol, o rio e o livro que o Jorge tinha pousado no colo. Quando me disse que se tratava de "Antes do Degelo", um romance de Agustina Bessa-Luís, senti que tudo se conjugava de forma harmoniosa. Afinal, que melhor local haveria para se falar de Agustina senão precisamente aquele, junto ao rio que marcou profundamente a sua vida e a sua obra?

Para o Jorge, Agustina Bessa-Luís é provavelmente a melhor escritora portuguesa viva, e uma das melhores escritoras portuguesas do século XX. No seu entender, não existe nenhum outro autor com a sua grandeza na prosa, que recorre a expressões de um certo português já desaparecido. Elogia-lhe a frontalidade, a atitude politicamente incorreta, a avaliação sarcástica e impiedosa que faz das pessoas, independentemente do estrato social a que pertencem. E sublinha, precisamente, essa forma muito democrática de olhar o mundo. 

Admiti que de Agustina li apenas um livro, que me foi oferecido por uma amiga nos profundos anos noventa. Julgo que não tive, na época, arcaboiço para digerir as "Memórias Laurentinas", que me deixaram um sabor amargo. Retive, sobretudo, a acidez para com as mulheres e lembro-me de ter comentado com alguém que me incomodava aquela escrita masculina... Conversar com a Alexandra e com o Jorge fez-me reconsiderar tudo isto e concluir que terei de regressar à prosa de Agustina Bessa-Luís. Espero que o que vivi e aprendi entretanto me permita entender que, tal como o Jorge afirmou, a Agustina "é uma mulher que está para além do género".

domingo, 13 de maio de 2012

Carsten & Steve Jobs


Carsten é belga, veio a Portugal pela terceira vez, mas esta foi a sua primeira visita ao Porto. Encontrei-o na Praça da Ribeira (também conhecida por Praça do Cubo), no coração do Centro Histórico da cidade, uma zona que foi classificada como Património Mundial da Humanidade em 1996 e que é de passagem obrigatória para qualquer turista que venha à Invicta. Naquela tarde Carsten, que tem particular interesse na área da informática e da engenharia, estava a ler a muito badalada biografia de Steve Jobs com o objetivo de saber mais sobre a personalidade deste homem e sobre a construção do seu império. Uma leitura que recomenda vivamente.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Maria João & Os Jogos da Fome


Saí do edifício onde trabalho, na Rua da Restauração, e vi-a de imediato no passeio oposto. Sentada assim, enquanto lia, estava irresistível. Tinha de a fotografar! Deixei pendurado um colega a quem tinha prometido uma boleia e atravessei a estrada a correr. Apesar da minha abordagem algo atabalhoada, a Maria João sorriu-me e aceitou ser fotografada. À semelhança do que tem vindo a acontecer com as "Crónicas de Gelo e Fogo" ou com a trilogia "Millennium", também a Maria João quis ler "Os Jogos da Fome" depois de ter visto o filme no cinema. Leitora ávida desde pequena, estava a começar "A Revolta", o último volume desta saga distópica, enquanto esperava que a mãe saísse do trabalho.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Fátima & Bucay


Vi a Fátima na esplanada do Lais de Guia, em Matosinhos, concentrada na leitura de "Amar de Olhos Abertos", do psiquiatra e psicoterapeuta argentino Jorge Bucay. O livro foi recomendado por uma psicóloga a uma amiga da Fátima que, por ter achado o tema interessante, decidiu lê-lo também. Quando lhe pedi que me falasse deste romance que pisca o olho à autoajuda, explicou-me que o autor se debruça sobre a tomada de consciência das diferenças entre homens e mulheres, que têm formas muito distintas de estar e de viver. E salientou que, em nome da boa convivência entre géneros, se torna muito importante não só saber ouvir, como também nunca se assumir que somos os únicos donos da verdade. Posto assim, parece tudo muito simples, não é?

domingo, 6 de maio de 2012

Gonçalo & Winnie the Pooh


O Gonçalo, que adora livros, é um miúdo cheio de sorte porque não só a família lhe alimenta esse gosto, como também já herdou uma pequena biblioteca do irmão mais velho. Encontrei-o no Porto Book Stock Fair, no Pavilhão Rosa Mota, ao colo do pai Fernando que lhe lia uma história do Winnie the Pooh. Foi o próprio Gonçalo que fez esta escolha literária e, por ele, ter-se-iam sentado imediatamente no chão, juntos às bancas, para folhear o livro, tal como costuma fazer no seu quarto. Mas o pai levou-o para os sofás que estão à disposição dos visitantes da feira e eu aproveitei a ocasião para registar o momento para a posteridade. Aqui fica esse instante de leitura, cumplicidade e ternura.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Nuno e os clássicos


O Nuno admitiu que até há uns anos não era grande leitor. Mas um dia decidiu que isso teria de mudar. E então, qual forcado, cheio de bravura, pegou de caras Tolstoi e Dostoievski e leu tudo o que encontrou destes dois autores. Quando o vi na esplanada do Lais de Guia, em Matosinhos, lidava outro nome maior da literatura: o nosso Eça de Queirós. O Nuno relia "Os Maias", numa edição da Ulisseia cuja data o livro não refere, mas que é suficientemente antiga para ter custado 810 Escudos + IVA (preço gravado na contracapa). E porquê reler "Os Maias"? Porque, de acordo com o Nuno, quando leu este romance pela primeira vez, nos tempos da escola, era demasiado novo para valorizar certos detalhes do texto. E deu este trecho como exemplo: "Sofrer em silêncio por ter traído um amigo, aprende-se exatamente como se aprende a não meter os dedos no nariz. Questão de educação...".

terça-feira, 1 de maio de 2012

Sofia e a Lei


Encontrei a Sofia a preparar-se para um dos momentos mais importantes da sua vida: a realização dos exames da Ordem dos Advogados. Quando a vi, ocupava uma mesa no interior do Lais de Guia, em Matosinhos, com inúmeras folhas de apontamentos e um enorme volume que lia e sublinhava. Explicou-me que é advogada estagiária, que tinha acabado o mestrado na semana anterior e que só agora tinha tido a oportunidade de começar a estudar para as seis provas marcadas para dali a uma semana. Em apenas três dias a Sofia, que quer mesmo ser advogada, teria de mostrar tudo o que sabe sobre Processo Civil, Processo Penal e Deontologia Profissional.

Não sei se, neste momento, já terá feito todas as provas. Desejo-lhe, ainda assim, o maior sucesso quer nos exames, quer na sua futura carreira. Espero, sobretudo, que nesta fase decisiva a sua cabeça não lhe falhe como me tem falhado a minha. Pela primeira vez, na curta história do Acordo Fotográfico, esqueci-me completamente de perguntar pelo título do livro que estava a ser lido...